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sexta-feira, 1 maio 2026

Comissão de Vizinhança e Integração: um passo adiante para a Venezuela e a Colômbia

Caracas (Prensa Latina) Os governos da Venezuela e da Colômbia avançaram em seus planos de consolidar e expandir a cooperação em diferentes questões estratégicas de interesse comum, que teve como epicentro o III Encontro da Comissão de Vizinhança e Integração.

Por Juan Carlos Díaz Guerrero

Correspondente-chefe na Venezuela

Este encontro de dois dias foi realizado na Casa Amarela “Antonio José de Sucre”, do Ministério das Relações Exteriores, onde foram criados 11 grupos de trabalho para tratar de questões nas áreas cultural e educacional; segurança e defesa; comércio, indústria e turismo; meio ambiente e saúde; energia e hidrocarbonetos, entre outras.

Os ministros das Relações Exteriores, Yván Gil e Rosa Villavicencio, lideraram a reunião; ministros de diferentes pastas, autoridades de agências de segurança e outros representantes de ambos os países “elaboraram” o texto final, que foi assinado pelos diplomatas de alto escalão.

O segundo dia do encontro teve como destaques a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, que chegou à República Bolivariana em sua sétima viagem desde que assumiu o cargo em agosto de 2022.

Desde que chegou ao poder, o presidente colombiano tem mantido uma postura de defesa da integração com seu vizinho, apesar das divergências, como ocorreu durante as eleições presidenciais de julho de 2024, nas quais o presidente constitucional Nicolás Maduro foi reeleito.

No entanto, as diferenças não diminuíram a vontade de incentivar mecanismos para deixar para trás as políticas punitivas dos sucessivos governos da Casa de Nariño contra Caracas, que afetaram consideravelmente as relações políticas, econômicas e comerciais.

As populações de ambos os lados da fronteira de 2.219 quilômetros foram as que mais sofreram com o seu fechamento, que interrompeu um processo natural de interação originado nas ideias emancipatórias de El Libertador Simón Bolívar no século XIX.

É por isso que agora, mais uma vez, as declarações das autoridades coincidiram em resgatar os valores da unidade essencial dos governos e dos povos, a fim de poder pôr em prática a vontade política do momento e avançar por um caminho que, reconhecem, não é nada.

fácil.

TERCEIRA REUNIÃO DA COMISSÃO

Os ministros das Relações Exteriores, Álvaro Leyva, da Colômbia, e Yván Gil, da Venezuela, assinaram em maio de 2023, em Brasília, Brasil, na presença de Petro e Maduro, o ato constitutivo deste mecanismo de consulta, no contexto da Cúpula de Presidentes dos 12 países da América do Sul.

No mês seguinte, foi oficialmente estabelecida em Bogotá, na Colômbia, com o objetivo de promover a cooperação e o desenvolvimento da fronteira, impulsionando a integração comercial e a segurança na fronteira compartilhada.

A Comissão opera com Comitês Técnicos Binacionais que abordam questões de interesse comum, como segurança e defesa; transporte e mobilidade; comércio e alfândega; questões de fronteira e infraestrutura; migração e assuntos consulares; mineração e energia; questões sociais e ambientais; e telecomunicações.

Na reunião de 23 e 24 de abril, foram consolidadas sete áreas principais de cooperação, incluindo questões fronteiriças, migração, educação, comércio, meio ambiente, saúde e defesa, de acordo com o líder venezuelano responsável.

Durante a abertura deste terceiro encontro binacional, o chefe da diplomacia bolivariana agradeceu ao presidente colombiano em nome de seu governo e a Rodríguez por sua defesa da união entre as duas nações.

Gil considerou importante que ambos os Estados sejam chamados, por meio desta comissão, a avançar na construção de um “caminho inexorável de união”.

Ele considerou que o esforço de cada um dos presentes nesta reunião “é fundamental para tentar resolver e eliminar cada uma das limitações que hoje ameaçam a política de unidade”, a fim de fortalecer a fraternidade.

Juntos, todos temos a “responsabilidade absoluta” de avançar neste caminho, num mundo cada vez mais complexo, marcado por guerras, violência e onde o desumano busca prevalecer sobre a paz.

“Não foi, nem será, uma tarefa fácil ou simples”, reconheceu o Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, referindo-se ao antigo sonho de reunificar o que era a Grã-Colômbia na época de Simón Bolívar. Gil pediu que se desse um exemplo para o mundo, “não de dissolução, não de divisão e confronto, mas justamente o contrário”.

O ministro das Relações Exteriores considerou o encontro uma “oportunidade valiosa” para que governos, empresas e comunidades fortalecessem a cooperação em diversas áreas.

Villavicencio, por sua vez, evocou as lutas compartilhadas que deram origem ao nascimento das duas repúblicas irmãs e descreveu a Comissão de Vizinhança e Integração como um “mecanismo político fundamental” para encontros, diálogo e construção conjunta.

Ele enfatizou que este é o espaço onde reafirmam, independentemente das circunstâncias, seu firme compromisso de “caminhar rumo a uma relação de confiança, cooperação e benefício mútuo”.

O ministro das Relações Exteriores da Colômbia afirmou que Caracas e Bogotá não são apenas países vizinhos, mas nações irmãs, unidas pela história, cultura, geografia e, sobretudo, pelo seu povo.

Por meio do trabalho conjunto, do diálogo contínuo e da cooperação eficaz, podemos construir caminhos reais para o bem-estar, o desenvolvimento e a integração das populações, especialmente daquelas que vivem em áreas de fronteira compartilhadas, enfatizou ele.

FORTALECER O ESPÍRITO DE FRATERNIDADE

O objetivo da III Reunião da Comissão de Vizinhança e Integração foi fortalecer o espírito de fraternidade e promover iniciativas de cooperação, tendo o resultado sido positivo, de acordo com as avaliações dos líderes.

Cabe ressaltar que, antes dessa reunião, Petro e Rodríguez haviam planejado se encontrar em 13 de março em Tienditas, Norte de Santander, na fronteira comum entre os dois países.

O encontro tinha como objetivo fortalecer ainda mais o espírito de integração e fraternidade entre as duas nações e promover iniciativas de cooperação bilateral, mas, “devido a força maior”, decidiu-se adiá-lo para uma data posterior, informou o Ministério das Relações Exteriores da República Bolivariana na ocasião.

Agora, ambos os líderes testemunharam a assinatura do documento final em frente ao Palácio de Miraflores, sede do governo, e deram detalhes do evento à imprensa nacional e estrangeira.

Segundo a dignitária venezuelana, o encontro ocorreu num momento de “profunda necessidade de unidade e integração” entre os dois povos, para o qual – na sua opinião – trabalharam intensamente em como “estabelecer e nutrir esse caminho de unidade”.

Os chefes de Estado mencionaram os principais temas discutidos, os progressos em áreas estratégicas, os desafios que ainda precisam ser superados e as aspirações para concretizar o projeto da Grã-Colômbia, da Grande Pátria de Simón Bolívar, como Petro o expressou.

A chefe de Estado bolivariana considerou a abertura da fronteira, que havia sido fechada por governos anteriores e que ela descreveu como decisões “irracionais” e antinaturais, como momentos cruciais dos últimos quatro anos.

Ele também elogiou a recuperação do comércio binacional, que foi afetado por essa medida e caiu para níveis “muito baixos”, mas vem se recuperando apesar do bloqueio econômico contra a Venezuela.

Segundo fontes oficiais, esse intercâmbio bilateral atingiu sete bilhões de dólares, depois caiu para apenas 50 milhões e, no ano passado, chegou a 1,2 bilhão de dólares, podendo aumentar para dois bilhões até o final deste ano.

Outros aspectos importantes abordados foram a proposta do presidente de substituir as importações mútuas de produtos obtidos em ambos os países, pois “não faz sentido buscar em outras latitudes o que podemos obter em nossos territórios”, destacou Rodríguez.

Eles também discutiram a interconexão elétrica, de gás e de ar, e o estímulo ao turismo.

Em relação ao primeiro ponto, Delcy aludiu ao impacto das medidas coercitivas unilaterais contra a Venezuela, que afetaram o Sistema Elétrico Nacional, especialmente na região oeste do país, e à possibilidade não só de fornecer gás à Colômbia, mas também de exportá-lo conjuntamente para outros países. Em resposta, Petro comentou que esperava que isso pudesse ser alcançado por meio de “novas fontes de energia e não das antigas”, que comprovadamente trazem violência, genocídio e autoritarismo ao mundo.

Ela destacou que os novos modelos energéticos que está tentando implementar em seu país “podem trazer paz, a construção de uma democracia global, de uma humanidade fraterna”, que começa com os vizinhos e não pode ser construída se eles se envolverem em lutas, conflitos, violência e guerras. Talvez o aspecto mais significativo do encontro tenha sido a “abordagem séria e abrangente”, como afirmou Delcy Rodríguez, para combater as gangues criminosas e o crime internacional ao longo da fronteira compartilhada.

Caracas e Bogotá concordaram, nesse sentido, com planos de intervenção militar em cada lado da linha divisória e com o estabelecimento de “mecanismos imediatos” para compartilhar informações de inteligência.

“Que os grupos de narcotráfico, envolvidos no contrabando de combustível e outros tipos de mercadorias, saibam que estamos tomando medidas firmes para combater esses crimes”, enfatizou o presidente venezuelano.

Para o governante de Nova Granada, este é o caminho para restaurar a unidade dos povos e a “integração econômica, social e política também”; e ele lembrou o projeto da Grã-Colômbia de Bolívar, que cresceu e pode ser restabelecido em outras formas no século XXI.

Petro defendeu um esforço conjunto e totalmente coordenado para “libertar as cidades fronteiriças das máfias” e, dessa forma, restabelecer caminhos concretos de integração entre as duas nações, que ele esperava que pudessem ser aprofundados de uma segunda maneira: a “integração alimentar”.

Em relação a este último ponto, ele enfatizou que pode garantir a segurança alimentar de todas as crianças, “dos bebês que ainda vão nascer, de todos os cidadãos”, e assegurar a integração energética. O dignitário colombiano afirmou que a fronteira “não pode pertencer a ninguém além do povo” e acrescentou que isso implica em ações militares, policiais e sociais para restabelecer caminhos concretos para a integração entre as duas nações.

É difícil “nos chamarmos de vizinhos porque compartilhamos a mesma história, as culturas do mesmo povo, e deveríamos ser irmãos”, concluiu ele.

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