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sábado, 21 fevereiro 2026

A Resistência de uma ilha sob o assédio imperialista

Foto: Adalberto Roque/AFP

Por: Wagner França

No início de 2026, Cuba se vê encurralada pela mais severa crise energética de suas últimas décadas. Esta não é uma conjuntura de escassez comum, mas o ponto culminante de uma estratégia calculada de asfixia económica, onde o petróleo foi transformado na arma predileta de um cerco imperialista renovado. A administração norte-americana de Donald Trump, numa radicalização extrema da política de “máxima pressão”, orquestra um estrangulamento sem precedentes dos combustíveis que mantêm a ilha em funcionamento. Diante deste ataque, a postura revolucionária de Havana se reafirma na resistência e na busca por soberania, enquanto o mundo testemunha mais um capítulo da longa guerra económica destinada a subjugar um povo que se nega a capitular.

A dimensão desta crise só pode ser compreendida à luz do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos há mais de sessenta anos. Este mecanismo, muito além de um simples embargo, é um instrumento de guerra que custou a Cuba bilhões de dólares e que encontrou no petróleo seu calcanhar de Aquiles. A ilha produz apenas cerca de 40% do que consome, dependendo historicamente de parceiros como Venezuela, México e Rússia. O cerco atual ganhou contornos dramáticos em janeiro de 2026, quando uma operação militar dos EUA na Venezuela resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e na interrupção total do envio de petróleo venezuelano. Pouco depois, uma ordem executiva de Trump ameaçou com tarifas punitivas qualquer nação que fornecesse combustível a Cuba, pressionando o México a suspender seus envios e isolando a ilha de forma quase absoluta. O objetivo declarado por membros da administração norte-americana é derrubar o regime cubano, usando o controle dos fluxos energéticos globais como uma alavanca de chantagem geopolítica.

O impacto na vida cotidiana dos cubanos é catastrófico e palpável, evocando os fantasmas do austero “Período Especial” dos anos 1990. O transporte público está paralisado em várias rotas, deixando cidadãos abandonados em pontos de ônibus por horas a fio. Apagões prolongados, que chegam a durar de dez a quinze horas diárias mesmo na capital, mergulham hospitais, escolas e lares na escuridão e no calor. Nos poucos postos de combustível que operam, filas de mais de vinte e sete horas tornaram-se uma cena dantesca, enquanto o governo anuncia um racionamento severo. A economia definha: companhias aéreas internacionais cancelam voos por falta de querosene de aviação, hotéis fecham e transferem turistas, e a produção agrícola e industrial enfrenta paralisias sucessivas. O salário médio do cubano, inferior a vinte dólares mensais, torna qualquer solução no mercado informal uma miragem para a maioria. As reservas nacionais de petróleo são contadas em poucas semanas, colocando o país à beira de uma paralisia total.

Diante desta avalanche, a resposta cubana se articula em duas frentes principais: a mobilização interna pela resiliência e a diplomacia firme. Inicialmente, o presidente Miguel Díaz-Canel convocou o povo a uma postura de resistência, falando em preparar-se para uma “guerra de toda a nação”. Foi implementado um plano de contingência que prioriza com rigor os serviços essenciais, como saúde e produção de alimentos, demandando da população um nível heroico de sacrifício e criatividade. Após o agravamento extremo dos apagões, no entanto, a postura evoluiu para uma abertura ao diálogo estratégico. Díaz-Canel declarou que Cuba está pronta para conversar com Washington “sobre todos os temas, sem pré-condições”, reafirmando, contudo, a intransigência em questões de soberania nacional. Esta é a essência da postura revolucionária: flexibilidade tática para aliviar o sofrimento do povo, mas firmeza absoluta nos princípios de autodeterminação e dignidade.

A ofensiva da administração Trump, arquitetada em grande parte por figuras como o secretário de Estado Marco Rubio, representa um imperialismo do século XXI que não se envergonha de sua face cruel. Sua política vai além de sancionar o inimigo direto; estende sua coerção a terceiros países, ameaçando nações soberanas com retaliações comerciais se ousarem desafiá-la. Trata-se de um bloqueio extraterritorial explícito, uma violação flagrante do direito internacional que transforma o comércio global num campo de batalha. Trump explicitou a tática: apertar o estrangulamento até à asfixia, oferecendo depois a opção de “fazer um acordo antes que seja tarde”. Como admitiu o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, os baixos preços globais do petróleo concedem a Trump um poder de barganha adicional, permitindo-lhe ações agressivas sem temer a repercussão no mercado interno norte-americano. Para setores da direita estadunidense, o objetivo final é a “recolonização” da ilha, sua transformação num protetorado económico semelhante a Porto Rico, apagando assim o símbolo de resistência que Cuba representa há décadas.

Defender Cuba neste contexto é um imperativo que se fundamenta na razão, no direito e na ética. Em primeiro lugar, é vital reconhecer que a causa estrutural de todas as crises cubanas é o bloqueio. Julgar o desempenho económico da ilha sem considerar este fator esmagador é uma análise desonesta. Em segundo lugar, está em jogo um princípio cardinal das relações internacionais: o direito à autodeterminação dos povos. Aceitar que uma potência estrangeira possa usar a fome, a escuridão e a doença como armas políticas para forçar uma mudança de regime é legitimar a lei da selva e enterrar a Carta das Nações Unidas. A solidariedade com Cuba, contudo, não precisa ser acrítica. É perfeitamente possível, e necessário, repudiar com veemência a agressão imperialista enquanto se defende o aprofundamento da democracia e das liberdades para o povo cubano. A verdadeira esquerda deve lutar pelo fim imediato do bloqueio criminoso e, ao mesmo tempo, apoiar as aspirações por uma sociedade mais justa e participativa dentro da ilha.

Por fim, o legado que se pretende apagar com este cerco é profundamente significativo. Apesar de todas as adversidades impostas por seis décadas de guerra económica, Cuba construiu um sistema de saúde e educação que serve de referência mundial, enviou milhares de médicos às regiões mais pobres do planeta e manteve um índice de desenvolvimento humano digno. Sua resistência é um farol que demonstra que um projeto social alternativo, com todos os seus desafios e imperfeições, é possível mesmo a poucas milhas da maior potência imperial da história. A crise do petróleo de 2026 é, portanto, mais do que uma emergência energética; é uma trincheira na luta entre a coerção unipolar e a busca por um mundo multipolar. A sobrevivência soberana de Cuba não é interesse apenas dos cubanos; é uma causa de todos que acreditam que a dignidade de um povo vale mais do que a ganância e o poder dos impérios.

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