Imagem: Rodrigo Felix Leal/GOVPR
Por Roberto Amaral
Fundado sobre as bases do binômio escravismo-latifúndio (o Brasil foi o país último das Américas a abolir a escravatura e ainda hoje se recusa a promover a reforma agrária que as nações levaram a cabo nos dois últimos séculos), nascemos e nos formamos determinados pela metrópole empobrecida a cumprir o papel de fornecedores das matérias-primas exigidas pelo mercado europeu.
Nascemos como economia agroexportadora, uma empresa territorial sob a intermediação de Lisboa, o entreposto de tudo o que importávamos e de tudo o que exportávamos, principalmente o açúcar produzido nos engenhos do litoral nordestino, depois da extração predatória do pau-brasil. Nenhum projeto de sociedade, de nação, de país. O fundamental era garantir a posse de uma imensidão de terra ainda desconhecida e visitada por piratas e aventureiros.
Este é o Brasil Colônia que, com as alterações impostas pelo processo histórico (com destaque para a chegada da Corte, posta a correr de Lisboa pelas tropas de Junot), se instala no Império, com duas alterações: uma estrutural, a substituição do açúcar pelo café; outra política, quando o mando lusitano cede espaço à preeminência britânica, que, além de controlar nossas finanças por meio de empréstimos extorsivos (fartou-se a Casa Rothschild), renova o veto de Lisboa a qualquer tipo de fabricação na Colônia.
Na sucessão do açúcar, ingressaremos na era do café, promovendo duas mudanças: a primeira, a mudança do centro sonoro da economia do Nordeste para o Sudeste, principalmente durante o século XIX, quando o cultivo se expandiu para o Rio de Janeiro, o Vale do Paraíba e, posteriormente, para o Oeste de São Paulo, tornando-se a principal atividade econômica do país.
A segunda alteração será a possibilidade de acumulação de capital. Pois será essa mercadoria que, lá futuramente, na República, financiará o sempre adiado sonho da industrialização.
O desenvolvimento da grande lavoura é facilitado pela disponibilidade de terras férteis e inexploradas no Centro-Sul. A necessidade de utilização intensiva de mão de obra será atendida pela exploração escaravista. Este é um lado, mas não o único, porque o outro é o aprofundamento da concentração fundiária, destruindo tanto a pequena propriedade quanto o mesmo trabalho de subsistência. É o mando da terra.
Com poucas alterações, este é o país que chega à República, ainda essencialmente rural e agroexportador, e ainda marcado pela hegemonia do café, que assim se conserva até pelo menos os anos 1930, quando, com Getúlio Vargas, se dá início (ou se retoma), como projeto de Estado, ao tardio processo de industrialização.
Na balança permanece o café, mas a ele se juntam soja, milho, carne, açúcar e um sem-número de minerais, desde o ferro (que retorna como lingotes) até minerais críticos ou estratégicos, como as chamadas terras raras, lítio, grafite, nióbio, além de cobalto, níquel, cobre, manganês etc., essenciais para diversas aplicações tecnológicas, civis e militares, e para a transição energética, dramaticamente urgente.
Mas são minerais que exportamos na forma bruta (muitas vezes escavados de nossas jazidas e minas exploradas por multinacionais), sem valor agregado, enquanto o refino e a transformação são majoritariamente transportados a cabo por outros países – como a China -, que, na sequência, se transformam em nossos fornecedores do produto acabado.
É exemplar o caso do petróleo: somos, hoje, exportadores de petróleo bruto e importadores de seus derivados, como gasolina e fertilizantes, a fórmula mais eficiente de mandar para as calendas gregas os projetos estratégicos de segurança e alimentar, ao tempo em que, gastando milhões de dólares, estamos há 20 anos aguardando a montagem de Angra III, enquanto a China possui 60 usinas em funcionamento, 35 em construção e programa para chegar ao ano de 2030 com mais de cem.
Continuamos governados pelo passado.
A indústria de transformação atingiu seu pico em 1985, quando representava cerca de 36% do PIB brasileiro. A partir daí, iniciou-se um declínio contínuo para, no biênio 2024-2025, chegar a apenas 10% do PIB, quando o agronegócio atingiu o patamar de 25,13%.
O ponto de partida da crise é consensualmente datado no início dos anos 1980, que regista a recessão de 1981-83 e a crise da dívida externa (1982). A desindustrialização ainda toma impulso com a abertura comercial (1990-94) e o Plano Real (valorização do câmbio). Desfazem-se, sob o neoliberalismo paulista, os sonhos industriais dos anos 1980. Era também, e então de forma mais profunda, o “fim da era Vargas” prometido por Fernando Henrique Cardoso.
A participação da indústria na composição do PIB caiu de cerca de 36%, em 1985, para aproximadamente 27% em 1990 e, no curso declinante, caiu para 10% em 2025. São os dados de hoje. Na outra ponta da liga, a participação do agronegócio chega a 25,13% do PIB, exibindo um crescimento de 12,2%.
Os anos 2003-2011 ainda estão marcados pela expansão do agronegócio, puxada principalmente pelas exportações de soja, carnes e minerais. O outro lado, sem necessariamente uma relação de causa e efeito, retrata a constância da tendência da redução relativa da indústria, o que vai agravar-se com a recessão de 2015-2016, enquanto, de 2017 até aqui (dados de 2025), as estatísticas registram a expansão da produção agrícola e, consequentemente, o crescimento da participação do agronegócio na formação do PIB.
Como se vê, a expansão do agronegócio opera paralelamente ao processo de desindustrialização, um e outro determinando transformações econômicas, sociais e políticas, como o êxodo rural que se encontra com a crise do trabalho, na crista das transformações impostas pelas inovações tecnológicas no processo produtivo e na vida social como um todo.
Consabidamente, o país de hoje nada lembra os inícios do século passado, e se apresenta como uma economia cuja característica predominante é a centralidade do setor exportador de commodities, modificando a estrutura produtiva, com notórias repercussões políticas e sociais que podem, no médio prazo, alterar as bases do poder.
Durante boa parte do século XX, eu acreditei que o Brasil caminhava para se tornar uma potência industrial, posto que reunia todos os requisitos: população, território, grandes reservas naturais, minerais estratégicos, petróleo e água à farta.
A partir do recesso da República Velha, o país se comprometeu na substituição gradual do cediço modelo agroexportador por um projeto de industrialização que transformaria sua economia, sua sociedade e suas cidades. E alteraria a composição do poder com a alternância de mando. Este, por óbvio, permaneceria sob as ideias da classe dominante, mas esta agora estaria sob o comando modernizante dos novos industriais. Entre os anos 1950 – com o governo constitucional de Vargas, mas igualmente com os frutos do seu Estado Novo, como a Companhia Siderúrgica Nacional – e 1980, sob a nova ditadura, a indústria de transformação tornou-se o principal símbolo do desenvolvimento nacional.
Depois do Estado Novo e do governo democrático de Vargas, tivemos, com os cinco anos de JK, a retomada da industrialização e, a seu serviço, sólidos investimentos em infraestrutura. Assim, apesar dos percalços que a memória coletiva gravou, chegamos aos meados dos anos 1980 com a indústria respondendo por aproximadamente 36% do PIB, participação jamais repetida.
Como mencionado acima, quarenta anos passados, a indústria de transformação representa cerca de apenas 10% do PIB, enquanto o agronegócio responde por aproximadamente um quarto da riqueza nacional, quando considerada toda a sua cadeia produtiva.
A mudança é suficientemente profunda para suscitar uma pergunta que ultrapassa o interesse acadêmico: estaria o Brasil retornando, em pleno século XXI, à condição de economia agroexportadora?
A resposta não é simples. O país contemporâneo, por óbvio, é muito diferente da República Velha. O agronegócio atual reúne agricultura altamente mecanizada, beneficiada pela pesquisa científica e pela biotecnologia favorecidas pelo Estado através da Embrapa, dispõe de logística sofisticada, agroindústria e grandes empresas exportadoras. E usufruiu de um sem-número de benefícios e incentivos fiscais e creditícios. Trata-se, afinal, e como fruto de tudo isso, de um dos segmentos tecnologicamente mais avançados da economia brasileira, assinalando a ascensão de um novo complexo exportador, baseado em commodities agrícolas.
Essa trajetória não parece ser mera coincidência. Embora um setor não tenha crescido necessariamente às custas do outro, ambos evoluíram em alternativas opostas durante quase quatro décadas. Não se trata, estas características, de uma regra: vários países, como Estados Unidos, Alemanha, Holanda e China demonstram a compatibilidade entre expansão agrícola e elevada capacidade industrial.
O que é o “caso” brasileiro?
Seriamente incorreto afetar a crise industrial ao sucesso do agronegócio. Um bom caminho recomenda considerar o baixo investimento brasileiro na produção, não de hoje, mas faz décadas; a infraestrutura (seja qual for o ângulo pelo qual analisamos) apresenta deficiências; o sistema tributário é complexo; o custo do capital figura entre os mais elevados do mundo; o padrão educacional é baixo e baixo os esforços voltados para a formação de mão de obra especializada; as políticas industriais sofrem descontinuidade; e nossa produtividade cresceu pouco, ou muito pouco, em comparação com as economias asiáticas, sejam as revoluções econômico-tecnológicas da China e da Coreia do Sul, seja o aspecto vietnamita após a devastadora invasão dos EUA. É certo que a indústria automobilística se instalou no Brasil a partir de 1956, com o governo Juscelino Kubitschek. Mas até hoje não temos uma marca só nacional, não produzimos um só motor a explosão, esta obsolescência que em breve será reconhecida como peça de museu.
Dir-se-á, porém, que a indústria nacional não conta com os inumeráveis benefícios que vêm alimentando a expansão do agronegócio. Podemos dizer ainda, e é verdade, que padece na concorrência internacional, à mercê de práticas protecionistas as mais variáveis, e padece mesmo de verdadeiros embargos, como o que representa a política atual dos EUA.
A questão também pode ser vista a partir de outra ótica, a saber: por que o Brasil não conseguiu – ou não quis – combinar uma agricultura competitiva com uma indústria igualmente dinâmica? Nossa indústria, ao contrário, perdeu densidade tecnológica e competitividade internacional e sofre concorrência no mercado interno.
Não é exato que o Brasil voltou a ser uma economia agroexportadora, isto é mais do que óbvio, mas é preciso a afirmação de que o país ingressou em uma nova etapa de sua história econômica, na qual o dinamismo das commodities convive com uma indústria relativamente enfraquecida. A antiga promessa de uma economia conquistada pela produção cedeu lugar a um modelo em que a produção primária voltou a ocupar posição estratégica.
Resta saber – e é o nó górdio da questão – se essa configuração representa um estágio e, por isso, necessariamente transitório, ou uma mudança estrutural de longa duração. A resposta definirá não apenas o futuro da indústria brasileira, mas, de igual modo, o próprio padrão de desenvolvimento do país neste século. Definirá mais: que país queremos ser.
Sem indústria, não conheceremos desenvolvimento econômico nem distribuição de renda, muito menos autonomia, seja econômico, seja político, porque, sem alto desenvolvimento industrial sustentável, baseado em tecnologias avançadas (fruto do avanço da ciência e da tecnologia, e exigentes de educação), seremos incapazes de tomar a qualquer projeto de soberania.
Este pode ser um tema para o debate eleitoral de outubro próximo – quando, elegendo o presidente da República, dissermos que o país queremos.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.


