José Ribamar Bessa Freire
Com Darcy Ribeiro, Paulo Freire foi, no exílio, o grande inspirador da Reforma Educativa Peruana de 1972. A lei reconheceu, em seu artigo primeiro, que a educação acontece também fora da sala de aula, dependendo da natureza da atividade. A gente aprende em todo momento e em qualquer lugar. Contraria assim a visão cartorial de que só adquire o saber quem frequenta escola e tem diploma. No Brasil, muita gente foi “educada na roda de bamba e diplomada na escola de samba”, com Aracy de Almeida cantando “O X do problema”, composto para ela, em 1936, por Noel Rosa.
A ideia era essa mesma: os escravizados não lutaram, não foram agentes da história, a coisa surgiu assim, de repente, da canetada de ouro de uma princesa – não existia ainda a Bic. O objetivo era claro: se as massas foram, no passado, meros figurantes, se a abolição foi obra de uma princesa, cujas “mãos foram beijadas pelo jornalista negro”, não adianta lutar hoje. Fica na tua, quieto e calado à espera do messias salvador.
Com muita cadência: é desse jeito que as escolas de samba alfabetizam. No entanto, o MEC propõe agora que na sala de aula o professor realize exercícios de leitura em voz alta para avaliar a fluência do letramento do aluno, desconsiderando que é possível ler assim, sem entender o sentido do que foi lido. O que, com todo o respeito, parece ser o caso do ministro Weintraub. Já a cadência de sentidos presente no samba-enredo, com o registro da memória e dos processos históricos, cria foliões letrados capazes de ler o livro Brasil e de salvaguardar o patrimônio e a identidade nacional.