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Meio Ambiente

Postado em 03/11/2021 1:33

Com Bolsonaro ausente: o que Brasil tem a perder e ganhar na COP26?

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A Sputnik Brasil conversou com dois especialistas para compreender o que esperar da participação, bem como das metas, promessas e exigências do Brasil na COP26.

A 26ª Conferência do Clima, ou COP26 (na sigla em inglês), decorre de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, Escócia.

A delegação brasileira será a segunda maior da COP26, contudo, não vai contar com o presidente Jair Bolsonaro.

Para entender um pouco mais sobre a participação, bem como as metas, promessas e exigências do Brasil na COP26, a Sputnik Brasil conversou com o prof. Leandro Consentino, cientista político pela USP e professor do Insper, e Juliana Ianhez, economista e coordenadora do curso de graduação em Economia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

De acordo com o professor Leandro Consentino, do ponto de vista diplomático certamente seria lógico comparecer aos dois eventos, tanto à cúpula do G20 quanto à COP26.

“A questão é que, do ponto de vista das crenças que motivam o governo Bolsonaro, parece haver uma tendência de privilegiar mais o que seria o crescimento e desenvolvimento econômico do que a pauta ambiental. Isso é um equívoco, dado que a maioria dos países, tanto no G20 quanto na COP26, tratou as coisas de maneira associada, e parece que o Brasil não fez essa lição e isso é ruim do ponto de vista sobretudo da liderança que o Brasil ocupava na sinergia entre estes dois temas’, afirmou.

Para a economista Juliana Ianhez, os protestos contra o governo pesaram na decisão de não ir à COP26.

“O governo brasileiro tem sido cobrado de maneira direta e indireta por um posicionamento mais assertivo e mais comprometido com as questões climáticas, com a sustentabilidade, e o governo brasileiro não tem respondido a isso”, destacou a economista.

Além disso, ela ressalta que muitas vezes o governo faz questão de ignorar certas pautas.

“Nesse caso, o Bolsonaro indo à COP [26] ele seria cobrado, como deve ser cobrado o chefe de uma nação que se compromete de partida com questões ambientais, ainda que de uma forma inferior à necessária e não as cumpre. Então ele percebeu que, dentro de sua estratégia, o melhor era ir à conferência do G20, onde ele ainda tem algumas coisas para defender, e inclusive apoios a tentar, parcerias a construir, do que em um lugar que, certamente, ele seria muito cobrado, e ficaria desconfortável com essa situação”, explicou.

Juliana Ianhez enfatizou que o problema disso é que a participação do Brasil em conferências como a COP é fundamental para que o país consiga mostrar algum tipo de comprometimento com pautas que possam fazer com que o Brasil consiga ganhar mais parcerias, melhorar acordos comerciais, aumentar número de contratos e, sendo assim, há uma conta a pagar resultante dessa não participação do presidente brasileiro na COP.

O professor Leandro Consentino também acredita que os protestos tenham pesado para a decisão de Bolsonaro, já que o presidente brasileiro deseja ter uma imagem positiva no exterior, “dado que o flanco interno hoje desfavorece as pesquisas de opinião”, que demonstram que a popularidade não vai bem devido ao fracasso no combate a pandemia, à questão econômica do país, entre outros problemas.

Já a economista Juliana Ianhez acredita que esta atitude de Bolsonaro de não participar da COP mostra que a preocupação do atual governo seja, de fato, com a questão econômica.

“O governo Bolsonaro está muito preocupado com a imagem com a qual o Brasil está sendo visto lá fora, da maneira de como o Brasil tem tratado as questões econômicas, como o Brasil tem fomentado esta retomada. E as questões climáticas nunca foram, de fato, uma prioridade do governo Bolsonaro”, ressaltou a economista.

Para a economista, Bolsonaro, desde que assumiu o comando do país, demonstrou sua intenção de colocar a economia do país para cima, “muito provavelmente para deixar sua marca dentro do governo”, deixando a pauta ambiental de lado, e a ausência na COP é a concretização disso.

Boicote de medida provisória

Anteriormente, Bolsonaro havia acusado Rodrigo Maia de ter boicotado uma medida provisória que tratava da regularização fundiária, dizendo que com esta medida a situação na Amazônia melhoraria.

Juliana Ianhez diz não ver fundamento na acusação de que Rodrigo Maia teria boicotado a medida provisória de regulamentação fundiária que poderia melhorar a situação da Amazônia.

“Há uma questão muito política, que é jogar a culpa para o adversário por coisas que ele não fez, por questões que ele não conseguiu resolver ou que tenha se empenhado pouco para resolver […] Colocar a culpa na sua oposição por coisas que não aconteceram, parece que o presidente em alguns momentos não entende muito o jogo político”, observou.

Para Leandro Consentino a questão da MP (medida provisória) é mais de crença do governo do que de fato é a pauta real.

O professor também afirmou que, quando Bolsonaro associa o fracasso da proteção da Amazônia com essa questão da MP fundiária, ele está terceirizando a responsabilidade e tentando agradar de alguma forma às bases que fornecem sustentação a ele, que é a base do agronegócio, subordinando a pauta ambiental a essa pauta ligada aos agropecuaristas.

Joaquim Leite usado como ‘bode expiatório’

Com relação ao Joaquim Leite, o professor afirmou que o ministro do Meio Ambiente “entrou de gaiato no navio”, ou seja, ele de alguma forma foi lançado a essa posição, quase que de maneira interina, e pegou uma “bomba na mão” ao representar a pauta ambiental complicada no ponto de vista externo.

“O Brasil hoje já não tem a liderança que tinha na área ambiental, e dificulta muito o fato de você ter um passivo muito grande para exibir lá fora. Acredito que o Joaquim Leite está conduzindo como se fosse um interino, um subordinado […]”, explicou.

Juliana Ianhez diz acreditar que o ministro Joaquim Leite tenha sido colocado na COP como um “bode expiatório”.

“Ele foi colocado para representar o país, mas o governo sabia de antemão que o Brasil seria cobrado e que o representante brasileiro levaria pedradas de todos os lados. O Brasil não tem feito sua lição de casa, levando em consideração o que a COP espera dos participantes dos países”, declarou a economista.

Discurso de Bolsonaro e metas assumidas pelo Brasil

A economista Juliana Ianhez afirmou que o discurso do presidente brasileiro é o que se espera ouvir de um chefe de Estado de um país importante e fundamental em pautas ambientais, como é o caso do Brasil.

Ela também ressalta que o Bolsonaro fala o que a audiência quer ouvir, contudo, o problema é que nesse caso o “discurso se decola da prática”, e a audiência sabe que a prática é muito diferente das palavras do presidente, gerando a falta de credibilidade e ficando cada vez mais distante de seus pares com relação a isso.

“Esse discurso muito distante da prática faz com que sejamos vistos com muita desconfiança. O Brasil perde bastante sua credibilidade em tentar seguir pelos caminhos que todas as nações desenvolvidas e em desenvolvimento buscam, de uma economia sustentável, que olham para as questões ambientais e que entendem que elas são fundamentais para que consigamos dar passos adiante ao longo do tempo, pensando em um desenvolvimento sustentável”, explicou.

Seguindo a linha de pensamento, o professor Leandro Consentino afirma que o discurso de Bolsonaro é um discurso protocolar, tímido e que não condiz com o momento grave sobre a questão ambiental.

“Essa é uma posição lamentável do Brasil, que poderia ter uma posição, e tinha de fato, de liderança nesse aspecto ambiental, e que hoje está simplesmente repetindo teses passadas”, observou.

Ações do Brasil importam mais que ausência de Bolsonaro

Kristina Rosales, porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos para a América Latina, disse que as ações concretas do Brasil importam mais do que a ausência de Bolsonaro na cúpula do clima.

Para Juliana Ianhez, a porta-voz Kristina Rosales deixa muito claro que o mundo está atento à prática e não só às palavras do presidente.

“A ausência dele [de Bolsonaro] dentro da COP, ela poderia ser completamente esquecida ou em algum momento relevada se a prática do Brasil fosse diferente, se o Brasil hoje tivesse uma economia preocupada com a questão ambiental. O que a porta-voz deixa muito claro é que o mundo está de olho naquilo que o Brasil faz ou no que o Brasil deixa de fazer, e isso tem sido muito significante para que se pense em políticas no âmbito internacional, olhando inclusive para a inserção do Brasil dentro desse mundo e dessa nova economia sustentável”, enfatiza.

Por sua vez, Leandro Consentino afirma acreditar que a pressão deva continuar e, nesse caso, o Departamento de Estado dos EUA tem uma visão de curto, médio e longo prazo, tentando convencer o Brasil sobre a importância das pautas.

O professor também explica que os EUA estarão de olho no Brasil após as eleições de 2022, quando será possível reconstruir uma sinergia entre os dois países.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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