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terça-feira, 21 abril 2026

As mulheres em El Salvador ainda têm um longo caminho a percorrer em termos de direitos

San Salvador (Prensa Latina) As mulheres em El Salvador ainda têm um longo caminho a percorrer para alcançar a igualdade com os homens em um cenário onde essa palavra ainda não é aplicada na prática, embora apareça declarada em leis e regulamentações diversas

Por Luis Beaton

Correspondente chefe em El Salvador

Nesse esforço, a Resistência Feminista-FDIM lançou um chamado para “marcharmos juntas” no dia 8 de março contra o neofascismo e as novas opressões às quais as mulheres são submetidas.

As mulheres salvadorenhas confirmarão assim a validade do seu Dia Mundial quando se dirigirem ao parque central de Cuscatlán, nesta capital, para expressar reivindicações tradicionais de uma sociedade que, apesar de alguns avanços, ainda nega direitos como o direito de decidir sobre seus corpos, a gravidez e o aborto.

Em 1997, o Código Penal de El Salvador foi reformado para estabelecer a proibição absoluta do aborto, que ainda é considerado pecado capital e classificado como homicídio, segundo o Ministro da Justiça e Segurança, Gustavo Villatoro.

Essa situação é complexa em um país onde as mulheres, segundo dados do Censo 2024, representam 52,8% do total de seis milhões 29 mil 976 habitantes, e no qual a maioria dos políticos vira as costas ao tema, seja por medo, ignorância ou conveniência política.

Se ela interromper a gravidez, mesmo que de forma natural e não intencional, ela estará sujeita a perseguição e muitas vezes será condenada à prisão por muitos anos. O ministro Villatoro chega a criticar quem promove a legalização do aborto, fato que ele chama de homicídio.

A interrupção é supostamente contra a natureza, ele disse, e perguntou: “Qual poderia ser o assassinato mais vil e covarde que pode ser cometido no mundo? Você consegue imaginar tirar a vida de um ser humano que está com 24, 26 semanas de gravidez? “É claro que é um homicídio”, disse ele.

No entanto, vale a pena perguntar às mulheres de baixa renda, que às vezes são estupradas e grávidas, como elas veem essa situação.

O Código Penal salvadorenho estabelece, no artigo 133, que o aborto é punível com pena de prisão de dois a oito anos, e até 12 anos se agravado, o que mostra que as mulheres aqui enfrentam uma situação de “criminalização”, segundo denúncias da Assembleia Feminista, do Grupo Cidadão pela Descriminalização do Aborto e do Coletivo Feminista.

Nesta ocasião de protestos e reivindicações, não faltarão as lembranças de “Manuela”, uma jovem da zona rural de Morazán, que sofreu uma emergência obstétrica e um parto extra-hospitalar em 2008, pelo qual foi condenada a 30 anos de prisão por homicídio qualificado.

Enquanto estava na prisão, ela foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin esclerosante nodular e recebeu prescrição de quimioterapia, mas seus representantes disseram que ela foi negada em um momento. Ele morreu em 30 de abril de 2010, na ala prisional do Hospital Rosales, em San Salvador, segundo ativistas.

Não é incomum que durante a “marcha unida”, mulheres denunciem que o Estado salvadorenho descumpre e viola tratados internacionais, não oferece alternativas às mulheres que enfrentam complicações obstétricas e que têm partos extra-hospitalares, disse uma ativista.

Segundo Morena Herrera, presidente do Grupo Cidadão pela Descriminalização do Aborto, quando o Estado salvadorenho trata emergências obstétricas com as ferramentas do Regime de Exceção, comete dupla discriminação e violação de direitos.

“O Estado criminaliza as mulheres pobres, tratando-as como criminosas que ameaçam a segurança da sociedade, e não é isso que acontece”, disse ela.

Em relação a essas leis e políticas, em um país marcadamente religioso, ativistas como Ivonne Polanco, do Grupo Cidadão pela Descriminalização do Aborto, expressam sua preocupação com o grave impacto que essa regulamentação contra a interrupção da gravidez tem na vida e na saúde das mulheres.

Esta é apenas uma parte do problema, que, embora complexo, não impede que outros aspectos sejam considerados por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Por exemplo, El Salvador tem uma das maiores disparidades de participação laboral da América Latina, algo que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reflete em um relatório segundo o qual pouco mais da metade das mulheres participam do mercado de trabalho, enquanto oito em cada 10 homens estão na mesma situação.

O documento afirma que o chamado Polegar das Américas tem a terceira maior desigualdade se considerarmos que 50,5% das mulheres participavam da vida profissional em 2023, um número menor do que os 81,5% dos homens.

Essa diferença era de cerca de 31 pontos percentuais em 2023, parcela superada apenas por Honduras e Guatemala.

“No México e em alguns países da América Central, como Guatemala, Honduras e El Salvador, essa diferença ultrapassa 30 pontos percentuais”, diz o estudo da OIT.

Os números são alarmantes se considerarmos que nos últimos anos as mulheres da região têm progredido no campo educacional, após apresentarem maiores taxas de conclusão do ensino médio e superior, ao mesmo tempo em que agregam mais alunos ao ensino superior.

A organização internacional chama a atenção para as lacunas na qualidade do emprego e no “tipo de inserção laboral” das mulheres em comparação com os seus homólogos masculinos, porque as trabalhadoras em todo o continente têm maiores dificuldades em encontrar emprego, estando “sobrerepresentadas” no trabalho a tempo parcial.

As diferenças entre homens e mulheres também são evidentes nos salários que recebem, já que, em média, na América Latina, os homens ganham 11% a mais que as mulheres, algo que não exclui os salvadorenhos.

Esses são apenas alguns exemplos da situação adversa que eles enfrentam em um país onde são mal representados na política, na esfera legislativa e em importantes espaços decisórios.

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