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Postado em 24/08/2021 5:00

Como fazer como eles sem fazer como eles?

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Marianna Araujo*

Quando o Leandro Demori, nosso Editor-executivo, começou a trabalhar na matéria sobre o radical espanhol que veio ao Brasil treinar a extrema direita, ele me enviou uma mensagem com um link da WikiLeaks. Junto com o link, Demori me disse: “olha o método deles, será que nos ajuda, rs?”.

O link levava para uma apresentação utilizada por Ignacio Arsuaga para ensinar técnicas de mobilização e arrecadação para militantes de extrema direita. Não é muito diferente do que os manuais de marketing por aí ensinam. Acontece que as táticas da extrema direita vão além dos manuais de marketing porque têm poderosos caminhos para a construção de suas narrativas.

O Demori fez uma piada porque sou responsável pela comunidade do Intercept. Mas a verdade é que ele sabe que aquilo não é aplicável para a gente.

“Guerra cultural”. “Mensagens antiaborto”. “Ideologia de gênero”. Esse é o caldo que a extrema direita global botou pra ferver na última década e com ele mobilizou gente em todo o planeta e levantou muitos recursos.

A matéria que publicamos semana passada resume:

“O sistema funcionava espetacularmente bem. Uma tabela que está no acervo da WikiLeaks mostra que, em apenas nove meses, de dezembro de 2013 a setembro de 2014, a CitizenGo levantou 530 mil euros apenas enviando e-mails para uma base de destinatários de língua portuguesa”.

Veja, estamos falando de uma planilha que foi vazada, não do esquema todo. São mais de 3 milhões de reais em nove meses com o objetivo de vitaminar o movimento. É claro que essa é uma minúscula fração do que eles fizeram ao longo desses anos.

Estamos vendo esses grupos avançarem em toda parte. Nas redes sociais, possuem canais poderosos, seus coletivos não param de crescer. Sua capacidade de mobilizar recursos é imensa e, óbvio, isso não vai parar de se refletir nos pleitos eleitorais, aqui e em outros países.

A pergunta que me fiz quando vi a apresentação de Arsuaga foi: de que maneira nós também podemos mobilizar, convencer as pessoas a se juntarem em torno de algo que possa frear o avanço dessa gente? Por que nossa mensagem também não é tão poderosa?

Não tenho uma resposta só para essas questões, mas seguirei tentando. O Intercept seguirá tentando. Vamos continuar mandando mensagens com a intenção de mobilizar a espetacular comunidade que se formou por conta do nosso jornalismo. Vamos continuar pedindo para que você compartilhe nossos conteúdos, nos fortaleça nas redes sociais, apoie nossas reportagens. E vamos continuar investigando e denunciando tudo que está por trás do avanço da extrema direita no Brasil.

Não podemos nem queremos usar as mesmas armas que eles. Por isso não me resta alternativa que não seja ser franca com nosso público. Faltam duas semanas para o dia 07 de setembro, data em que os bolsonaristas têm alardeado como o início do “contragolpe”, dia de uma megamobilização de direita. O STF tem feito a parte dele. O jornalismo também. Você deve ter lido as últimas análises e matérias que publicamos sobre isso. Mas temos mais, muito mais para fazer até lá.

Nós precisamos nessas duas semanas acelerar nosso trabalho e colocar mais profissionais dedicados a essa pauta. Seria fantástico arrecadar milhões de reais em tempo recorde como a extrema direita aparentemente costuma fazer. Mas hoje não é esse o nosso alvo. Nós precisamos de uma cifra muito menor. O objetivo do Intercept é até o fim de agosto levantar mais R$ 100 mil em doações. Sei que é possível, com doações de R$ 25, R$ 50, R$ 100, chegar lá.

Se você, assim como nós do Intercept, acredita que podemos sim nos unir em torno de uma causa comum, eu quero te dizer que essa causa está aqui, de braços abertos para você: o jornalismo realmente independente e investigativo. Tenho certeza de que você sabe do que ele é capaz.

Vamos mostrar pra extrema direita que também somos capazes de nos mobilizar?

*Marianna Araujo é diretora de comunicação do The Intercept Brasil

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