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sábado, 7 fevereiro 2026

Centenários, bicentenários e intervencionismo na América Latina 2026

Por Juan J. Paz-y-Miño Cepeda*

É um paradoxo histórico que o ano de 2026 esteja destinado a comemorar o bicentenário do Congresso Anfictiônico do Panamá ao mesmo tempo em que surge a nova era da Doutrina Monroe sob o “Corolário Trump”, com a primeira intervenção direta dos Estados Unidos na América do Sul por meio do bombardeio lançado em 3 de janeiro em diferentes pontos da Venezuela e a captura e detenção do presidente Nicolás Maduro e sua esposa.

Pouco importa se a comunidade latino-americana e outros governos ao redor do mundo reagem, assim como as normas e regras do direito internacional se mostraram ineficazes. O intervencionismo tem sido implacável, e a América Latina carece de força e coordenação para garantir o respeito à soberania de cada Estado da região.

Duzentos anos atrás, a pedido de Simón Bolívar, então Libertador e Presidente da Colômbia e Comandante Supremo Interino do Peru, o primeiro congresso dos estados recém-independentes reuniu-se no Panamá com o objetivo de forjar uma grande confederação continental. Este Congresso Anfictiônico, como ficou conhecido, teve início em 22 de junho de 1826 e terminou em 15 de julho. Documentação essencial sobre este evento foi compilada por Germán A. de la Reza e publicada pela Biblioteca Ayacucho ( https://t.ly/d9cGT ).

É evidente que Bolívar idealizava a união dos países libertados do colonialismo espanhol e não previa a participação dos Estados Unidos. Foi o vice-presidente Santander quem convidou os Estados Unidos, o que, por sua vez, tornou necessário convidar também o Brasil, a Grã-Bretanha e os Países Baixos. Assim, ao final, participaram dois representantes de cada um dos seguintes países: Grã-Colômbia, composta por Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela; Províncias Unidas da América Central, formada por Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua; e, ainda, Peru e México.

O ideal unionista de Bolívar não foi facilmente alcançado em estados nascentes, sujeitos à ascensão do regionalismo, de homens fortes, elites dominantes, um sistema político bipartidário e até mesmo de oficiais militares que aspiravam ao poder. Além disso, o ambiente social era adverso devido às claras divisões de classe herdadas da era colonial, com a exploração generalizada de trabalhadores rurais e urbanos e democracias frágeis e de acesso limitado.

A Argentina estava mais preocupada com o conflito com o Brasil em relação à Banda Oriental; o Brasil não enviou delegados, nem o Chile; os da Bolívia não chegaram a tempo; o Paraguai preferiu seu isolacionismo singular; enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estavam interessados ​​apenas em acordos comerciais.

De acordo com a documentação e os discursos, o Congresso foi apenas a primeira tentativa real de unidade continental. Além disso, a Doutrina Monroe, postulada pelos Estados Unidos em 1823, provou ser mais um instrumento para garantir sua presença e seus interesses no continente. Isso explica a carta que Bolívar endereçou anos depois ao Coronel Patrick Campbell (1829), na qual fez uma declaração marcante: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a atormentar a América com miséria em nome da liberdade”.

Esse “destino” se repetiu, cada vez com maior clareza, ao longo do século XIX e atingiu um nível agressivo com o “Corolário Roosevelt” (1904), que atribuiu aos Estados Unidos o “direito” de intervir na América Latina com “grande porrete” para garantir seus interesses em meio à expansão imperialista. Essa orientação levou à invasão estadunidense da Nicarágua em 1926, justificada pela “instabilidade” política que o governo dos EUA acreditava afetar o país.

O mesmo ideal intervencionista foi revivido com o “Corolário Trump” do ano passado, que marca uma nova fase agressiva na região, que as considerações geopolíticas preveem que terá impactos graves durante 2026 ( https://t.ly/4GiY5 ) e que começou precisamente na terra de Simón Bolívar.

Por outro lado, o contexto histórico do bicentenário do Congresso Anfictiônico do Panamá destaca o centenário do nascimento de Fidel Castro Ruz, em 13 de agosto de 1926. Ele é o líder da Revolução Cubana (1959), guiada pelos ideais independentistas e anti-imperialistas de José Martí, bem como pelo pensamento latino-americanista que teve origem em figuras como Miranda e Simón Bolívar.

A Revolução Cubana é o evento mais importante da América Latina no século XX, e Fidel Castro, uma figura de relevância histórica internacional. Cuba continua a sofrer com o embargo imposto pelos Estados Unidos, agora agravado pelo governo Trump. Esse embargo viola o direito internacional há décadas, é condenado pelas Nações Unidas desde 1992 e é a causa principal dos problemas econômicos e sociais persistentes da ilha.

Há um século, também surgiam movimentos operários em busca de direitos, que a Constituição Mexicana de 1917 consagrou pela primeira vez na história da América Latina. Em diversos países, a jornada de trabalho de oito horas foi conquistada e as primeiras leis trabalhistas foram promulgadas.

Além disso, em 1926, na Colômbia, os seguidores indígenas do Cacique Quintín Lame se insurgiram contra o Estado; na Guatemala, os trabalhadores bananeiros lançaram uma poderosa greve; e em diversos países, como Colômbia e Equador, foram fundados partidos socialistas, enquanto ideólogos venezuelanos fundaram o Partido Revolucionário no México, núcleo que levou à fundação do Partido Comunista. No Equador, iniciou-se o governo de Isidro Ayora (1926-1931), dando continuidade às reformas da Revolução de Julho (1925) por meio da Missão Kemmerer, que chegou ao país e facilitou a criação do Banco Central, de outras instituições econômicas e até mesmo do Fundo de Pensões.

Num futuro próximo, em 2026, haverá eleições em vários países: Costa Rica, para os poderes Executivo e Legislativo; no Peru, também; na Colômbia; além do Haiti, que atravessa uma verdadeira crise institucional; e também no Brasil.

A polarização política e social está profundamente enraizada na região entre dois tipos de forças que disputam o poder: de um lado, grandes grupos econômicos que confiam em políticos de direita para garantir seus interesses, mantendo as políticas neoliberais que vêm sendo reproduzidas há décadas; do outro lado, estão os setores médios, operários e populares que aspiram a políticos progressistas de esquerda que estabeleçam estados baseados em economias sociais voltadas para o bem-estar.

Esta é uma situação imprevisível, embora a “onda azul” tenha avançado na América Latina e a esquerda continue a sofrer com divisões ideológicas e capacidade limitada para impor uma unidade que leve ao controle do poder a longo prazo, como exige a região ( https://t.ly/WIB6W ). Além disso, é evidente que o governo Trump agirá de alguma forma, não tendo demonstrado qualquer contenção no apoio a candidatos, políticos e governos de direita que considera “aliados” dóceis aos interesses superiores dos Estados Unidos.

Nesse contexto, não apenas governos de direita como os da Argentina e do Equador acolheram a interferência dos EUA na Venezuela, mas a Colômbia também se sente ameaçada, e o cerco dos EUA ao Caribe tem um propósito geoestratégico mais amplo: monitorar o Brasil e o México, cujos governos, sob o Corolário Trump, são considerados “de esquerda” e, portanto, perigosos.
É claro que a intervenção na Venezuela serve de advertência à China, à Rússia e aos BRICS, pois o Ocidente não pode permitir que se tornem uma força que ameace a segurança nacional dos EUA.

E, finalmente, no centro de tudo, está a concepção de Trump sobre os recursos latino-americanos, especialmente o petróleo venezuelano, que se tornam “propriedade” dos Estados Unidos e, portanto, serão mais cedo ou mais tarde confiscados. Em outras palavras, no bicentenário do Congresso convocado por Bolívar, a Doutrina Monroe, com o Corolário Trump, volta a ser não apenas uma ameaça para toda a América Latina, mas uma realidade, a começar pelos bombardeios e ataques à Venezuela.

* Este artigo pode ser reproduzido, desde que a fonte seja citada. Em 2026, iniciamos uma nova fase do projeto História e Presente para refletir sobre a América Latina e o Equador a partir de uma perspectiva histórico-crítica, que também nos permite compreender a situação atual.

*Juan José Paz e Miño Cepeda

Juan José Paz y Miño Cepeda. Equatoriano. Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Santiago de Compostela. Coordenador Acadêmico no Equador da Associação de Historiadores da América Latina e do Caribe (ADHILAC). Membro da Academia Nacional de História. Dirigiu o Workshop de História Econômica (THE) na Faculdade de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE). Foi Decano da Faculdade de Comunicação, Artes e Humanidades da Universidade UTE em Quito. Também atuou como Cronista da Cidade. Professor visitante em diversas universidades da América Latina, América do Norte e Europa. Considerado um dos pioneiros da História Contemporânea. É autor de inúmeros livros e artigos sobre o Equador e a América Latina.

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