Emiliano José

Che chega em Dar-es-Salaam em 19 de abril, acompanhado de Papi Tamayo e de Víctor Dreke, isso informamos no capítulo anterior. Ele se mantinha anônimo, e chegava cheio de expectativas ao botar os pés no chão do continente quem um dia sonhara visitar no final de uma excursão de dez anos pelo mundo – expressara tal desejo à mãe, uma década antes. Era, agora, um homem viajado, já percorrera mundos jamais imaginados, levado pelos braços da Revolução.
Estava livre para ser ele mesmo, no sentido de que inteiramente devotado à luta revolucionária, disposto a incendiar o mundo para libertá-lo, um missionário da Revolução. Um novo ciclo se iniciava, na visão dele. Ele e seus companheiros são recebidos por Godefredo Tchamlesso, o representante congolês a cobrir a ausência de outras lideranças, como Laurent Kabila, presentes àquele momento em reunião da cúpula revolucionária, no Cairo.

Che, sob um disfarce perfeito a garantir o anonimato, informou a Tchamlesso sobre o número de cubanos prestes a chegar, de modo a reforçar a revolução congolesa: seriam 130 homens, contingente maior do que o prometido anteriormente. Che permanecia imperturbável na clandestinidade dele. Começaram as providências para dotá-los dos meios a permitir a travessia do Lago Tanganika, e chegada ao território congolês, incluindo adquirir suprimentos para os primeiros dias: mochilas, mantas, facas e coberturas de plásticos.
Não fora uma saída de Cuba por algum tempo. Definitiva. Sem volta. Deixara uma carta, hoje documento histórico, carta de despedida, calorosa, expressando toda a admiração dele por Fidel, e dizendo do quanto haviam sido ricos aqueles anos, tão intensos, pleno de ensinamentos, de aprendizado. Dizia sentir ter cumprido o dever com a Revolução. Renunciava formalmente aos cargos no partido, ao posto de ministro, à patente de comandante e à cidadania cubana.

Confessa ter vivido dias magníficos ao lado de Fidel. Diz lamentar apenas não ter percebido nos primeiros momentos de Sierra Maestra as qualidades dele de líder e de revolucionário. Outras nações do mundo requeriam os esforços dele, naquela quadra histórica, ressaltava na carta. Ele podia fazer, dizia, o que era vedado a Fidel por conta das responsabilidades à frente do governo cubano.
Chegara a hora da separação entre os dois, acontecimento a envolvê-lo numa mescla sentimental entre alegria e pena. Em Cuba, ficava as mais puras esperanças dele de construtor, como ele diz, construtor de uma Revolução, lado a lado com Fidel. E restavam lá, também, os entes mais queridos da vida dele. E um povo generoso, capaz de recebê-lo como filho. Uma parte do espírito dele, assim, ferida.
Carregava com ele, no entanto, ao partir, a fé aprendida com Fidel, o espírito revolucionário, a sensação de estar cumprindo com o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que seja. “Isso me consola e mais do que cura as feridas mais profundas.
Na carta, exime Cuba de qualquer responsabilidade pelo destino dele. “Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu último pensamento será para o povo e especialmente para você [Fidel]”.
Despede-se, calorosamente:
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