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quarta-feira, 14 janeiro, 2026

Cartas habaneras (VI)

Emiliano José

Dia 4 de maio.

Almoço muito agradável na casa de Jorge Ferrera.

Apartamento no subúrbio de Havana.

Modo de dizer.

No município de Cerro, um dos 15 municípios a constituir a grande, bela capital de Cuba.

Fomos no valente, resistente Lada dele, espécie de 1983.

O guerrilheiro, assim chamado.

Valter Xeu me falou de incríveis aventuras a bordo dele.

Llegamos e então conheci Martha, esposa de Ferrera, enfermeira já aposentada.

Acolhedora, simpática,. brincalhona.

Sentei-me no sofá da sala e a conversa rolou, embalada por cerveja.

Falamos de Carla.

Como gostaria estivesse comigo.

Sentada ao meu lado naquele sofá.

Naquela sala está faltando ela.

A existência tem crueldades.

Para mim, a ausência dela, uma das maiores.

Um apartamento simples e bem cuidado.

Certamente, mãos de Martha.

Três quartos.

Um, do casal.

Outro, pronto para a visita de um dos dois filhos ou netas ou bisneta.

O outro, espécie de almoxarifado para uso dos filhos, onde cabe tudo, quarto da bagunça.

Há o canto das plantas.

Do verde que te quero verde.

No cantinho da máquina de lavar.

Muito bem cuidadas, as plantas olhavam pra mim com carinho.

E os olhos delas brilhavam mais por Martha, madre.

A zeladora.

Amorosa com o verde.

Pequena cozinha, de onde saiu, pelas mãos de Martha, um delicioso almoço.

Galinha saborosa, sobre abacaxis e batatas, acompanhada de salada.

Deliciosa sobremesa.

Nem o diabetes me impediu de saborear.

Uma vez na vida.

Difícil encontrar refeição assim em algum restaurante.

Terminado o almoço, Martha encarrega Ferrera do café.

Tarefa dele, sempre.

Ferrera ao volante, Martha nos acompanhando, cobrimos os seis quilômetros de Cerro ao hotel onde estava hospedado.

Havana está sendo novamente um momento acolhedor.

Num momento difícil de minha vida, me acolhe.

Guiado por Jorge Ferrera, querido companheiro.

Carla, presente em minhas recordações.

Fortemente.

Serenas lembranças.

Amorosas lembranças.

Me ponho a pensar na trajetória de Jorge Ferrera.

Dirigente comunista.

Apaixonado pela Revolução Cubana.

Militante.

Homem comum.

Convicções profundas.

À Gramsci.

Vive modestamente.

Como um homem do povo cubano.

Já aposentado, sem largar a militância.

Recentemente, esteve no Brasil em missão de solidariedade a Cuba, vivendo fortemente as consequências do bloqueio norte-americano.

Batizado, se o foi, Jorge Antonio Ferrera Diaz.

Nasceu em Havana, no dia 4 de junho de 1947.

Somos da mesma geração, ele ligeiramente mais novo, quase empate: nasci em fevereiro de 1946.

Fez Ciências Sociais.

Os pais, Yma e Alberto.

Mãe, morre em 1999.

Pai, em 1968, bem antes.

Mãe, costureira.

Pai, sindicalista de esquerda, construtor.

Tem a quem puxar.

Quem sai aos seus, não degenera.

Triunfo da Revolução, quando Fidel desceu de Sierra Maestra e entrou em Havana, 1959, tinha apenas 13 anos.

Ele, vibrando.

À consciência, o espirito revolucionário chegou muito cedo.

A invasão mercenária, orientada e dirigida pelos EUA, de 1961, em Playa Girón, provoca muita indignação dele.

Incorpora-se aos Comitês de Defesa da Revolução e às Milícias Nacionais Revolucionárias.

Participa de modo entusiasmado na criação dos Comitês de Defesa no bairro de Talla Piedra, do município de Centro Havana.

Poucos meses depois, passa a dirigir os Comitês de Defesa ao nível de Comitê de Zona.

Mais tarde, em nível municipal, Centro Havana.

Dirigente, desde muito cedo.

Comunista precoce.

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