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domingo, 4 janeiro, 2026

Ataque dos EUA à Venezuela: sequestro de Maduro e o risco à soberania latino-americana

Getty Images

Por: Wagner França

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos lançaram um ataque militar direto contra a Venezuela, bombardeando Caracas e outros estados, e anunciaram a captura – na verdade, o sequestro – do presidente constitucional Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, retirados à força do território nacional. Esse ato, que não tem paralelo na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989, não é um “episódio isolado” de luta contra o “crime” ou um mero confronto político. É a expressão mais aguda de uma lógica imperialista histórica que busca submeter os povos e seus recursos à dominação do capital norte‑americano.

A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta (cerca de 303 bilhões de barris). Essa riqueza nunca foi apenas uma commodity econômica; foi, desde o início do século XX, um objeto de saque sistemático por corporações estadunidenses. Já em 1920, os EUA se posicionaram como o “primeiro parceiro comercial e investidor estrangeiro da Venezuela”. Empresas como a Standard Oil (hoje ExxonMobil) e a Gulf Oil (hoje Chevron) monopolizaram a produção, pagando royalties irrisórios e definindo as regras do jogo a seu favor. A nacionalização do petróleo em 1975 foi uma resposta a esse histórico de espoliação, mas a partir da era Chávez e Maduro, quando o país tentou retomar o controle soberano sobre seus recursos, Washington intensificou as sanções, os bloqueios e as tentativas de desestabilização.

Os argumentos públicos de Washington – acusações de corrupção, ilegitimidade eleitoral ou narcotráfico – são uma cortina de fumaça ideológica. O que está em jogo é o controle da renda petrolífera e de outros recursos estratégicos (como o ouro) que interessam ao capital financeiro e aos monopólios norte‑americanos. A própria administração Trump oscila entre uma linha intervencionista militar (liderada por figuras como Marco Rubio) e uma linha “negociadora” que busca ampliar os contratos de exploração, mas ambas compartilham o mesmo objetivo: garantir a dominação imperialista sobre a Venezuela.

A ação de 3 de janeiro representa um salto qualitativo na agressão imperialista. Não se trata apenas de bombardeios; é o sequestro físico do chefe de Estado de um país soberano, realizado sem qualquer autorização da ONU ou do direito internacional. A vice‑presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, denunciou a agressão e exigiu prova de vida de Maduro e de sua esposa. O governo bolivariano decretou estado de conmoción exterior, mobilizando a FANB para defender o território. Esse ato é, na definição precisa da teleSUR, um “secuestro” – um crime de guerra que explicita a disposição dos EUA de rasgar todas as normas de convivência entre Estados quando seus interesses estratégicos estão em jogo.

Se os Estados Unidos se sentem autorizados a invadir e sequestrar o presidente de um país soberano na região, nenhuma nação latino‑americana está segura. A lógica da “guerra preventiva” ou da “intervenção por interesse estratégico” pode ser aplicada a qualquer país que possua recursos cobiçados (como o gás da Bolívia, o lítio do Chile, a água doce do Brasil ou a biodiversidade amazônica). O editorial do The New York Times que condenou o ataque como “ilegal e imprudente” alertou que ele representa a aplicação de um “imperialismo moderno” sob uma reafirmada “Doutrina Monroe”. Ou seja, é a reativação da visão colonial que trata a América Latina como “quintal” dos EUA.

Esse ataque confirma a lei histórica do capitalismo global: quando as formas de controle econômico e diplomático não são suficientes para submeter um país rico em recursos, a classe dominante imperialista não hesita em recorrer à força militar aberta. A guerra é, assim, a continuação da política econômica por outros meios – meios de extermínio e dominação. A Liga Internacional da Luta dos Povos (ILPS) denuncia que a agressão contra a Venezuela é movida pelo desejo do imperialismo estadunidense de controlar as receitas do petróleo venezuelano para seus monopolistas e capital financeiro. Trata‑se, portanto, de uma ofensiva recolonizadora que deve ser combatida pela unidade dos povos.

A defesa da soberania venezuelana é parte inseparável da luta anti‑imperialista mundial. China, Rússia, Cuba, México, Brasil e Colômbia já manifestaram solidariedade à Venezuela e condenaram o ataque. Mas é necessário ir além: exigir a imediata libertação de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, a retirada de todas as tropas e navios estadunidenses do Caribe, o fim das sanções criminosas e a reparação dos danos causados. Como conclama a ILPS, é hora de “Fora as mãos da Venezuela! Tropas dos EUA fora, agora!”.

O ataque dos EUA à Venezuela não é apenas mais um episódio de intervenção. É a expressão máxima do imperialismo em sua fase agressiva e fascistizante. Ele demonstra que, para o capital, fronteiras e soberanias são obstáculos a serem removidos pela força quando há recursos a saquear. A resposta deve ser a organização popular, a solidariedade internacionalista e a firme defesa do direito dos povos a determinar seu próprio destino. A luta pela soberania venezuelana é a luta pela soberania de toda a América Latina – e pela possibilidade de um mundo livre da exploração capitalista e da dominação imperialista.

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