Natalia A Linares Canedo – Direto de La Paz
Um dos argumentos mais fortes a favor do “voto nulo” baseia-se na premissa de que, ao proibir Evo Morales, todo o Bloco Popular foi indiretamente banido. Da mesma forma, aqueles que condenam esse slogan acrescentam que o voto nulo está cedendo votos válidos à direita. Ambas as posições, por si só, são desprovidas de caricatura: são slogans superficiais que não abordam a questão verdadeiramente importante: como o Bloco Popular deve atuar em um sistema adverso, concebido sob a lógica liberal ocidental?
Se nos voltarmos para uma análise histórica, constatamos que, no início da República, esse Bloco Popular nem sequer tinha o direito de existir; no entanto, era ele quem sustentava toda a nação. Posteriormente, os processos de autodeterminação do início do século XX demonstram que o Bloco Popular não estava interessado em “pertencer” à República, mas sim em que sua existência fosse respeitada. Não foi à toa que houve um “Juan Lero” (presidente da república indígena), nem à toa que existiram os caciques (chefes) que se apropriaram das regras republicanas não para segui-las, mas para contorná-las e se defender da integração colonial. Assim, há mil e um exemplos de negação do Estado oligárquico.
A retórica do “voto universal” de 52 acabou sendo um processo de “civilização”, não a materialização de uma verdadeira demanda coletiva. De outra forma, como explicar que nos 50 anos seguintes não tenha havido uma participação esmagadora nas urnas? (18 dos quais foram ditaduras.) Nossa história nos diz que, primeiro, as vias de rua foram esgotadas e só depois se buscaram as vias “formais”: após o fracasso dos movimentos armados, recorreram-se aos movimentos eleitorais. Essa mudança de estratégia permitiu o acúmulo de ações por vários anos, até que, pela primeira vez, o Bloco Popular emergiu de forma esmagadora, em 2005 (especificamente, 2002, mas essa eleição nos foi roubada). Então, estabeleceu-se um limite mínimo: participação coordenada e massiva, mas participação mesmo assim.
Agora, a partir de uma leitura atual:
A retórica atual sugere que o Bloco Popular não é mais representado, sob o lema de que apenas “um” pode ser seu representante. Será verdade? Permitam-me duvidar. Com a nomeação de Andrônico Rodríguez, o argumento direto é que “esses não eram os métodos; os mecanismos corretos não foram seguidos” para acessar essa representação. Essa observação equivale a uma “burocracia” mal imitada, projetada para cansar e atrapalhar. Não é nossa característica romper com esses métodos? Onde está o “se não existe, eu invento; e se existe, eu a inverto”? A representação é tomada de assalto; não se espera que ela seja garantida, especialmente em tempos como estes.
Sobre como chegamos aqui: O descaso do Bloco Popular e da esquerda era previsível. Sabia-se que uma nomeação real de Evo Morales não seria permitida; o governo de Luís Arce declarou publicamente que extinguiria os mecanismos para isso — não em reuniões secretas, mas em rede nacional. Fomos ingênuos em acreditar que isso não aconteceria? Portanto, pergunto: diante dessa ingenuidade deliberada, por que não houve uma verdadeira batalha para construir uma nova representação no ano passado? Houve apenas respostas legais para problemas políticos. A proscrição de Evo deve ser denunciada — ela responde a uma lógica regional de anulação de líderes de esquerda —, mas que medidas de contingência foram tomadas? Isso desencadeou um último ano improvisado e desesperado. Onde estava a estratégia política?
Aceitar o “voto nulo” porque “a democracia liberal burguesa é inútil” (como não foi por 30 anos) é inútil. Nós mesmos a usamos em nosso benefício. Hoje, sem essa influência, é hora de dobrá-la novamente, não abandoná-la.
O ponto crucial: no Processo de Mudança, foram construídos padrões mínimos onde a participação do Bloco Popular é irredutível. Somos testemunhas de que, quando ele participa, este país muda. O padrão mínimo atual é defender o pouco arcabouço institucional que resta através da Assembleia — mesmo que sejam eleitos apenas dois ou três representantes — porque esses poucos serão apoiados pelas massas nas ruas. Nosso erro foi separar o formal do formal, quando deveriam se alimentar mutuamente! Abster-se de votar é entregar esse espaço conquistado e agora negligenciado: a Assembleia. O Bloco Popular não pode desaparecer dos espaços públicos de decisão.
O movimento popular não foi banido; sempre esteve presente e, quando chegou ao poder em 2005, veio para ficar. Adotar a narrativa de que “voltamos aos anos 90” é negar tudo o que foi construído nos últimos anos, já que claramente avançamos além dessa década. Acreditar que “eles foram banidos” porque o líder não está na cédula formal é ignorar todo o acúmulo histórico: um líder existe dentro e fora da cédula. Pedir um voto nulo para demonstrar “descontentamento” ignora o poder transformador das massas.
Antes de 2005, este país era governado por grupos com menos de 20% de apoio eleitoral, e a batalha era travada exclusivamente nas ruas. Mas agora que temos experiência com o Estado, vamos negá-lo? Vamos voltar aos 20% que governavam livremente? O Bloco Popular precisa ir às urnas para reivindicar o que lhe é de direito: a gestão da coisa pública.
Não creio que ninguém esteja assumindo uma postura triunfalista hoje. Não nos permitimos pensar que venceremos novamente, mas sabemos que a derrota pode ser menos contundente se trabalharmos com os presentes, com os que se candidatam e com os que estão arriscando seus corpos. Estes são tempos, acima de tudo, de diálogo, discussão e retroalimentação; mas também são o momento de travar a última grande batalha eleitoral para proteger o salário mínimo, o Estado Plurinacional, a representação na Assembleia e a voz decisória no foro formal.