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sábado, 20 julho, 2024

As origens do patriarcado ocidental, o ultraimperialismo estadunidense e a emergência do mundo multipolar

Por Luis Eustáquio Soares

A estrutura do patriarcado ocidental: a família, a propriedade privada e o Estado.

O livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, tem o mérito de identificar as partes inseparáveis da estrutura do patriarcado: a família, a propriedade privada e o Estado. Não se trata, entretanto, de uma estrutura vazia, mas uma estrutura objetiva, imbricada e implicada com uma realidade histórico-social realmente existente, assim analisada pelo parceiro de Marx: “O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direção da casa: a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução. Essa baixa condição da mulher, manifestada sobretudo entre os gregos dos tempos heroicos e, ainda mais, entre os dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocada, dissimulada e, em certos lugares, até revestida de formas de maior suavidade” ( ENGELS, 2012, p. 177).

Engels disse,  em A origem da família, da propriedade privada e do Estado,  que esse período de degradação da mulher teve como origem a Era Heroica da Grécia antiga, percorrendo   um tempo histórico de 1750 até 800 a.C. Esse verdadeiro golpe de Estado patriarcal contra o sistema de matrilinearidade – em que a descendência é sobredeterminada pela mãe, de modo matriarcal –  impôs  uma arquitetura de poder patrilinear, inseparável da relação entre a família, a propriedade privada e o Estado – igualmente patrilineares e oligárquicos.  Curiosamente, Michael Hudson, em The destiny of civilization (2012), argumentou que a Civilização Ocidental se desenvolveu, com suas sementes oligárquicas fatais (patrilinearidade), como consequência (envolvendo Roma também) de uma Idade das Trevas, originada por profundas alterações climáticas que destruíram a economia do Oriente Próximo, alcançando o Mediterrâneo, época  que durou de 1200 a 750 a.C.

O período da chamada Era Heroica dos gregos pode ser interpretado, nesse contexto, como  “era das trevas” da emergência do patriarcado ocidental, pois de seu interior, marcado por profundas adversidades, surgiram famílias autocratas que passaram a monopolizar (família + propriedade privada) grandes extensões de terra, tendo como eixo uma estrutura de dependência ( o Estado patriarcal e patrilinear) em que a classe trabalhadora também foi objeto de monopolização coercitiva – sobretudo por meio da escravidão por dívida portadora de juros.

Se se considera a interface analítica entre Engels de A origem da família, da propriedade privada e do Estado, com a sua análise sobre o surgimento do patriarcado; e os argumentos de Hudson relativos à emergência da oligarquia ocidental, monopolizadora de terra e do trabalho sobre esta, é possível assinalar que o patriarcado, em sua versão propriamente oligárquico-financeira, a pior de todas,  é uma particularidade propriamente ocidental e se define historicamente pelos seguintes pilares: 1.a constituição de uma superestrutura estatal assentada na propriedade privada da terra; 2. na servidão por dívida, tendo como referência a família monogâmica imbuída do dever de reproduzir a vida, por meio dos cuidados com os filhos; 3.por uma ordem social patrilinear, de modo que o sistema de heranças sempre fique sob o controle de uma oligarquia endinheirada – os varões.

O patriarcado ocidental: entre o Olimpo/céu e a Terra

A fase heroica da Grécia antiga foi também e antes de tudo o cenário cosmogônico e metafísico que projetou a oligarquia patriarcal do Ocidente como herdeira dos semideuses. O sistema patrilinear oligárquico a si mesmo se concebeu como semideus, intitulando-se, no processo, como aristocrata; e um aristocrata, a rigor, não passa de um oligarca descendente de um sistema de herança patrilinear, aureolado ideologicamente por uma origem supostamente divina e sobre-humana. Da mesma forma, esse é o pressuposto, que Perseu, o fundador de Tebas, descendente do próprio Zeus, possuía uma habilidade mística e mitológica para realizar façanhas incríveis, o oligarquia que se constituiu no período das trevas na Grécia heroica também a si mesma se via como exclusiva e apta para realizar façanhas indescritíveis

 Nenhum semideus, entretanto, encarnou mais o patriarca ocidental em suas origens, que Ulisses, o protagonista de Odisseia, de Homero, que superou todas as adversidades vividas após o retorno da Guerra de Troia, com maestria, dissimulação e astúcias improváveis, enganando sempre, como na cena do encontro com as sereias, em que se comportou como o seduzido inseduzível. Ulisses, esse protoburguês, segundo Adorno e Horkheimer de Dialética do esclarecimento, representou, na  epopeia de Homero,  o saber sobre, saber  manipulado para dominar tanto a natureza quanto o trabalho – e diria mais:  dominar também tanto quanto o matriarcado, razão por que cito o seguinte trecho da clássica obra dos dois teóricos da Escola de Frankfurt: “Ao conjurar imediatamente o passado recente, elas (as sereias) ameaçam com a promessa irresistível do prazer – que é a maneira como seu canto é percebido – a ordem patriarcal, que só restituí a vida de cada um em troca de sua plena medida de tempo” (ADORNO&HORKHEIMER, 1985, p.44).

Em interface com Engels, Hudson e Adorno e Horkheimer, a hipótese fundamental deste ensaio é a de que o patriarcado oligárquico-financeiro ocidental tem, na figura de Ulisses, a representação metafísica de seu herói e semideus e tal como o protagonista de Odisseia tende, por meio de astúcias, a esquecer os hediondos crimes praticados, a fim de continuar perpetrando-os indefinidamente; e de forma impune, pois, afinal, é descendente dos semideuses, esses escolhidos.

Conhecer a astúcia de Ulisses, para resistir e ao mesmo tempo fruir à sedução das sereias é, pois, fundamental para prosseguir com a argumentação.  E qual foi a astúcia de Ulisses? São duas, as astúcias: 1. Ele exige que todos os marinheiros da embarcação tapem os ouvidos com cera, para que nenhum deles venha a escutar o canto das sereias; 2. Ele solicita que os marinheiros o amarrem em um mastro, com as orelhas desimpedidas para escutar o canto delas, de tal modo a sentir o prazer sem ser arrebatado, com a embarcação lançada contra as pedras, pela sedução; sem morrer e assim ser finalmente punido pelos crimes realizados em guerra.

Ulisses sabia de antemão que a sedução do canto das sereias tem um preço: a lembrança do passado e com esta a exigência de justiça pelo incontável e indescritível sofrimento imposto aos troianos, os derrotados na Guerra de Troia. Embora tenha críticas a Adorno e Horkheimer, inclusive em relação à forma como definiram a categoria do esclarecimento, na pressuposição de que todo  conhecimento é saber sobre e contra o trabalho e a natureza (isso não é verdade), penso que a análise que fizeram de Ulisses é precisa e pode assim ser formulada: o patriarcado ocidental-financeiro usufrui o prazer do desfrute do trabalho e da natureza monopolizados, mas ao mesmo tempo são cegos, surdos e estrangeiros, isto é, absolutamente insensíveis em relação ao sofrimento que impõe, arbitrariamente,  ao trabalho e à natureza extorquidos.

É nesse contexto que a expressão “plena medida do tempo”, atribuída a Ulisses, possa, também, por extensão, ser usada para caracterizar os “heróis oligárquicos do patriarcado” ocidental. Eles têm igualmente uma plena medida do tempo: matam, estupram, saqueiam, golpeiam, sempre com muita astúcia, para, ato contínuo, após o retorno à casa, transformar em mito os crimes que realizaram porque a vida segue, isto é, é preciso continuar mantando, saqueando, golpeando, escravizando e não há que perder tempo com a conjuração das sereias, a cobrar justiças – a conjuração do matriarcado, leia-se.

Entretanto, a plena medida do tempo do patriarcado ocidental, eliminando de sua memória os crimes praticados, não vale para a conjuração matriarcal por justiça, que deve ser abolida, esquecida, trapaceada. Sua plena medida do tempo é, pois, a sua patrilinearidade exclusiva e como tal eleita para impor à força a desumanização das maiorias, sempre com muita astúcia. E falar em astúcias, estas, na história do patriarcado ocidental conheceu duas fases: 1) a profana, porque herdeira aristocraticamente dos deuses do Olimpo; 2) a monoteísta, inseparável das religiões semíticas de salvação, como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Com isso é preciso dizer que o patriarcado ocidental se apropriou tanto do judaísmo, do islamismo e do cristianismo, religiões que, em interlocução com Luiz Alberto Moniz Bandeira de A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos (2013), “mantiveram alguns dos mesmos traços (entre os quais o ascetismo místico) e crenças como a do Jardim do Éden e a do fim dos tempos, o Armagedom” (BANDEIRA, 2013, p. 420).

Nesse contexto, desde que o imperador romano Constantino I ( 306-337) se converteu ao cristianismo, tornando este uma religião do Estado patriarcal romano, a história do patriarcado ocidental adquiriu uma particularidade sui generis, a saber: incorporou ao seu universo de astúcia (além da servidão por dívida, a mistificação  aristocrática de ser semideus, como no patriarcado profano greco-romano precedente), o ascetismo místico, a crença no Jardim do Éden e o Armagedom como recursos ideológico-monoteístas para manipular os povos, com uma diferença fundamental, considerando a existência de dois patriarcados ocidentais, o europeu e o estadunidense.  O primeiro se constituiu por um sistema de patrilinearidade ideologicamente voltado ao retorno permanente ao Novo Testamento. O segundo, por sua vez, é judaico-cristão ou neopentecostal. O primeiro, o europeu, é um cristianismo que se apresentou ao mundo como o próprio Cristo (a nova versão de Ulisses); o segundo produziu um cristianismo sem Cristo, com o eterno retorno ao Antigo Testamento – o Ulisses transformado em Abraão.

São essas duas versões da história do patriarcado ocidental, a europeia e a norte-americana, que se expandiram mundialmente, usando um sistema de astúcia que remonta ao Egito antigo, à servidão por dívida e por butins de guerra greco-romanos.  A esse respeito,  em diálogo com o livro Economia e Imperio. La Expansión de Europa, 1830-1914 (1990), de David Fieldhouse, na era de emergência do capital monopólico ocidental, era da fase interimperialista do capitalismo, a superfície do planeta monopolizada pela patrilinearidade euro-ianque, que era de 35 % em 1830, passou a 67 % em 1878; e a 84,4 % em 1914, salientando a propósito: “Antes de 1830, solo habia cinco potencias coloniales importantes. En 1914 había diez, incluyendolos Estados Unidos, una excolonia convertida en potencia imperial” (FIELDHOUSE, 1990, p. 8).

Isso significa que o patriarcado oligárquico-financeiro, esse outro nome do Ocidente, a partir de 1914, ano de início da Primeira Guerra Mundial, em suas versões messiânicas tanto europeia como norte-americana,tomaram  de assalto o planeta, espalhando o seu sistema do capital imperialista patriarcal aos quatro cantos da Terra, por meio de golpes e guerras ininterruptas,  na pressuposição de que o planeta Terra seja por direito divino a sua Terra prometida, seu Jardim do Éden, definido, sempre, pela estrutura básica e recorrente do patriarcado ocidental: a família endividada, a propriedade privada monopolizada em escala mundial;  e a superestrutura do Estado imperialista, gerenciado pela oligarquia financeira.

O materialismo histórico do Ocidente como patriarcado unipolar, origem do ultraimperialismo estadunidense

Retomando o diálogo com Adorno e Horkheimer, ampliando o zoom do materialismo histórico, qual seria essa plena medida do tempo do patriarcado ocidental-financeiro, considerando a história de seus modos de produção? Em clave patrilinear, tendo em vista a estrutura de produção sócio-econômica, é a seguinte: é a do modo de produção escravista do complexo militar greco-romano, secundado por sua superestrutura de mitos e semideuses;  a das relações de produção serviçais da Idade Média, com o destaque para as Cruzadas messiânicas, à moda do Novo Testamento, contra os árabes e, portanto, plenamente tomado pelo ascetismo místico monoteísta e pelo uso do Armagedom como ideologia expansionista;  é a do sistema colonial-expansionista europeu, herdeiro do medieval,  que eliminou povos, como os indígenas nas Américas e mercantilizou a escravização de africanos, impondo o monoteísmo cristão como forma de dominação religiosa;  é o da emergência do modo de produção capitalista, marcado pelo fetichismo da mercadoria e, portanto, pelo esquecimento, em cada ato de compra e venda, do valor de uso do trabalho e da natureza, centralizado pelo messianismo monoteísta do capital; é a da particularidade que assumiu o capitalismo no final do século XIX, com o advento do imperialismo e, com este, da guerra em escala planetária, contra todos os povos do mundo; é, finalmente, a do ultraimperialismo estadunidense, o patriarcado-mor do Ocidente, com o seu padrão monoteísta ancorado no dólar como moeda de troca e de reserva mundial, a impor o pleno tempo de sua própria medida abraâmica, com seu calvinismo travestido de Destino Manifesto, com um destaque: a partir do final do padrão ouro decretado por Nixon em 1971, esse pleno tempo neopentecostal, por paradoxal que pareça, não se valeu mais  do crédito, para impor a servidão por dívida, mas de sua própria dívida sem fim monoteisticamente consagrada– essa é a sua nova astúcia, representada hoje pela seguinte situação: cada dólar, mero pedaço de papel, emitido pelo Federal Reserve, tem como lastro real uma dívida de mais de trinta trilhões de si mesmo, de notas de um dólar.

Esse milagre do novo Moisés, o ultraimperialismo estadunidense, ocorre porque o dólar se impôs como moeda de reserva e ao mesmo tempo de troca, lastreado nas incontáveis astúcias da indústria mundial de mentiras e no complexo industrial e militar do Pentágono. No que diz respeito ao primeiro aspecto, a indústria cultural do ultraimperialismo estadunidense é o que é: um cartel mundial de produção de ardis que divide o mundo em fiéis e infiés ao estilo oligárquico-monoteísta ianque de ser. Esse cartel, que teve como epicentro inicialmente Hollywood, deslocou-se, na atualidade, para o  sítio histórico-geográfico do Vale do Silício, com seus novos semideuses monoteístas, como o homem do Twitter, Elon Musk, herói da nova guerra das estrelas, com o seu Starlink, a produzir uma constelação de satélites; como Bill Gates, fundador, junto com Paul Allen, da Microsoft e profeta distópico (o Armagedom)  do grande reinício e do capitalismo digital da era das pandemias e da escravização digital, sem desprezar os demais, como os donos do Facebook/Instagram/Watsapp, da Amazon, de Apple, dentre outros, cujos nomes nem merecem ser mencionados porque são simples, como o dólar, “moedas fiduciárias lastreadas no Antigo Testamento, sob forma de close-up, do Abraão Pentágono.

Fundamentalmente o patriarcado da era do ultraimperialismo estadunidense é o que transformou a cultura em um meio de produção próprio, que produz não mais o  mais-valor no âmbito da economia real, produtiva, mas sim o mais-valor ideológico, Em diálogo com o filósofo e poeta venezuelano, Ludovico Silva, autor de A mais-valia ideológica (2013), o mais-valor ideológico é uma forma de apropriação da inteligência geral da humanidade  por meio de Tecnologias de Informação e Comunicação. Uber Technologies Inc, sob esse aspecto, é um bom exemplo, pois como empresa prestadora de serviços eletrônicos diversos, tendo o transporte urbano como referência, captura em tempo real e sem cessar as informações, em terreno, fornecidas pelo próprio usuário, conhecendo mais sobre cada esquina dos centros urbanos que os próprios governos eleitos.

A inteligência artificial, para usar uma imagem metafísica, é a alma da captura do mais-valor ideológico da inteligência geral da humanidade. Se na época heroica grega, o herói era um semideus, hoje é o amálgama (para prosseguir no mesmo campo semântico) entre patrilinearidade e máquina, com esta lançando os dardos da herança patriarcal para novos campos da ciência contemporânea, como a biotecnologia e a nanotecnologia, forças produtivo-científico-tecnológicas que o ultraimperialismo procura a todo custo dominar com o objetivo de hegemonizar o patriarcado que advém, o da era do mundo do mundo pós-humano, também designado como mundo do grande reinício, transumanista, sem deixar de estar profundamente marcado por um predestinado ascetismo místico, além da crença no Jardim do Éden ( “Não terás nada e serás feliz”, não é o que diz o profeta do FEM, Schwab), condenando os povos ao Armagedom eterno.

O patriarcado do mundo unipolar e o protomatriarcado do mundo multipolar

O que chamam de mundo unipolar nada mais é que o mundo, hoje, do ultraimperialismo estadunidense, esse patriarcado da era da inteligência artificial e do sequestro do mais-valor ideológico da humanidade, também designado como soft power, inseparável, claro, do hard power pentagonal, que existe para impor ao mundo uma economia de guerra, uma cultura de guerra, uma biopolítica de guerra, uma ciência de guerra e, assim, relações sociais de produção bélicas e monoteisticamente orientadas, razão por que “mundo unipolar” e “mundo messianicamente monoteísta, judaico-cristão, sejam expressões que dizem respeito a um mesmo campo semântico: o Destino Manifesto, ascetismo místico do dólar; e o excepcionalismo compreendido,  no caso, como um Jardim do Éden só para si, oligarquicamente exclusivo.

O patriarcado sempre tem a sua Casa Grande e as suas Senzalas. Geograficamente, constrói a sua residência imponente no alto, para vigiar e punir as Senzalas, construídas em posição  topograficamente inferior, abaixo de. Como a Casa Grande é onde mora o proprietário ( não esqueça, a propriedade privada de que falou Engels), este, o proprietário, bem entendido, é sempre infiel, embora sempre fale em nome de sua família monoteísta, a dos proprietários; e sempre exija fidelidade monogâmica e monoteísta à Senzala – claro, ainda bem, nunca respeitada, embora a infidelidade que realmente importa é a que diz respeito à insubordinação contra  o trabalho não pago da reprodução e do cuidado da vida humana, sem os quais sociedade alguma seria possível, muito menos a patriarcal.

Na época atual, a Casa Grande é a Casa Branca, proprietária da Senzala-Mundo. A superestrutura estatal que gerencia esse sistema patrilinear é o ultraimperialismo ianque. Funciona ao estilo legião, embora fale em nome de Deus: está em todos os lugares porque, diferentemente de todos os patriarcados precedentes, conseguiu, pela captura e manipulação sem fim do mais-valor ideológico da humanidade, fazer crer à Senzala que ela é bem-vinda à Casa Grande, que ela pode participar de seu Jardim do Éden.  O globalismo chama isso de empoderamento da Senzala, que continua a ser o que sempre foi, propriedade privada do Estado, da Casa Grande, e, sendo assim, nunca deixará de ser a Senzala.

É por tudo isso, mulheres da Senzala-mundo, não há saída: é preciso ser infiel ao ultraimperialismo ianque, esse patriarcado que subsumiu todos os patriarcados precedentes; e não apenas o do Ocidente, mas também o egípcio, o japonês, o chinês – todos. O amante dessa infidelidade, ainda bem, tem nome próprio: mundo multipolar, objetivamente representado por 85% da humanidade. “Se acabó el miedo!”. China, Rússia e Irã estão na vanguarda dessa palavra de ordem: “Abandona o Ocidente, esse eterno patriarcado fundamentalista e monoteisticamente fiduciário! Construa o mundo multipolar, sem Casas Grandes, sem Senzalas!”

A guerra de classes realmente existente no contemporâneo é, pois, esta, a do patriarcado unipolar ianque, com a Europa como a dona de casa fiel; e o infiel mundo multipolar. Entretanto, depois de milhares de anos de Ocidente, quero dizer, de patriarcado de servidão por dívidas, não há espaço para ingenuidades, porque o ultraimperialismo domina a indústria da calúnia, a indústria da captura do mais-valor ideológico dos povos, canalizando-os de forma religiosa, neopentecostal, com o objetivo de transformar o planeta todo em um cenário sem fim de guerra entre monoteísmos e patriarcados.

Se o pleno tempo do patriarcado ocidental é inseparável do esquecimento do matriarcado,  para continuar golpeando-o com a  imposição de relações sociais de produção ao mesmo tempo bélicas astutamente monoteístas, o patriarcado do ultraimperialismo estadunidense se distingue de seus patriarcas greco-romanos, feudal, colonial, capitalista e imperialista europeus, por transformar tudo que toca em cavalo de Troia e bandeiras falsas  fanaticamente determinadas– tudo, absolutamente tudo, pondo sempre uns e umas  contra o outros e outras, inclusive internamente; e inclusive a sua plêiade de oligarcas do mais-valor ideológico, os Musks da vida e os Bill Gates, disputando para si o Jardim do Éden, empurrando a humanidade para o Armagedom.

Como o patriarcado do sistema colonial-capitalista-imperialista europeu,( sobretudo após o Tratado de Westfália, consequência direta do caos da Guerra dos 30 Anos, 1618-1648), estruturou-se por meio de países em tese soberanos, o patriarcado do ultraimperialismo ianque, porque realmente mundial, realiza sem cessar o seu “divide et impera” administrando, como um gangster o caos entre  os países e regiões do planeta, condenado ao Armagedom. É por esse motivo, questão de vida ou de morte, que a principal luta de classes da era do patriarcado ianque não é outra senão esta: soberania nacional plena, vale dizer, econômica, política, cultural, epistemológica, tecnológica, científica, biopolítica, razão por que deve ser, a soberania, o verdadeiro lugar de fala transversal de todas e todos – e do novo matriarcado não monoteísta, pluriversal, multipolar.

É nesse sentido que o matriarcado, na era do patriarcado ianque, deva ser anti-ianque integralmente. Isso não significa que deva ser contra os estadunidenses e europeus, mas sim contra a superestrutura atual do patriarcado ocidental estadunidense, sabendo de antemão que tudo que venha de seu ventre (teorias, intelectuais, artistas, instituições, notícias…) está longe de ser um bendito fruto, como nos faz crer o seu sistema integral de publicidade.

É, pois, hora e vez do mundo multipolar. E se este se expressa, na atualidade, por meio de rostos como Putin e Xi ( os dois principais líderes da humanidade multipolar em constituição) é porque a luta de classes do matriarcado contra o patriarcado não é e nunca foi contra o patriarcado não-ocidental, mas contra o patriarcado do Ocidente, que golpeou-nos com a propriedade privada,  a família  e o Estado  das Casas Grandes – o resto é astúcia e sereias  que apenas têm autorização de ser, se o for  “em troca de sua plena medida de tempo”(ADORNO&HORKHEIMER, 1985, p.44) ocidental, na contramão dos povos multipolares.

Referências:

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Tradução: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 1985

BANDEIRA, Luiz Alberno Moniz. A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica de EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

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ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução: Leandro Konder. Rio de Janeiro: s.n., 1984.

FERREIRA, Verônica & ÁVILA, Maria Betânia & FALQUET, Jules & ABREU, Maira. Colette Cuillaumin, Paola Tabet, Nicole Claude Mathier. O patriarcado desvendado: teorías de três feministas materialistas. Recife: SOS Corpo, 2014.

FIELDHOUSE. Economia e Imperio. La Expansión de Europa (1830-1914). México: Siglo XXI, 1990

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 LENIN, Vladimir Ilytch. Imperialismo, etapa superior do capitalismo. São Paulo: Glo-bal, 1979.

LUXEMBURGO, ROSA. A acumulação do capital: estudo sobre a interpretação econômica do imperialismo.Tradução: Moniz Bandeira. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. Tradução: Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2010.

HOMERO. Odisseia. Trad. Trajano Vieira.  São Paulo: 2011.

SILVA, Ludovico. A mais-valia ideológica. Trad. Maria Ceci Araújo Mosocsky. Florianópolis: Editora Insular, 2013.

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