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À Sputnik Brasil, especialistas explicam como a falta de mediadores como Brasil ou México e a presença dos EUA para intermediar a disputa entre Colômbia e Equador podem agravar um problema regional.
Um bombardeio na divisa entre Equador e Colômbia desencadeou uma nova crise diplomática entre os dois países e relembrou tensões passadas na América do Sul. No dia 16 de março, o presidente colombiano, Gustavo Petro, acusou o governo equatoriano de realizar um ataque aéreo a seu território. No local, após explosões, foram descobertos 27 corpos carbonizados.
O incidente, ainda sob investigação, motivou um pedido de mediação internacional, incluindo um apelo direto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Nós não queremos guerra”, declarou Petro ao comentar o episódio.
Do lado equatoriano, o presidente Daniel Noboa negou qualquer incursão em território colombiano e afirmou que as operações militares em curso têm como alvo exclusivo grupos armados ligados ao narcotráfico dentro das fronteiras do próprio Equador.
Quito reconhece a realização de bombardeios, mas sustenta que ocorrem contra acampamentos de organizações criminosas — muitas delas, segundo o governo, formadas por dissidentes colombianos que atravessam a fronteira.
A divergência de versões, somada à presença de um artefato explosivo não detonado encontrado em solo colombiano — identificado como de origem do Equador —, intensifica a desconfiança entre os dois países.
O episódio se insere em um contexto de deterioração das relações bilaterais desde o início de 2026. Em fevereiro, o Equador impôs tarifas sobre produtos colombianos, acusando Bogotá de falhar no combate ao narcotráfico transfronteiriço. Em resposta, a Colômbia sinalizou possíveis medidas retaliatórias, aprofundando uma disputa que já combina segurança, economia e política externa.
Paralelamente, o governo Noboa tem adotado uma estratégia mais agressiva no enfrentamento ao crime organizado, por meio do chamado Plano Fênix, que autoriza o uso ampliado das Forças Armadas e classifica facções criminosas como “alvos militares”.
A crise ganha contornos ainda mais complexos ao envolver interesses externos e uma crescente militarização da política de segurança na região. Operações conjuntas ou alinhamentos estratégicos com Washington, especialmente no combate ao narcotráfico, adicionam uma dimensão geopolítica ao conflito, ao mesmo tempo que levantam questionamentos sobre soberania, proporcionalidade do uso da força e riscos de transbordamento do conflito para além das áreas de fronteira.
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, analisa se as tensões entre Colômbia e Equador podem estar sendo infladas por Washington, especialmente em ano eleitoral colombiano.
Adriano Cerqueira, professor de relações internacionais do Ibmec Belo Horizonte, afirmou ao programa que a “agressiva” política externa norte-americana é caracterizada como interferência na política doméstica de nações sul-americanas para barrar interesses de outras potências, como Rússia e China.
Sob essa ótica, está o aumento da presença de Washington na região — seja em operações diretas contra o narcotráfico ou apoiando governos aliados a interesses estadunidenses. Contudo, na visão de Cerqueira, no caso do Equador, a estratégia pode prejudicar o país e sua população.
Isso porque o pequeno país tem uma “posição muito estratégica” para a rota do narcotráfico internacional, estando próximo de grandes centros produtores de cocaína, como a Colômbia e o Peru, e, com seus portos apontados para a Ásia, servindo de “exportador logístico”.
“O Equador, hoje, é uma rota desse tráfico internacional, e isso só tende a agravar esse embate de uma política bem militarizada de combate.”
Ou seja, um dos efeitos colaterais do crescimento da militarização é o aumento da letalidade estatal, assim como o aumento de casos de violência no Equador. Outro é que pode espalhar para fora do país, assim como visto no caso da fronteira entre Colômbia e Equador.
O professor, contudo, não acredita que haja uma “guerra de fronteira” entre os dois países. “A própria chamada do Gustavo Petro dos Estados Unidos é um indicativo de que eles não estão querendo escalar para uma situação de conflito armado aberto assim.”
No entanto, para Renata Alvares Gaspar, diretora acadêmica da Escola de Altos Estudos em Direito e Relações Internacionais (Edrin), a presença dos Estados Unidos para mediar a crise pode não aliviar, mas aprofundar a tensão entre Bogotá e Quito.
Na opinião da especialista, a decisão de recorrer à Casa Branca reflete menos uma estratégia calculada e mais a fragilidade estrutural dos países envolvidos. “A gente, a partir de uma racionalidade distante, não entende como isso acontece, mas são países com estrutura muito frágil; mais o Equador do que a Colômbia”, explica Gaspar.
Nesse contexto, embora os Estados Unidos historicamente atuem como potência central nas relações internacionais — especialmente no combate ao narcotráfico sob o manto da cooperação —, a presença norte-americana não é necessariamente neutra. Ao contrário, pode gerar novos desequilíbrios.
“Eu diria que eles estão alimentando um monstro que pode comê-los, os dois.”
Segundo ela, o problema se agrava em um cenário internacional marcado por incertezas e rápidas mudanças, no qual países já pressionados pelo narcotráfico também se tornam vulneráveis à influência de grandes potências.
“Esses países tão frágeis na mão do narcotráfico também são países frágeis na mão de potências como os EUA.”
Renata Gaspar avalia ainda que, apesar dos riscos, as opções regionais são limitadas. Potências latino-americanas como Brasil e México enfrentam seus próprios desafios internos e têm menor capacidade de atuação coordenada no cenário externo. “Eles ficam também sem ter para onde correr”, resume.
Assim, embora considere a escolha “muito temerária”, a especialista ressalta que decorre de um contexto de vulnerabilidade e da ausência de alternativas viáveis no âmbito do Sul Global.
No caso do Brasil, a diretora ressalta que o país ainda mantém uma vocação histórica de liderança regional, mas enfrenta limitações diante de múltiplas pressões simultâneas que complicam o cenário estratégico. É o caso da pressão norte-americana para classificar facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e a proximidade dos Estados Unidos com governos vizinhos, como o Paraguai e a Argentina.
Segundo ela, não se trata exatamente de perda de protagonismo, mas de um momento de sobrecarga.





