Emiliano José
Tenho falado, tentado revelar a celebração dos meus 80 anos, gancho, como costumamos dizer no jornalismo, para reunir amigos e familiares.
Realizar a cerimônia do encontro, e do reencontro.
Em amplo sentido.
Até as pessoas mais íntimas, no dia a dia da agitação frenética da vida, nos escapam.
Não prestamos a devida atenção.
Por isso, falo em reencontro, também.
Penso em Teo, meu filho, presente. Ele, Luiza e Júlia, as duas filhas, minhas netas, e Marla, com quem se casou recentemente, e Mateo, neto a vir ao mundo nos próximos meses, creio que junho, julho.
Dei a ele o nome de Teodomiro em homenagem a Theodomiro
Romeiro dos Santos, companheiro de prisão por quatro anos, personagem de livros meus, amigo muito querido, de partida definitiva recente. Nunca perguntei a Teo – faltou o h, recusado pelo cartório – se ele tinha alguma objeção, não creio.
Orgulho ser pai dele. Aos poucos, o pai vai recebendo as lições do filho. Por muito tempo, imagina ser o que ensina. Depois de algum tempo, começa a receber ensinamentos, e isso só à medida da passagem dos anos, com a cria já adulta, formada.
Teo aprendeu a ser paciente, tolerante, negociador, conciliador, no melhor sentido.
Não é sujeito sem posição.
Tem, e é de esquerda, nunca transigiu.
Mas, capaz de ser amigo de pessoas com as quais não concorda.
Ele é do abraço, sempre.
Eu, também, até porque envolvido com a vida política.
Ele, no entanto, mais amplo.
Mais compreensivo com o ser humano.
Mais conhecedor das fragilidades, a atentar para as singularidades de cada pessoa.
Às vezes, pondero, a essa altura só pondero, sobre essa ou aquela situação, propondo mais arrojo, e ele, sensato, sempre me adverte para soluções menos radicalizadas, mais compreensivas, a levar em conta a pessoa, no mínimo os dois lados dela, o médico e o monstro, e eu, logo depois, tenho de dar o braço a torcer, dar razão a ele.
Isso diz respeito às netas, a outros familiares, às pessoas de nossa intimidade ou não. É amoroso, Teo sempre foi. Pai, quando olha o percurso, localiza os erros, os destemperos na criação do filho, da filha. Eu, certeza de muitos erros cometidos, e omissões, porque vida política nos afasta da família, queiramos ou não.
Nem sempre atentamos para isso. Só nos últimos anos, percebi melhor isso, e nem cabe lamento, apenas constatação. A vida vai nos ensinando.
Hoje, nesses 80, posso celebrar o filho amoroso, capaz de construir centenas de amizades, de me dar amor, firme nas posições políticas de esquerda, excelente pai, e tornando-se mais e mais maduro, já na casa dos 50 anos, um menino ainda, não obstante bem mais experiente, e cujas qualidades foram sendo aprimoradas.
Nesses 80 anos, celebro Teo, querido filho, hoje enlaçado pelos braços amorosos de Marla, e pronto a receber Mateo, neto a fazer companhia aos pais e a Luiza e Júlio. E a mim.
E hoje é aniversário de Valter Xeu. Vou logo avisando: ele não terá direito de vetar esse trecho, onde comemoro o aniversário dele.
Não sei quantos anos está fazendo. Talvez cem, sei lá. É personagem do meu romance, jamais concluído. Alguns, estão nele. Valter Xéu, sem dúvida.
Jornalista, como eu. Claro, estava no meu aniversário, como sempre. Somos parceiros de profissão e de ideais. Os dois, envolvidos profundamente na solidariedade a Cuba, à Revolução Cubana.
Ele, internacionalista de carteirinha. Transita pelo Irã, pelo Vietnã, Venezuela, mas especialmente pela Ilha caribenha, onde já esteve mais de 60 vezes, onde tem filha e amizades a mão cheia.
Fundador do Pátria Latina, cuja origem remonta a uma conversa com o próprio Fidel Castro, que abençoou a iniciativa. Ele agarrou o touro pelo chifre, e Pátria Latina seguiu adiante, está aí até hoje, ao lado sempre das lutas dos povos oprimidos do mundo inteiro.
Personagem de meu romance, insisto. Pena que a ausência de talento impeça a conclusão. Não deixo, no entanto, de registrar minha admiração e respeito. Obrigado pela presença nos meus 80. Parabéns pelo centenário, meu companheiro. Se não tiver completado ainda, certamente tem sido uma vida a valer um século, tão rica e dedicada ao nosso povo.