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Postado em 19/10/2021 11:25

Alex Saab, diplomata venezuelano, foi preso e extraditado aos EUA sem amparo legal

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Venezuelanos realizaram ato simbólico no centro de Caracas, no domingo (17), para exigir a liberdade de Alex Saab – Federico Parra / AFP
Governo venezuelano denuncia perseguição de personagem chave para driblar o bloqueio econômico aplicado pelos EUA
Michele de Mello
Brasil de Fato | Caracas (Venezuela) |

No último fim de semana, o nome de Alex Saab ocupou manchetes de jornais em todo o mundo após ser confirmada sua extradição de Cabo Verde aos Estados Unidos.

A extradição acarretou na suspensão da participação da delegação do governo da Venezuela no próximo encontro da mesa de diálogo com a oposição, já que Saab, mesmo preso no país africano desde julho de 2020, havia sido nomeado como um dos representantes nas negociações.

Alex Saab é um empresário de 49 anos, nascido em Barranquilla, Colômbia, com dupla nacionalidade, sendo reconhecido como diplomata venezuelano durante a gestão de Nicolás Maduro. De origem libanesa, Saab seria o proprietário das empresas Asasi Food, Mulberry Proje Yatirim e Group Grand Limited. A partir de 2009 começou a fazer negócios com o governo venezuelano oferecendo materiais de construção para as obras da Grande Missão Vivenda – maior projeto habitacional do país.

Já em 2016, após a aplicação do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra a Venezuela, tornou-se chave para a importação de alimentos dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), programa social criado pelo governo venezuelano para combater o desabastecimento e especulação de preços com os alimentos.

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A partir daí Saab, passou a ter o cargo de enviado especial da Venezuela para os países da África, tendo como função estabelecer contratos de importação de todo tipo de produtos e negociar pagamento a fornecedores, buscando driblar as limitações impostas pelo embargo.

Em 2019, Saab foi sancionado pelos EUA por supostamente emitir contratos superfaturados para a Grande Missão Vivenda e o CLAP.

Em junho de 2020, Alex Saab foi detido quando viajava para o Irã, a fim de negociar ouro em troca de combustível para a Venezuela. Numa escala para abastecer a aeronave na ilha de Cabo Verde, o empresário foi detido acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

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A extradição de Saab está atualmente no Tribunal de Apelações do 11 º Circuito dos EUA, que deveria sentenciar se a Casa Branca tem causa própria para efetuar a ação.

A decisão foi adiada por três vezes e, no entanto, mesmo antes de ter uma sentença definida, os Estados Unidos efetuaram a extradição com um avião da Força Aérea Nacional no último sábado (16).  Nesta segunda-feira (18), Saab participou por vídeo conferência numa audiência judicial em Miami, na qual foram apresentadas as acusações de lavagem de dinheiro no valor de US$ 350 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão), e corrupção. A próxima audiência foi agendada para 1º de novembro quando Saab poderá exigir liberdade provisória.


Camila Fabri Saab leu uma carta de Alex Saab durante ato pela sua liberdade em Caracas, no último domingo (17) / Alex Saab News

Prisão ou sequestro?

O governo venezuelano acusa Cabo Verde e os Estados Unidos de sequestrarem Alex Saab, considerando que sua detenção aconteceu antes de haver qualquer alerta vermelho emitido pela Interpol.

Em cima disso, em março deste ano, o Tribunal de Justiça da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) determinou que Saab deveria ser posto em liberdade.

Já em junho de 2021, o Comitê de Direitos das Nações Unidas também havia exigido a suspensão da extradição de Saab e as garantias de atenção médica, já que o diplomata sofre de câncer.

No final de setembro foi a vez da Ordem dos Advogados da África emitir uma declaração exigindo a “liberdade imediata e incondicional” de Alex Saab.

Em 2020, foi criado um Comitê Internacional pela liberdade de Alex Saab. Os familiares denunciam que o diplomata foi privado do devido processo judicial e vítima de tortura durante a prisão em Cabo Verde.

“Queriam obrigá-lo a mentir e convertê-lo num monstro para acusar a Venezuela, coisa que Alex Saab nunca aceitou”, declarou o presidente Nicolás Maduro após saber da extradição.

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“Não tenho nada a colaborar com os Estados Unidos e não cometi nenhum crime. Não nos deixemos ser derrotados ”, afirmou Alex Saab em carta lida por Camila Fabri Saab durante ato realizado em Caracas no último domingo (17).

Apoio interessado

Em setembro de 2020, a embaixada dos EUA em Cabo Verde publicou um comunicado afirmando que “o governo dos EUA iria investir U$ 1,5 milhões (cerca de R$ 8 milhões) no país para apoiar os esforços do país para mitigar a crise econômica causada pela pandemia covid-19”.

Já em junho deste ano, a embaixada anunciou um plano para construir uma nova embaixada dos EUA adjacente ao palácio do governo, numa obra avaliada em US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões).

“Está claro que os EUA estão interessados ​​no Saab não por causa de quaisquer supostos crimes, mas porque ele pode ser a chave para a capacidade da Venezuela de driblar as sanções unilaterais ilegais e mortais de Washington”, defende o advogado estadunidense especialista em direitos humanos Dan Kovalik.

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