Quantum Bird [*]
A reação oficial brasileira à explosão de violência entre o Hamas e Israel, que começou no sábado, não apenas ignora as realidades locais e o ambiente geopolítico daquela região, como também distancia o país do Sul Global. O Brasil mais uma vez confirma sua incapacidade de articular a sua agenda supostamente sensível à justiça histórica e social para além do nível retórico. Os belíssimos discursos de seu presidente nas cúpulas do G-(7, 20, 77), BRICS e Nações Unidas e outras reuniões de alto perfil simplesmente não se traduzem em ações práticas e iniciativas políticas claras e coerentes quando o momento histórico assim o exige.
Tem sido assim na Ucrânia, com Lula começando seu governo visitando os EUA e aproveitando a ocasião para criticar a Operação Militar Especial (SMO) do púlpito na Casa Branca, com Biden ao lado, e culpar direta e indiretamente a Rússia pelo conflito. Nos meses seguintes, oficiais brasileiros posaram inúmeras vezes para fotos com notórios nazistas do regime em Kiev, incluindo o próprio presidente Lula que recentemente se fez fotografar com Zelensky – mesmo depois de ser grosseiramente destratado por este no G7 em Hiroshima. Até o momento Lula não fez, nem agendou, uma visita oficial a Moscou, alegando que não visitaria a Rússia – seu parceiro fundador nos BRICS – enquanto ela estivesse em guerra com a Ucrânia. Estranhamente, este raciocínio não se aplica quando se trata de visitar países da UE e os próprios EUA, agressores globais seriais e ativamente envolvidos em incontáveis conflitos na arena mundial, incluindo o conflito ucraniano.

O padrão errante e esquizofrênico se repete no conflito entre Hamas e Israel. Lula não perdeu tempo em expressar sua solidariedade à população de Israel e rotular indireta e superficialmente as ações do Hamas como terrorismo:
As palavras de Lula são alimento para reflexão. O presidente parece ignorar completamente a história recente e remota da Palestina, bem como as sensibilidades dos palestinos. Sua falta de tato é rara em um político de sua estatura. Não estaria Lula ciente do histórico longo e volumoso de abusos contra civis pelo estado de Israel, que inclui inúmeros massacres, limpeza étnica, roubo de terras férteis e destruição contínua de infraestrutura?
Lula e seus oficiais deveriam saber que existem civis em Gaza também. E que estes civis, principalmente as mulheres e as crianças, são as vítimas preferenciais do bombardeamento contínuo de Gaza pelas forças armadas israelenses e dos ataques cotidianos perpetrados pelos inúmeros esquadrões da morte formados por colonos usurpadores de terra que operam nos territórios ocupados. Nada disso é segredo. Aliás, seu próprio conselheiro de política externa, Celso Amorim, que assina o prefácio do livro “Engajando o Mundo: a Construção da Política Externa do Hamas”, Daud Abdulah (Editora Memo), poderia instruí-lo sobre o assunto.



