Bem orientados, os três pesquisadores sopraram o fogo da tradição considerado extinto por muita gente, mas que ainda pode iluminar e aquecer, segundo Jean Jaurés (1859-1914) falante de occitano, uma língua do sul da França, país – pasmem – com mais de 70 línguas que, minorizadas, convivem anonimamente com o francês, idioma oficial. Em 1911, Jaurés reivindicou o uso nas escolas de três dessas línguas: o occitano, o bretão e o euskera para preservar a tradição tão ameaçada lá quanto no Brasil, onde se cometeu glotocídios.
A tese investiga as experiências históricas nos dois primeiros países. Registra relatos de violências do contato colonial, que incluem escravização, epidemias, massacres, destruição de aldeias. Para isso, usa fontes históricas, relatos de viajantes e missionários e entrevista os velhos, incluindo os que vivem na aldeia San Joaquin de Omagua no Peru, para onde ela viajou com seu caderno de campo por ela denominado de caderno-canoa.
A metodologia da pesquisa denominada pela autora de Kuara Açu, que significa “grande caminho”, incorpora a sabedoria ancestral aos procedimentos científicos. Ela bebeu na fonte de José Ángel Quintero Weir, indígena do povo Añuu, na Venezuela, doutor em linguística e antropologia pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). No seu livro, ele explora o conceito de “sentir-pensar” para combater a colonialidade, articula pensamento e sentimento e estabelece diálogos: da lógica cartesiana com Davi Kopenawa e de Francis Bacon com Ailton Krenak.
Com esses conceitos, olhou a tradição com outros olhos para entender como se atualiza, conservando sua essência. No lugar de derramar lágrimas sobre as cinzas da tradição Kambeba, contribuindo para apagar o fogo que ainda lá resiste, Márcia reavivou o rescaldo com sopro forte. Assim, pôde perceber a resiliência cultural como um processo onde os Omagua/Kambeba, ancorados na tradição, ressignificam tudo que chega na aldeia por influência ou sob pressão. Quando precisa, coloca lenha nova para ativar a fogueira.
Raiz e antena marcaram as identidades herdadas por Márcia: a Kambeba da mãe-avó Assunta e a Witoto do avô paterno. No entanto, nascida num presépio em Belém do Solimões numa aldeia do povo Maguta/Tikuna, onde viveu sua infância, adicionou à sua história de vida esta outra identidade com camadas de territorialidade, oralidade e ancestralidade, além do alfabeto e da escrita em língua portuguesa. Ela é uma espécie de ONU indígena transcultural.
Márcia Kambeba, escritora, poeta, cantora, com muitos livros publicados, escreveu o poema bilíngue Igara Suí Ikua (A canoa de saberes) para sua tese, que finaliza com carta da avó, já falecida, endereçada ao povo Omagua/Kambeba, cujo conteúdo lhe foi transmitido através de um sonho. Em outras palavras, na carta a avó recomenda soprar sempre a brasa da tradição com um recado de força, continuidade e esperança.
A grande frustação foi após a defesa de Márcia Kambeba. Este “banqueiro” que vos fala, impedido de viajar a Belém por ordem médica, participou virtualmente da banca via zoom. No final, quando todos os presentes foram degustar a culinária amazônica, a dor maior era ter de ficar de fora. Só restava sonhar com o menu e imaginar como cada um se deliciava com as iguarias que, afinal, fazem parte do nosso patrimônio cultural.