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quarta-feira, 1 abril 2026

As oito décadas de Emiliano José – Comunista chegou aos 80 no dia 5 de fevereiro (XII)

Emiliano José

Não sei se realizo meu desejo. 

Tentarei. 

Fazer do meu aniversário todo ano uma celebração. 

Eu me ressinto da ausência dos amigos. 

Há quem construa relações de amizade na igreja.

Eu não sei rezar, nem tenho fé: sou homem da esperança. 

Padre Renzo, sobre quem fiz biografia, dizia-me ter Deus a prática de escolher a quem ele dá o dom da fé. 

Eu disse mas que porra então ele me deixou fora.

Que seja, disse eu. 

Contei episódio sobre ele na noite de cinco de fevereiro, ao falar.

Renzo, sobre quem fiz filme também, junto com Jorge Felippi, teve uma crise de consciência profunda no decurso das visitas dele a prisioneiros políticos por todo o Brasil. 

Chegava às prisões, e só encontrava comunistas, nada de cristãos.

Estranhou, revoltou-se. 

O Cristo dele, construído por ele, era um Deus dos perseguidos, dos oprimidos, dos lazarentos, das putas, dos humilhados e ofendidos, e os cristãos de então não queriam nem saber das catacumbas, nem saber de contrariar, lutar contra a ditadura. 

Os comunistas estavam lá, a postos, lado a lado com os oprimidos.

Um contrassenso, na visão dele. 

Afronta ao cristianismo. 

Foi atrás de teólogos consagrados, no Brasil e no exterior. 

Ao final desse périplo, recebeu um ensinamento de um deles, pra nunca mais ser esquecido: a esperança é maior do que a fé. 

Essa historinha me animou. 

Eu não estava errado em dar à esperança o principal motivo de viver. 

Quem souber rezar, reze. 

Oração deve ajudar aos que têm fé. 

Quem não a cultiva, como eu, fica apenas com a esperança, e não é apenas, isso é tudo, é muito. 

Sem esperança, sem cultivar sonhos, não há vida. 

Isso me leva a pensar no sonho de reunir amigos todo ano.

Como fiz no cinco de fevereiro deste ano, ao completar 80 anos. 

Um encontro a massagear o coração.

A dar-me ânimo. 

Coragem para seguir a caminhada, continuar a perseguir os sonhos, consciente da idade, das maravilhas dela e das limitações evidentes, certo de ser a maturidade um momento rico do viver.

Vamos ver se consigo manter essa celebração, esse encontro anual. 

Preciso da solidariedade, do entusiasmo de amigas e amigos.

Insisto: não se trata de comemorar meu aniversário, mas de reunir a multidão-amizade. 

Essa multidão, a gente vai reunindo vida afora, e vai descuidando dela. 

Nesse reencontro de 5 de fevereiro deste ano, muita gente exclamava a alegria de rever pessoas cujo último encontro havia acontecido havia décadas. 

A promoção anual, assim, seria voltada ao reencontro, uma celebração, como tenho chamado. 

Para mim, especialmente, porque não sou religioso, e que, na trilha do que pensara Aristóteles, defendida por Marilena Chauí, a amizade, se verdadeira, é o momento de o ser humano viver a experiência do divino. 

No ano passado, reencontrei amizade antiga. Amadurecida, mas já havia tempo sem nos vermos. Última vez, aconteceu em 2015, quando ela, Maria Prado e Celinha, se casaram, numa cerimônia linda, assistida por Carla, ainda cheia de vida, e por minha mãe, ainda aqui entre nós. Momento comovente. 

Temos conversado bastante. Tive a ousadia de pedir a ela fosse minha tutora de artes, e ela gostou da ideia. Tenho ido a teatro com ela e Celinha, sempre sob indicações feitas por ela. É produtora cultural, é poetisa, dirige uma editora, diabo a quatro. 

Ela e Celinha, presentes na celebração da amizade. 

Não apenas presença. 

Maria Prado, a mestre de cerimônias, a meu pedido. O roteiro da celebração, todo dela. A conversa com os cantores, cantoras, ela, cheia de habilidade, cortesia e experiência. 

Essa celebração foi a consolidação de um reencontro eterno, o momento em que toco o divino. Obrigado, Maria, e além de tudo, Maria.

Dá vontade de cantar:

Maria, Maria, é um dom, uma certa magia

Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece viver e amar

Como outra qualquer do planeta…

Obrigado, Maria. 

#emiliano20268052

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