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Papo do Dia

Postado em 04/10/2021 7:58

BOLSONARO, BLACKROCK E A CRUELDADE DO SISTEMA FINANCEIRO

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 Pedro Augusto Pinho*

Neste artigo, como nos três anteriores, publicados no Portal PÁTRIA LATINA (“O Ideal da Distopia”, em 26/09/2021, “Utopia, Distopia e Desenvolvimento”, em 28/09/2021, e “Janela para Utopia Desenvolvimentista no Século XXI”, em  30/09/2021), descrevemos, com seus fundamentos, os ideais de desenvolvimento e suas durações. Porém vamos nos aproximando da construção do modelo nacional, culturalmente ajustado ao povo brasileiro, buscando em suas características e seus desejos a condição de maior êxito e permanência. 

E, como já sabemos, longe do futuro esperançoso, temos hoje a distopia de peste, desemprego, fome, miséria, humilhações e morte a nosso redor, e o governo que ainda nos ameaça com dias piores. 

O título junta manifestações governamentais, que nos soam articuladas, como se fossem a resposta à pesquisa divulgada neste final de setembro, a pouco mais de um ano da eleição, que mostra o atual mandatário derrotado em todos os cenários. 

Para primeira amostra trazemos, da jornalista  Luisa Purchio,  sua matéria na revista Veja (veja.abril.com.br/economia/qual-o-interesse-do-blackrock-pelo-brasil-em-reuniao-com-tarcisio-em-ny). 

Esta coloca o foco no Ministro da Infraestrutura do governo de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, e transcrevemos: 

“Tarcísio Gomes de Freitas, e sua equipe, prepara para o início de outubro uma viagem de uma semana para Nova York, para apresentar o programa de concessões do Ministério. De Nova York, Adi Blum, diretor de Infraestrutura de Energia da BlackRock, maior e  mais badalada gestora de fundos abertos do mundo, que possui mais de nove trilhões de dólares sob gestão, falou a VEJA sobre o interesse da gestora em investir nesta área no Brasil”. 

“Avaliamos os riscos associados ao projeto, quem são as contrapartes e procuramos as várias partes envolvidas. Olhamos para a demanda pelo investimento que estamos fazendo e quais tipos de estruturas contratuais existem, qual o nível de visibilidade da receita e qual é a denominação da moeda da oportunidade investimento. Em alguns casos, principalmente na Petrobrás, as oportunidades de investimento são mais feitas em dólares americanos. Do lado da geração de energia, tende a ser mais moeda local. No entanto, há um movimento agora para termos, no lado da energia, contratos de compra de energia em dólares em vez de reais, e, se isso continuar progredindo , realmente poderia abrir esse mercado”. 

“Os mercados de financiamento em reais não são tão profundos como em muitos outros países, porque não há uma comunidade de empréstimos em reais muito grande. Temos o BNDES, temos o BNB, temos debêntures de infraestrutura, mas se houvesse oportunidades de investimento em dólares, abriria um grande leque de fontes potenciais de financiamento. E isso realmente ajuda a reduzir o custo de capital. Outro ponto é o compliance (garantia de regras seguidas), algo muito importante em todos os investimentos que fazemos. Tivemos uma série de situações no Brasil em que conduzimos algumas diligências e tivemos que parar porque encontramos algumas preocupações sobre compliance. E outra questão é a volatilidade dos preços da energia. Estamos vendo isso agora com os baixos níveis dos reservatórios, que estão elevando muito os preços. Investimentos que podem ser expostos negativamente a uma volatilidade ou a altos preços de energia também podem se apresenta podem se apresentar como desafios”. 

No Portal UOL, São Paulo, 27/09/2021, lemos a segunda agressão:  

“O ministro da Economia, Paulo Guedes, indicou hoje que o plano do governo para um horizonte de dez anos contempla privatizar as estatais de maneira irrestrita, incluindo a Petrobrás e o Banco do Brasil. Ao participar de evento promovido pela ICC-Brasil (International Chamber of Commerce – Brasil), ele afirmou que esse é um dos vetores “muito claros” para o futuro, assim como alterações no regime de Previdência”. 

“Se você pergunta: o que você gostaria de fazer nos próximos 10 anos? Mudar o regime previdenciário para capitalização. O Brasil vai crescer 5% ao ano, em vez de crescer 2%, 3%”, disse ele, pontuando que a reforma já feita pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) foi razoável, mas não transformadora. “Qual o plano para os próximos dez anos? Continuar com as privatizações. Petrobras, Banco do Brasil, todo mundo entrando na fila, sendo vendido e isso sendo transformado em dividendos sociais”, acrescentou. O ministro também voltou a rebater as críticas às privatizações do atual governo por parte de pessoas que fizeram parte do governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (PSDB)”. 

(economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/09/27/guedes-plano-inclui-privatizar-petrobras-e-banco-do-brasil-em-10anos.htm?cmpid=copiaecola). 

Por terceiro exemplo, em 29/09/2019, o General de Exército Joaquim Silva e Luna, talvez até ao modo Bolsonaro com a bandeira nacional usada como xale, faz-nos saber da venda do campo de Búzios. 

Da Agência Brasil a descrição de Búzios: “Búzios, o maior campo de petróleo em águas profundas do mundo, é um ativo de classe mundial, com petróleo de ótima qualidade, reservas substanciais, baixo risco e baixo custo de extração. Situa-se a 180 quilômetros (km) da costa brasileira e a mais de cinco mil metros de profundidade. Tem área de 850 km², com espessuras de reservatórios de até 480 metros e excelente qualidade da rocha reservatório. Os mais de 45 poços perfurados até o momento confirmam a excelente qualidade do reservatório. As características de permeabilidade e porosidade, associadas a grandes espessuras de coluna de óleo, permitem que cada poço de Búzios produza, em média, mais de 50 mil barris de óleo por dia. Atualmente, o campo tem os seis poços com maior produção de petróleo do país” (em 27/07/2020). 

É mais uma parte de nosso ser, da nossa soberania, do território brasileiro vendido como um doce barato na esquina. 

Vamos entender a construção desta distopia para erigirmos um modelo de desenvolvimento nacional brasileiro. 

Como vimos os poderes coloniais buscam impor sempre dualidades, qualquer que seja seu lado. A multiplicidade, que é encontrada em todas as sociedades e fazem a multiplicidade de culturas, artes, técnicas, é apagada, enterrada, sempre dispensada e desprezada como erro, uma incapacidade. 

Mas ninguém faz um samba, com o saber instintivo de um Cartola, ou tem a merecida fama de rumbeira de María Antonieta Pons. 

Os desenvolvimentos são elaborados de acordo com as riquezas naturais dos países/sociedades e na cultura ali desenvolvida. Todo desenvolvimento que frutifica, que permanece ao logo dos séculos, é construído com os recursos e culturas nacionais; é nacionalista. E por isso, a dominação globalizante tem horror aos nacionalismos, um seu representante, o megaespeculador George Soros, confessa seu ódio e permanente combate ao nacionalismo, que lhe deve ser ainda pior do que o comunismo, com quem até negociou no passado. 

O Brasil não é uma sociedade primitiva. Nele já encontramos, em diferentes estágios, todos os conhecimentos que necessitamos para construção do País soberano, habitado por cidadãos. O que nos falta primordialmente é gestão. A gestão voltada para o Brasil, para os brasileiros, para o interesse nacional, usando-nos a nós mesmos como referências, para aprofundar e para corrigir, criticar e enaltecer. 

Mas nossos gestores, com a exceção de Getúlio Vargas, que sofreu um golpe, foi deposto, retornou pelo voto popular e foi levado ao suicídio, sempre foram mais representantes de interesses estrangeiros do que imperadores ou presidentes do Brasil. Nossos 200 anos de independência, na realidade, foram pouco menos de 20; 10%. Aliás, aqui é o país da comissão, dos porcentos, poucos fazem, mas, nas elites, só intermediam. 

Primeira questão é esta: por que poucos constroem, realizam? Por que, como assinalava o pedagogo Manoel Olympio Rodrigues da Costa (1841-1891), no século XIX, só se habilitam para serem empregados, para receberem ordens? Porque temos a educação mais deficiente, desigual, doutrinadora. Vivemos debaixo da pedagogia colonial. Então o primeiro passo é reformar integralmente a educação, sem copiar países ou filosofias estrangeiros.  

Temos dois grandes mestres: Anísio Teixeira (1900-1970) e Darcy Ribeiro (1922-1997). Eles souberam criar e operar sistemas de ensino que sintetizo nos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), que até forma arquitetônica própria tinha, criação do gênio de Oscar Niemeyer (1907-2012). 

Os CIEPs eram escolas de tempo integral, com alimentação, higiene, cuidados médicos, odontológicos, fisioterápicos, áreas para atividades físicas, culturais, inserção na comunidade onde era construído, e com a possibilidade de ter horta e pomar, como parte do ensino integral. De acordo com os estudos de outro grande educador, M.B. Lourenço Filho (1897-1970), poderíamos ter o ciclo básico e secundário, com os CIEPs devidamente preparados, para as crianças e jovens dos três anos aos 18 anos. 

Ou seja, todos os municípios brasileiros disporiam de áreas próprias para construção destes centros educacionais formadores de homens e mulheres, preparados intelectualmente, fisicamente e nacionalmente, aptos à cidadania. 

O empenho educacional correrá paralelo ao de outras urgentes necessidades de reconstrução nacional. Destas trataremos em “Projeto do Brasil Não É Utopia”, próximo e ultimo artigo desta série.  

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado. 

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