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domingo, 14 julho, 2024

Biden e o estado ocupante: de um beijo de urso a uma cacofonia de vozes desafinadas

Heba Ayyad*

Ao apoiar a ocupação israelense e justificar o genocídio de extermínio contra civis palestinos, incluindo crianças, mulheres e idosos da Faixa de Gaza, a administração estadunidense está travando uma batalha após outra, dificilmente fechando uma frente sem abrir outra arena. Externamente, começando pelo Conselho de Segurança da ONU e pelo Tribunal Internacional de Justiça, e não terminando no Tribunal Penal, nas organizações de direitos humanos e ajuda humanitária, e nas cúpulas do G7, o apoio estadunidense não se limita a papéis de advogado do diabo, mas vai além ao criminalizar qualquer parte que condene ou mesmo expresse uma crítica discreta aos crimes de guerra israelenses.

Essa abordagem assume um caráter estratégico que atravessa sucessivas administrações estadunidenses desde a fundação do estado sionista. É igualmente importante se o ocupante da Casa Branca é democrata ou republicano, pois repetidamente uma administração ultrapassa a outra, estabelecendo um precedente ao ampliar o apoio ao estado ocupante. Isso não impede que haja discordâncias entre o presidente e seus assessores seniores em relação a diferentes assuntos, como está ocorrendo atualmente com a administração sendo forçada a reconhecer a realidade imposta pela incapacidade do exército de ocupação em alcançar seus objetivos declarados na Faixa de Gaza, levando à necessidade de um cessar-fogo após prevenção e interrupção no Conselho de Segurança da ONU, e isolamento mesmo de aliados próximos na Europa.

Quem acompanha os movimentos dos altos funcionários estadunidenses não deixa de notar vozes discordantes dentro daquilo que a administração Biden tenta promover sob a bandeira de uma orquestração integrada e harmoniosa. No topo da pirâmide, o presidente estadunidense continua a defender seu plano anunciado no final de maio, acusando o Hamas de obstruir sua implementação e sendo incapaz de determinar uma posição clara e concreta aceitável pelo primeiro-ministro do governo de ocupação, Benjamin Netanyahu.

Por sua vez, a vice-presidente Kamala Harris tentou adotar um tom de simpatia humana pelas tragédias das vítimas palestinas na Faixa de Gaza, buscando aliviar a insensibilidade do alinhamento cego da Casa Branca com a guerra de aniquilação israelense. No entanto, recentemente, voltou a se alinhar com a mesma discordância, recebendo uma refém israelense libertada e exagerando nas atribuições de responsabilidade aos homens da resistência palestina pelas violações que agora foram expostas e cuja fabricação foi revelada.

Também ficou claro que o Secretário de Estado Anthony Blinken visita a região com o objetivo de demonizar o Hamas e tentar exercer pressão sobre alguns regimes árabes para que exerçam pressão sobre a resistência palestina a fim de fazer concessões, e para encobrir as páginas de Netanyahu ao ponto de mentir sobre os lábios deste último. Por outro lado, William Burns, chefe da CIA, continua com tarefas semelhantes, mas com a perspectiva adicional de pregar a normalização entre Israel e a Arábia Saudita. Quanto a Amos Hockstein, suas visitas entre o Estado ocupante e o Líbano apelam à calma por um lado e, ao mesmo tempo, jogam com o receio de uma intervenção iraniana generalizada no caso de uma guerra israelo-libanesa eclodir. Durante os primeiros meses da guerra de aniquilação israelense, a imprensa estadunidense descreveu a relação entre Biden e Netanyahu como um ‘abraço de urso’, e a cena atual continua essa fórmula de abraço, mas acompanhada por melodias orquestrais mais cacofônicas.

*Heba Ayyad é Jornalista, analista de politica internacional, escritora Palestina Brasileira

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