20.5 C
Brasília
sexta-feira, 5 dezembro, 2025

África em Ebulição: A nova onda de levantes populares e o horizonte revolucionário do século XXI

Foto: Capitão Ibrahim Traoré

Wagner França 

A África vive hoje um momento de intensa convulsão política, marcado pela ascensão de movimentos populares que desafiam, de forma direta, as estruturas de poder que sustentam o neocolonialismo contemporâneo. Esta explosão de rebeliões não surge de eventos isolados, mas da própria dinâmica da luta de classes em um continente inserido na periferia do capitalismo global. Do Sahel às metrópoles conectadas digitalmente, emerge uma pluralidade de sujeitos políticos que evidenciam a crise estrutural do modelo pós-libertação e desenham novos caminhos para a emancipação africana.

A base material dessa nova etapa histórica está na erosão da legitimidade dos antigos movimentos de libertação que, uma vez convertidos em partidos governistas, passaram a reproduzir mecanismos de dominação imperialista. Em Moçambique, as eleições de 2024 expuseram um sistema político corroído por fraudes e repressão, enquanto na África do Sul o Congresso Nacional Africano (CNA) perdeu, pela primeira vez desde 1994, sua hegemonia parlamentar, forçando alianças com setores neoliberais. Esses sinais não representam apenas crises eleitorais: expressam o desgaste do projeto nacional-burguês que, ao invés de romper com a dependência, a aprofundou.

Esse colapso coincide com uma reordenação internacional marcada pela agressividade dos Estados Unidos sob o retorno de Donald Trump, pela retração do investimento chinês e pelo fortalecimento do eixo sul-sul através do BRICS, agora com participação ampliada de países africanos como Egito, Etiópia e África do Sul. A disputa geopolítica abre brechas, mas também revela a vulnerabilidade de governos que, por décadas, dependeram de capitais externos para sustentar suas economias.

Nesse cenário, insurge uma constelação de movimentos populares com forte caráter anti-imperialista, ainda que diversos em forma e composição. No Sahel, o governo revolucionário de Burkina Faso, liderado pelo capitão Ibrahim Traoré, inspira-se no legado socialista de Thomas Sankara e implementa medidas como a nacionalização de recursos estratégicos, a ruptura com a dominação francesa e programas de autossuficiência alimentar. Sua legitimidade popular se manifesta em mobilizações massivas, mutirões de infraestrutura e fundos comunitários que acumulam milhões de reais para financiar a defesa e a reconstrução nacional — um fenômeno inédito em décadas de dependência assistencialista.

Paralelamente, nas cidades do norte e do leste africano florescem movimentos juvenis cuja força reside na organização em rede. No Marrocos, Madagáscar e Quênia, a chamada “insurreição digital” da Geração Z converte plataformas como TikTok, Instagram e Discord em instrumentos de luta política. Em Marrocos, a morte de oito mulheres durante o parto em um hospital de Agadir desencadeou protestos massivos liderados pelo movimento “Geração Z 212”, cujo discurso denuncia a degradação dos serviços públicos e o saque neoliberal que esvazia hospitais enquanto privilegia megaeventos e infraestrutura para elites.

O continente também presencia a retomada do pan-africanismo revolucionário em sua dimensão mais combativa. O Dia de Libertação Africana de 2025 foi marcado por manifestações significativas, incluindo atos no Níger organizados pelo Centro Thomas Sankara. Declarações de organizações transnacionais, como a rede Pan-Africanism Today, reafirmam o chamado pela retirada imediata das forças imperialistas, pelo fim dos mecanismos de dívida e pela consolidação de um internacionalismo proletário que articula solidariedades com as causas palestina, saaraui e cubana.

Esses levantes revelam não apenas a falência de governos corruptos ou ineptos, mas a crise profunda do capitalismo dependente que organiza a vida econômica africana. As massas se levantam contra as burguesias compradoras que administram a dominação imperialista e contra a hegemonia eurocêntrica que perpetua o epistemicídio dos saberes e práticas africanas. A revolução em curso possui múltiplas expressões: a construção estatal soberana no Sahel, a auto-organização digital da juventude precarizada, a rearticulação ideológica do pan-africanismo e o renascimento de formas comunitárias de resistência.

A grande questão histórica que se impõe é se estas forças diversas conseguirão convergir em um projeto hegemônico capaz de superar tanto a exploração imperialista quanto os limites dos Estados pós-libertação. Como ensinou Clóvis Moura, o racismo é uma tecnologia de dominação de classe que incide particularmente sobre corpos negros — e, portanto, a libertação africana exige não apenas soberania econômica, mas a descolonização radical do poder, do saber e do ser.

Os levantes que hoje incendiam o continente africano são o sinal mais vívido de uma nova etapa da luta de classes. Eles apontam para a possibilidade concreta de que, quando o povo se levanta, o imperialismo treme

ÚLTIMAS NOTÍCIAS