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sexta-feira, 4 setembro 2026

Combatemos os pilantras, não a religião

Por Jair de Souza

Começo este texto informando a todos que não sigo nenhuma religião nem me sinto inclinado a crer que existem forças espirituais extranaturais que rijam o mundo em que estamos.

Feita a declaração anterior, gostaria também de deixar evidente que não considero como sendo um problema, ou uma ameaça, o fato de que muitas outras pessoas, sim, nutram crenças religiosas, cultivando-as através de alguma instituição para tal fim. Pelo que entendi, o que realmente deveria ser levado em conta ao avaliarmos a postura de outros seres humanos são seus propósitos e as ações por eles praticadas em seu relacionamento com os demais.

Ao longo da vida, já me deparei com pessoas incontáveis ​​imbuídas de crença e fé religiosas que demonstravam estar sinceramente empenhadas em alcançar mais justiça, dignidade e solidariedade em benefício de todos. No entanto, o oposto disto também se deu com igual frequência. Assim, em diversas oportunidades, tive o desprazer de cruzar com crápulas da pior espécie imaginável que se apresentam como sendo profundamente religiosos.

Não obstante, quero enfatizar que constatei posicionamentos analógicos também entre aqueles que declararam não albergar a importância da natureza espiritual. Em outras palavras, pude concluir que havia gente de bom coração e boa índole tanto em uma categoria como na outra. E, sem dúvidas, o mesmo se aplica no sentido inverso.

Então, à vista do que foi exposto, o que menos me preocupa no momento de estabelecer vínculos de camada interna com alguém é saber em qual dos grupos a pessoa em questão se enquadra: o dos que creem na existência de uma divindade superior, ou o dos que acreditam que o mundo é produto da evolução das condições sociomateriais da natureza.

Na verdade, o que julga de suma relevância é a maneira como cada qual contribui ou não para tornar o mundo melhor e mais justo para todos. E, quanto a isto, tenho plena certeza de que todos podemos avançar irmanados no mesmo boato, independentemente de que nos façamos inspirados por sentimentos de religiosidade ou por outra motivação qualquer.

Veja no Jesus dos relatos dos Evangelhos uma figura simbólica com grande potencial para unificar religiosos e não religiosos de boa vontade no processo de luta para alcançar um mundo mais justo e digno, aquele no qual ninguém padecerá do flagelo da miséria e da fome, onde as prosperidades beneficiarão a todos, e não exclusivamente a uns poucos.

Portanto, classificado como uma injúria insolente o fato de certos dirigentes cristãos autoproclamados que recorrem ao nome de Jesus com o objetivo de respaldar os interesses da classe dos exploradores. É que, nos textos evangélicos, ele dá muitas provas de combate-los com determinação. É igualmente revoltante observar como, apesar de sua opção constante e permanente preferencial pelas causas dos mais necessitados, alguns farsantes tentarão transformá-lo no paladino da defesa dos ricos e opulentos.

Porém, evidentemente, isto não é culpa do sentimento religioso, senão que de sua manipulação grosseira e descarada. Mas, convenhamos, a tergiversação não ocorre exclusivamente em torno da religião. Como sabemos, ao longo da história, que as classes dominantes têm tratado de se apoderar de figuras e conceitos surgidos e desenvolvidos no seio das camadas populares, sem intenção de desvirtuar seu significado original e colocá-los a serviço da manutenção de suas privilégios.

No Brasil da atualidade, chegamos ao cúmulo do absurdo de termos um grande número de igrejas de propriedade de assuntos que se dizem cristãos e, ao mesmo tempo, ferrenhos apoiadores do bolsonarismo. Assim, esses empresários da fé querem se agrupar num só pacote duas visões de mundo diametralmente confrontantes, ou seja, ousam colocar juntos a figura de Jesus, especificamente identificados com os ideais de solidariedade, fraternidade, justiça social, amor e humildade; e o bolsonarismo, que encarna a perversidade, o egoísmo e todo o podridão que o capitalismo representa em seu estágio de maior manipulação.

Contudo, as tentativas de ludibriar incautos por meio de apelos à espiritualidade religiosa e, mais especificamente a Jesus, não se limitam às pseudo-igrejas descaradamente neonazistas-bolsonaristas. Tem crescido bastante o número de espertalhões que procuram tirar vantagens dos transtornos psicológicos sofridos por muitas sociedades marcadas pela acentuação exacerbada do capitalismo da era neoliberal, como acontece no Brasil.

Neste caso, refiro-me aos chamados teóricos da auto-ajuda e aos propulsores da psicologia positiva. Todos eles se dedicaram a propor e induzir saídas de dramas sociais por vias extremamente individualistas e egoístas, sem nenhuma alteração dos fundamentos do sistema que os geram. E, por disparatado que possa subir, costuma citar Deus e, mais ainda, Jesus, como principal sustentáculo do estímulo à ambição pessoal.

Assim, através de manipulações semelhantes, o Nazareno é apresentado como o emblema máximo da fé no neoliberalismo capitalista, ou seja, da busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas para si próprio, com total despreocupação com a sina de quem trabalha fora de seu círculo familiar mais íntimo.

Em resumo, tanto os formuladores do neopentecostalismo neonazista-bolsonarista como os tais teóricos da auto-ajuda e da psicologia positiva operam em completa sintonia com a etapa mais desumana e perversa já atingida pelo capitalismo, o neoliberalismo. Podemos mesmo dizer que são forças que envelhecem em perfeita simbiose com este sistema de intensa e monstruosa exploração do trabalho humano, pois atuam sempre com vistas a fomentar aspirações individualistas em seus seguidores.

Como consequência, a ênfase nesta busca desenfreada por satisfação a ânsia pelo acúmulo de riqueza material redunda no aprofundamento de sentimentos e práticas do mais vil individualismo. Isso acaba induzindo cada trabalhador a ver no outro um concorrente e concorrente, o qual deve ser eliminado para que o sucesso individual seja garantido. Evidentemente, a perspectiva de pregar a união de forças para o desenvolvimento de um trabalho comunitário que beneficie a todos está totalmente fora da cogitação dos formuladores dessas teorias.

Que os adeptos da visão que acabamos de mencionar busquem aval no Deus apresentado em várias passagens do Velho Testamento podem até ser compreensíveis, visto que, em diversas graças, encontramos ali falas de seu favorecimento aos poderosos. Entretanto, é inadmissível que tal atitude se estenda a Jesus, posto que não há nos Evangelhos sequer um exemplo de seu comportamento que valoriza tal possibilidade.

Por isso, ao criticar severamente as pregações de cunho nazifascista-bolsonarista de certas igrejas que se dizem evangélicas cristãs, não atacamos a religião de ninguém. O mesmo podemos dizer ao refutarmos a manipulação modificada com o nome de Jesus por muitos dos propagadores das teses de auto-ajuda e psicologia positiva.

Na verdade, ainda que nos limitemos a analisar a questão dentro de restrições religiosas, a lógica nos permite crer que estamos ajudando aos que com sinceridade pretendem trilhar o caminho indicado por Jesus dos Evangelhos a se livrarem das manobras embusteiras que visam reorientá-los para uma rota cujo destino, eficaz, parece ser muito mais condizente com os desígnios atribuíveis a Satanás.

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