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quinta-feira, 15 janeiro, 2026

Cartas habaneras (IX)

Emiliano José

Durante os anos 1978 e 1979, Jorge Ferrera esteve na República Popular do Iêmen do Sul.

Colaborador internacionalista.

Foi para aquelas distantes terras contribuir para a criação de uma organização social: os Comitês de Defesa Popular, cujo objetivo seria organizar o povo.

E organizá-los para defender o processo socialista em curso naquele país.

Ao final dos anos 1970, na análise de Ferrera, avançava a criação do Partido Socialista Yemenita.

O principal líder do processo de criação do partido socialista era Fatha Ismail.

Tinha enorme carisma e forte apoio popular.

O Iêmen já havia criado as milícias populares para a defesa da revolução.

Agora, se cobrava a necessidade de organizar o povo, e o caminho seria a criação dos Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), processo no qual Cuba tinha larga experiência, e do qual Ferrera havia participado de modo decisivo.

Durante aqueles anos, eram frequentes os conflitos fronteiriços entre o país e a Arábia Saudita.

Isso punha a urgência de preparar, treinar a população em tarefas de defesa.

É iniciada então a organização dos CDRs da Revolução Iemenita.

Toda ela fundada na experiência cubana, onde a maioria da população participava nas tarefas da vigilância revolucionária, trabalho político-ideológico, trabalhos voluntários, entre tantos outras tarefas.

Em Yêmen do Sul havia quadros jovens que haviam sido preparados nos países socialistas e também em Cuba.

Estes tinham condições de cumprir as tarefas dos CDRs, e Jorge Ferrera dedicou-se sobretudo a aprimorar a formação deles, de modo a poderem cumprir com eficiência a missão de defesa da revolução.

Os esforços de Jorge no trabalho de formação primeiro se concentram em Aden, então capital do país.

Pouco a pouco, o trabalho se estendeu a outras regiões.

Avançava, assim, a organização do povo.

Em bom ritmo.

A ponto de a direção do Partido Socialista Yemenita destacar, reconhecer a importância do trabalho de solidariedade de Cuba, liderado por Jorge Ferrera, apoio ao processo social e político vivido pelo país.

Durante aqueles anos, Yêmen do Sul estava em processo de negociações com o Iêmen do Norte visando a reunificação dos dois países.

Um processo intricado, cheio de dificuldades.

Por outro lado, a par disso, havia os reiterados conflitos fronteiriços com a Arábia Saudita.

Tais conflitos acabaram por provocar a deflagração da guerra entre os dois países, no início de 1979, quando tropas sauditas invadiram território yemenita.

_ Os soldados e milicianos yemenitas lutaram tenazmente em defesa do território nacional até expulsar os invasores.

Quando o conflito foi deflagrado, exatamente no dia do início da guerra, Ferrera encontrava-se na fronteira com a Arábia Saudita.

No centro da guerra.

No olho do furacão.

Estava lá organizando a Convenção dos Comitês de Defesa das proximidades da fronteira.

Estendendo o trabalho de formação.

Fazia isso lado a lado com alguns quadros yemenitas.

Estava posto em sossego naquela tarefa política quando algumas autoridades locais alertam-nos:

_ Vocês terão de sair daqui.

_ Os combates devem começar logo.

Era a guerra.

Sabiam da possibilidade, mas não esperavam fosse assim, de pronto.

Melhor juntar os trapos e botar o pé na estrada.

O mais rápido.

Ferrera recorda-se: no caminho para Aden, souberam do início dos combates.

Por pouco, ele e seus companheiros não ficaram em meio ao fogo cruzado.

Fossem surpreendidos, podiam ter morrido no Yêmen.

Sobreviveram.

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