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quarta-feira, 24 julho, 2024

Bolívia: tentativa de golpe ou autogolpe?

 Foto: Sputnik

Neste artigo revisamos a tentativa de golpe de Estado liderada pelo demitido chefe do Exército Boliviano, Juan José Zúñiga, contra o governo de Luis Arce.

Por Roberto Chambi Calle, jurista, teólogo e analista de RI

HispanTV – A população boliviana viveu na tarde desta quarta-feira, 26 de junho, momentos de tensão, ainda marcados pelos traumas do recente golpe de Estado de 2019, quando as Forças Armadas e grupos fascistas de extrema direita defenestraram o 1º Presidente Indígena do Estado Plurinacional da Bolívia Evo Morales Ayma, com um saldo de mortos de mais de 37 vítimas, os mesmos que mesmo dentro dos seus caixões foram gaseados pelas forças repressivas do “governo de transição”, imposto pelas oligarquias ortodoxas do antigo sistema colonial e pelas novas elites empresariais estacionado na cidade de Santa Cruz.

Tropas militares comandadas pelo General Juan José Zúñiga, que dentro de um tanque com seus soldados entraram na Plaza Murillo, forçando e batendo um dos veículos militares contra a porta principal do Palácio Quemado, sendo este um dos eventos mais opróbrios para a democracia latino-americana, em um cenário em que a população boliviana corria aos mercados para estocar mantimentos, aos caixas dos bancos para sacar seu dinheiro, agravado pela subida abrupta do dólar no mercado negro por mais de 10 bolivianos, e que como resultado de a “aventura golpista”, Bolívia segundo o EMBI (Emerging Markets Bond Indicator na sigla em inglês) O risco país da Bolívia passou de 1.980 para 2.027 pontos na quinta-feira, 27 de junho, em termos de investimentos.

As posições e percepções podem ter ângulos diversos, tanto para quem sustenta que se tratou de um Golpe de Estado, como também de um autogolpe; Para tal podemos decompor estas posições em vários pontos.

Por exemplo, na primeira hipótese argumenta-se que se tratou de um golpe de Estado, incluindo o atual presidente e a sua liderança mais próxima:

1º. Que isto tem sido um produto dos grupos oligarcas de poder que querem desestabilizar a gestão do governo de Luis Arce Catacora, devido a diretivas que foram dadas por Washington, baseadas no desejo de se apropriar de recursos naturais e energéticos como o lítio, o gás, bem como a exploração de terras raras que a Bolívia possui, conforme indicado pelo presidente boliviano

2º. Orquestrado pela oligarquia e pela direita neoliberal, que há mais de 16 anos procuram recuperar o poder, perdido desde o governo dos movimentos sociais, em 2006, com Evo Morales como presidente do Estado boliviano.

3º. No dia 6 de junho, Luis Arce Catacora reuniu-se com Vladimir Putin no Fórum Econômico de São Petersburgo para cooperação bilateral sobre lítio, bem como para aderir aos BRICS, o que vai contra os interesses dos EUA no continente, ainda pior quando a Rússia quer cooperar com. a exploração deste recurso.

Porém, na segunda hipótese sugere-se que se tratou de um autogolpe para fortalecer a figura e liderança de Luis Arce Catacora como presidente, sendo os pontos mais abordados:

1º. Um golpe de Estado sob a égide dos militares é violento, sangrento e imediato. Paradoxalmente, o “golpe” levado a cabo pelo ex-general Zúñiga foi anunciado dias antes, quando ele próprio o disse à jornalista Jimena Antelo num programa de televisão; “Somos o braço armado do povo, um braço armado da Pátria” e que a missão dos militares “é garantir a estabilidade do país”. Ao referir-se a Evo Morales, disse que “não pode voltar a ser presidente deste país”, acrescentando que “é um personagem cuja natureza é mentir, insultar e difamar. (…) um verdadeiro mitômano, (que) usa a mentira como estratégia para tentar voltar ao poder.”

2º. As forças militares, segundo os processos históricos que a Bolívia teve, nunca foram de diálogo, nem assaltaram o poder durante o dia, mas sim à noite ou de madrugada, onde os militares insurrecionais – cujo propósito é claro – não dialogaram , mas sim impôs com fuzis, balas e tanques suas determinações, tomando imediatamente o poder e militarizando as principais capitais do país. No caso do ex-comandante, ele entrou na Plaza Murillo à tarde, em plena luz do dia e permitindo que a mídia transmitisse ao vivo e direto – como se fosse um espetáculo – todas as ações, como a batida de um tanque contra a porta do palácio queimado.

3º. A UTOP (Unidade Tática de Operações Policiais, que fica em frente ao palácio do governo) estava quase ausente, em outras ocasiões a menor escaramuça de qualquer ato suspeito ou uma marcha, por mais miserável que fosse, fechava imediatamente o perímetro e o segurança do palácio.

4º. O Ministro da Defesa, Edmundo Novillo, tinha conhecimento deste levante militar, pois afirmou que “Naquele dia 26 de julho, entre 8h30 e 9h00, (foi) informado de uma movimentação inusitada de tropas compostas por instrutores , aproximadamente 40 militares, que se dirigiam em seis vans de Challapata (Oruro) em direção a La Paz. Noutras ocasiões, quando um ministro de Estado tem conhecimento disso, atua imediatamente em coordenação com o presidente para tomar medidas decisivas. Por que ele não fez isso?

5 ª. O ex-General Zúñiga, depois de ter falado nos corredores do palácio invadido com o Presidente Luis Arce, sai do palácio e dá uma breve conferência aos meios de comunicação, onde declarou: “Vamos restaurar a democracia, vamos libertar os nossos políticos prisioneiros.” Todas as unidades estão estacionadas em todo o país”, acrescentando: “Queremos restaurar a democracia”, e que em breve serão recuperados todos os presos políticos, desde Fernando Camacho, Jeaninne Añez, coronéis, generais e outros.

6º. Depois de o General Zúñiga ter falhado a sua tentativa de golpe, retirou-se com as suas tropas para o Estado-Maior, onde mais tarde se entregou no Estado-Maior ao antigo General da Polícia e agora Vice-Ministro do Regime do Interior, Jhonny Aguilera. Ao ser transferido para a FELCC, Zúñiga disse: “Na escola La Salle me encontrei com o presidente (Luis Arce) e o presidente me disse que a situação está muito complicada, que esta semana seria crítica e é preciso preparar algo para levantar a minha popularidade”, Zúñiga acrescentou ainda que Arce lhe tinha pedido para realizar um movimento militar: “Perguntei-lhe: devemos retirar os veículos blindados? e ele (Arce) respondeu ‘tire isso’”.

Não há dúvida de que ambas as hipóteses estão em discussão, porém devido aos acontecimentos observados nos dias de hoje, a segunda hipótese de que foi um autogolpe, é a que mais se expande em círculos sociais de diferentes estratificações sociais, e é que os bolivianos são filhos de ditaduras, que ainda têm os procedimentos e a trajetória marcados em suas vidas quando ocorre um golpe de estado, e dados os acontecimentos ocorridos na quarta-feira, 26 de junho, as opiniões da maioria dos bolivianos não batem nem se enquadram na figura de um golpe de Estado, neste sentido, por enquanto os bolivianos terão que esperar o esclarecimento dos fatos, pois em algum momento a verdade virá à tona, afirmou o agora ex-comandante Juan José Zúñiga a este respeito durante sua transferência para a prisão de segurança máxima de Chonchocoro: em “Em algum momento a verdade histórica será conhecida, há pessoas inocentes”. Qual será a verdade?

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