No dia 1º de dezembro de 2005, às 6:00 da manhã, Ailton Krenak dava milho às galinhas, lá na Serra do Cipó, quando soou o telefone. Era o Secretário de Estado do Governo de Minas Gerais, Danilo de Castro, que anos depois – adivinhem o porquê – teve R$ 5,6 milhões em bens bloqueados pela Justiça Federal. Com voz autoritária de deputado federal licenciado (PSDB, vixe vixe), ele indaga:
Efetivamente, mais de 200 índios Krenak, apoiados por 80 Tupinikim e Guarani do Espírito Santo arrancaram os trilhos e bloquearam a ferrovia da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) que, construída em 1916, passava dentro da Terra Krenak, no município de Resplendor (MG). O resultado foi o desmatamento, a poluição sonora, a contaminação do doce rio Watu, a redução da pesca, doenças, sofrimento e mortes.
Veio o terceiro telefonema minutos depois. O chato do Danilo rugiu desesperado diante da condição imposta:
Outras autoridades menores que tentaram negociar um acordo foram presos pelos Krenak para forçar a vinda de Agnelli e Aécio. Foi o maior bafafá. Enquanto isso, a cada 10 minutos o Plantão da Globo repetia as imagens da fila crescente de vagões paralisados. A cada 5 minutos, o exaltado Danilo pressionava Ailton com sucessivos telefonemas. Foram 58 chamadas no espaço de quatro horas – segundo Ailton, mas sua mulher, boa observadora, contou 63. Na última, um Danilo enfurecido, que era o governador de fato de Minas Gerais, pois Aécio vivia saltitando no Leblon, berra desesperado para júbilo de Ailton:
Felizmente Danilo, que só sabia ler ao pé-da-letra, consultara o arcebispo de Mariana, dom Luciano Mendes de Almeida, ex-presidente da CNBB, que anteriormente já havia defendido os índios, com veemência, na campanha sórdida do Estadão em defesa das empresas mineradoras. O bispo, antigo aliado, apesar de adoentado – morreria meses depois – topou intermediar o conflito. Foi lá. Atravessou o cordão policial, capengando, devido à recente acidente de carro que o deixou com a perna avariada.
P.S. Ailton Krenak, doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor lá em cursos de especialização, me contou essa história três vezes, cada vez por insistência minha. A primeira em Olinda, em 2010, na presença do antropólogo Carlos Alberto Ricardo do ISA e do cineasta Vincent Carelli do Vídeo nas Aldeias. A segunda, no Rio, em 2015, durante seminário internacional promovido pela Unesco e o Ministério da Cultura, diante do escritor e diplomata Gustavo Pacheco. A terceira em Brasília, em 2017, em evento no Memorial dos Povos Indígenas na companhia de Álvaro Tukano e de José Carlos Levinho, então diretor do Museu do Índio. Taí os cinco e o próprio Ailton que não me deixam mentir. Ou deixam? O referido é verdade e eu dou fé.