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segunda-feira, 12 janeiro, 2026

A soberania em jogo: o recuo de Trump e a chance histórica do Brasil sob Lula

Foto: John Bazemore/Copyright 2024 The AP. All rights reserved.

Por Wagner França

Em meio ao tabuleiro geopolítico internacional, onde potências globais impõem suas vontades por meio de sanções, taxas e chantagens econômicas, o recente episódio envolvendo o presidente norte-americano Donald Trump e o Brasil expõe, com nitidez, as contradições do imperialismo contemporâneo — e também as possibilidades de resistência mesmo sob governos de centro-esquerda com limitações objetivas, como é o caso da gestão Lula III.

Trump, símbolo da extrema direita nacionalista dos EUA, anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — uma das maiores taxas impostas a um país como forma de retaliação econômica e pressão política. A medida, em si, não se trata apenas de uma decisão comercial, mas de uma tentativa de reafirmação da hegemonia estadunidense diante de um país do sul global que, nas últimas décadas, tem buscado construir alternativas multilaterais (como o fortalecimento dos BRICS) e proteger sua própria cadeia de valor.

No entanto, o que parecia uma escalada inevitável se transformou em recuo. Trump voltou atrás. E o motivo disso não foi a benevolência diplomática, mas sim uma resposta realista aos impactos que essa tarifa causaria à própria burguesia estadunidense — especialmente a setores empresariais que dependem do comércio bilateral com o Brasil. A taxação, na prática, penalizaria empresas norte-americanas que importam matérias-primas, produtos agrícolas e componentes industriais brasileiros a custos estratégicos. A tática agressiva do trumpismo colidiu com os interesses objetivos de sua própria classe dominante.

Nesse cenário, o governo brasileiro, sob a liderança de Lula, soube agir com a maturidade que o momento exigia. Mesmo com todas as amarras impostas por um Congresso de maioria conservadora e por uma mídia alinhada ao rentismo, a administração federal garantiu a defesa da soberania nacional. Não se tratou de uma reação radical — e nem seria possível dentro dos limites institucionais do lulismo atual —, mas de uma resistência diplomática articulada, que deixou clara a disposição do Brasil de não se curvar diante de imposições externas que fragilizem sua economia.

O recuo dos Estados Unidos é, portanto, um sintoma. Um sintoma de que o mundo multipolar está em gestação — ainda que de forma lenta, contraditória e cheia de retrocessos. É também uma lição sobre como a luta pela soberania nacional deve estar no centro de qualquer projeto popular: não como retórica vazia ou nacionalismo chauvinista, mas como instrumento de enfrentamento concreto às estruturas que mantêm os países do sul global em posição de subordinação.

É nesse ponto que a esquerda brasileira precisa agir com inteligência estratégica. O momento abre uma janela histórica para que o Brasil coloque em pauta temas essenciais nas relações bilaterais: acesso a tecnologias limpas, proteção da Amazônia sem submissão a fundos controlados por potências, transferência de conhecimento em áreas sensíveis como defesa e infraestrutura, e um novo pacto comercial baseado na justiça social e ambiental — não na imposição unilateral do capital internacional.

A história mostra que cada fissura no império pode ser uma oportunidade para o avanço das forças populares. Mas para que isso ocorra, é necessário mais do que governabilidade: é preciso ousadia política, organização popular e um horizonte claro de transformação. A lição deixada por esse episódio é clara: mesmo em um mundo desigual, resistir é possível. E mais do que isso — resistir pode gerar vitórias concretas.

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