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sábado, 21 fevereiro 2026

China e EUA: Parceiros estratégicos e rivais

Imagem de referência gerada com o auxílio de IA

Pequim (Prensa Latina) As relações entre a China e os Estados Unidos atravessam um cenário complexo, com uma combinação de confrontos comerciais e contatos diplomáticos de alto nível, enquanto a diferente abordagem à governança global se torna cada vez mais evidente. 

Por: Isaura Diez Millán
Correspondente-chefe na China

O ano de 2025 foi marcado pela persistência da guerra tarifária, divergências tecnológicas e tensões geopolíticas, juntamente com rodadas de diálogo que buscaram conter a deterioração e manter canais de entendimento.

HEGEMONISMO VS. MULTILATERALISMO

Para além da questão económica, eixo central das relações bilaterais, ambas as potências demonstraram uma profunda diferença na sua abordagem à governação global: enquanto Washington radicaliza a sua postura unilateral e hegemónica, Pequim defende o multilateralismo, a ordem internacional e iniciativas abrangentes centradas no conceito de ganha-ganha.

Em entrevista à Prensa Latina, o professor Pan Deng, da Universidade de Ciências Políticas e Direito da China, destacou que a perspectiva política do gigante asiático evoluiu de uma abordagem bilateral e regional para a participação na governança multipartidária, conectando a cooperação com as Iniciativas de Desenvolvimento, Segurança, Civilização e Governança Global.

Ele se referiu ao terceiro Documento de Política da China para a América Latina e o Caribe (ALC), lançado recentemente, que tem como foco promover a cooperação sem cálculos geopolíticos em um contexto de crescentes incertezas globais.

Nesse texto, a China reiterou sua oposição às pressões geopolíticas externas e sua rejeição à interferência de terceiros em suas relações com a América Latina e o Caribe, defendendo, ao mesmo tempo, a não interferência nos assuntos internos dos países latino-americanos.

Pelo contrário, a operação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela marcou um ponto de virada no sistema internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial, ao demonstrar a erosão dos princípios da soberania, da legalidade e do multilateralismo.

O bombardeio de Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa são as primeiras ações militares na região após a aprovação da controversa nova estratégia de segurança nacional, que reinterpreta e atualiza uma doutrina de mais de 200 anos (Doutrina Monroe, 1823) e o lema “América para os americanos”.

Isso já tem um profundo impacto negativo nas relações entre Washington e a América Latina e o Caribe, herdeiras de uma longa história de agressão, golpes de Estado e operações dos EUA.

O governo dos EUA deixou claro que sua pressão sobre a Venezuela e outras nações, como Cuba, México, Panamá e Colômbia, visa neutralizar a crescente reaproximação entre a América Latina e o Caribe (ALC) e o gigante asiático.

Segundo dados oficiais, a China é o segundo maior parceiro comercial da região, o maior para o Brasil e o Peru, e uma de suas principais fontes de investimento estrangeiro direto.

Ao mesmo tempo, 24 países da América Latina e do Caribe aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto o comércio bilateral ultrapassou US$ 500 bilhões pela primeira vez em 2024 e, nos primeiros 10 meses de 2025, atingiu quase US$ 450 bilhões, com um crescimento de 3,5%, apesar dos desafios globais.

Pan Deng alertou que a obstinação dos EUA mina sua credibilidade e os coloca em uma posição de crescente isolamento internacional.
Um dos fracassos estratégicos dos Estados Unidos, indicou ele, é superestimar a eficácia das sanções unilaterais, sem considerar seu “efeito bumerangue” no comércio global e nas cadeias de suprimento de energia.

O especialista explicou à Prensa Latina que essas medidas prejudicam empresas de terceiros países e também empresas americanas, que perdem mercados e arcam com custos econômicos.

GUERRA COMERCIAL E PRESSÃO ECONÔMICA

Durante vários períodos em 2025, Washington e Pequim mantiveram tarifas elevadas sobre bens estratégicos, o que afetou as cadeias de suprimentos e gerou incerteza nos mercados internacionais.

Autoridades chinesas e americanas realizaram consultas para evitar uma escalada do conflito, em meio a alertas de setores empresariais de ambos os países sobre o impacto negativo no comércio bilateral e na economia global.

O Ministério do Comércio da China confirmou que cinco rodadas de consultas econômicas e comerciais foram realizadas ao longo do ano, as quais “produziam resultados positivos”, segundo o porta-voz He Yongqian.

Ele enfatizou que essas consultas foram conduzidas “sob a orientação estratégica dos líderes de ambos os países” e que, após a reunião presidencial em Busan, na Coreia do Sul, ambos os lados mantiveram a comunicação “em todos os níveis” por meio do mecanismo bilateral estabelecido.

DIPLOMACIA PRESIDENCIAL E LIDERANÇA ESTRATÉGICA

A componente político-diplomática revelou-se fundamental para evitar uma ruptura grave.

Assim, o Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, afirmou que as relações sino-americanas “passaram por altos e baixos no ano passado”, mas mantiveram “uma estabilidade geral, de acordo com os interesses de ambos os povos e as expectativas da comunidade internacional”.

Durante um seminário sobre a situação internacional e a diplomacia chinesa, Wang observou que a relação entre as duas potências é “uma das mais importantes do mundo” e que suas decisões estratégicas “influenciam o curso da história global”.

O ministro das Relações Exteriores da China indicou que Pequim aborda o relacionamento com Washington “de uma perspectiva abrangente e de longo prazo”, com “posições firmes em questões de princípio e defesa de seus interesses fundamentais”.

Segundo Wang, o presidente Xi Jinping manteve quatro conversas telefônicas e diversas trocas de mensagens com seu homólogo americano, Donald Trump, além de um encontro presencial durante uma reunião internacional em Busan.

Segundo ele, essas trocas possibilitaram “orientar a relação bilateral e manter seu rumo em um contexto complexo”.

Wang enfatizou que a experiência do ano passado mostrou que “o respeito mútuo, a coexistência pacífica e a cooperação vantajosa para ambos os lados são fundamentais para uma relação estável” e que ambos os lados devem buscar soluções para suas preocupações “com base na igualdade, no respeito e no benefício mútuo”.

CONSULTA ECONÔMICA E MECANISMOS DE CONSENSO

Na frente econômica, Pequim destacou os avanços obtidos após a ativação dos canais institucionais de negociação.

Dessa forma, o vice-ministro do Comércio, Yan Dong, avaliou o progresso após cinco rodadas de consultas como “positivo”; ele explicou que, após o encontro entre Xi e Trump em Busan, os dois lados mantiveram comunicação contínua em diferentes níveis, o que permitiu avançar na implementação do consenso alcançado pelos chefes de Estado.

O funcionário observou que a China está disposta a continuar esse trabalho com os Estados Unidos com base no “respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação vantajosa para ambos”, buscando, ao mesmo tempo, “gerenciar adequadamente as diferenças” e expandir a cooperação.

Essas declarações coincidiram com os comentários do representante comercial dos EUA no Fórum Econômico Mundial em Davos, onde ele mencionou a possibilidade de uma nova rodada de negociações antes de um possível encontro entre os líderes dos dois países.

PRINCIPAIS PONTOS DE CONFLITO: TECNOLOGIA, SEGURANÇA E TAIWAN

Apesar dos mecanismos de diálogo, as divergências estruturais persistiram.

Entre elas estavam as restrições dos EUA às exportações de tecnologia, as preocupações de Washington com a capacidade de produção chinesa e as medidas de Pequim contra o que considera práticas discriminatórias.

Wang Yi também abordou a questão de Taiwan e rejeitou a aprovação dos EUA para a venda de armas à ilha, reiterando a posição da China de defender a soberania e a integridade territorial.

Essa questão permaneceu um dos pontos mais sensíveis na relação, com implicações diretas para a segurança regional na Ásia-Pacífico.
De fato, na conversa telefônica mais recente entre Xi e Trump, no início de fevereiro, o presidente chinês enfatizou o princípio de Uma Só China e instou o republicano a lidar com a questão da venda de armas para a ilha sul-americana com prudência.

A interferência do país do norte nos assuntos do gigante asiático reforça o que inúmeros especialistas já apontaram: a utilização, por Washington, de seus aliados na região (Japão e Filipinas) para influenciar as relações na Ásia-Pacífico e conter a China.

IMPACTO GLOBAL E PERCEPÇÃO INTERNACIONAL

Autoridades chinesas insistiram que a relação bilateral tem repercussões que transcendem questões estritamente nacionais.

Wang Yi enfatizou que os laços entre as duas potências têm “impactos diretos na estabilidade econômica e política global”, em um cenário marcado por tensões geopolíticas, desafios à governança internacional e forte interdependência entre as principais economias.

Entretanto, uma pesquisa internacional divulgada pela CGTN no primeiro aniversário do governo Trump refletiu percepções críticas sobre o papel de Washington no cenário global.

De acordo com essa pesquisa, realizada com 16.990 respondentes em plataformas multilíngues, 84% dos  participantes expressaram grande insatisfação com o desempenho do governo dos EUA, enquanto 89,6% consideraram que os Estados Unidos tiveram um desempenho ruim em assuntos internacionais durante o último ano.

Além disso, 86,2% dos entrevistados condenaram a política externa “América Primeiro”, e 88,8% consideraram que as divisões internas na sociedade americana aumentaram sob a atual administração.

UMA LIGAÇÃO ENTRE COMPETÊNCIA E GESTÃO DA DIFERENÇA

As perspectivas para 2025 confirmaram que a relação entre a China e os Estados Unidos combina competição estratégica com interdependência econômica e necessidade de coordenação.

Os dois lados mantiveram divergências em matéria de comércio, tecnologia e segurança, mas também mantiveram abertos os canais de diálogo político e econômico, evitando uma ruptura maior.

Para Pequim, a experiência do ano passado demonstrou que a estabilidade da relação depende do respeito mútuo pelos interesses fundamentais de cada lado e da gestão de suas divergências por meio de consultas, numa relação que continua sendo um dos pilares centrais do sistema internacional contemporâneo.

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