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sábado, 7 fevereiro 2026

A nova desordem mundial (semântica) e a mídia

Por Frei Betto*

Neste mundo já marcado por crises interligadas — climáticas, pandêmicas, geopolíticas — não estamos testemunhando um ajuste da arquitetura internacional pós-Guerra Fria, mas sim seu desmantelamento acelerado. O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos não é meramente um evento eleitoral: é a materialização de um projeto político que exalta a ruptura com o multilateralismo como uma virtude.

Mas esse fenômeno não surge do nada: ele é amplificado e, em certa medida, normalizado por um discurso midiático que, ao adotar eufemismos e estruturas explicativas parciais, acaba justificando ações imperialistas com novos rótulos.

O multilateralismo, com todas as suas imperfeições e hipocrisias, era a espinha dorsal de uma ordem baseada em regras, embora muitas dessas regras existissem apenas em documentos cerimoniais. Organizações como a ONU, o FMI e a OMC serviam como plataformas de negociação e (fracos) mecanismos de controle do exercício brutal do poder.

A doutrina “América Primeiro” de Trump atacou diretamente esse sistema: retirada da UNESCO e do Conselho de Direitos Humanos, ameaças contra a OTAN, guerra comercial unilateral e desrespeito aos acordos climáticos. A mensagem de Trump é clara: compromissos coletivos são obstáculos ao poder global dos Estados Unidos.

Embora inicialmente tenha sido percebido como um transtorno de personalidade por parte do presidente dos EUA, agora parece ser uma estratégia deliberada que repercutiu entre líderes de outros países e redefiniu o cenário global. A “nova desordem mundial” é uma arena onde todos lutam contra todos, e onde a força bruta, a coerção econômica e a diplomacia do ultimato substituem a negociação.

No vácuo criado por essa ruptura, o que emergiu não foi um mundo multipolar equilibrado, mas um caos de competição predatória em que as grandes potências e corporações agem com renovada impunidade.

A anexação de territórios, as intervenções militares “cirúrgicas”, os sufocantes bloqueios econômicos e o apoio a governos autoritários continuam. Mas a linguagem usada para descrevê-los sofreu uma sofisticação perversa. É aqui que a cumplicidade involuntária ou intencional da grande imprensa se torna crucial.

A cobertura de conflitos e intervenções está repleta de eufemismos que obscurecem a realidade e ocultam a responsabilidade daqueles que detêm o poder. Uma “invasão” torna-se uma “operação especial” ou uma “intervenção para garantir a estabilidade”.

Bloqueios, como o imposto sobre Cuba, ou sanções econômicas que devastam economias e causam fome entre as populações civis, são descritos como “embargos”, “medidas de pressão” ou “ferramentas diplomáticas”. O apoio a paramilitares que derrubam governos eleitos é transformado em “parceria com forças locais”. O termo “guerra” é evitado a todo custo e substituído por um léxico de gestão de crises.

O colonialismo do século XXI já não se disfarça de “missão civilizadora” como nos séculos anteriores, mas sim de “responsabilidade de proteger”, “combater o terrorismo” ou “defesa da democracia”, conceitos válidos em si mesmos, porém esvaziados de conteúdo e instrumentalizados.

Essa linguagem não é inocente. Ela serve a um propósito claro: tornar o inaceitável aceitável. Ao transformar ações agressivas em questões técnicas ou de segurança, a narrativa dominante remove os eventos de seu contexto histórico, ignora suas causas profundas e obscurece os interesses materiais em jogo.

Cria-se uma assimetria narrativa, uma vez que as ações das potências ocidentais ou de seus aliados são descritas como reativas, defensivas ou necessárias, enquanto as de seus adversários são imediatamente rotuladas como ofensivas, expansionistas e malignas.

Um dos casos mais escandalosos é a cobertura do genocídio em Gaza. Em muitos casos, a grande imprensa tratou os bombardeios indiscriminados e as mortes de milhares de civis como “respostas” a ataques terroristas, “danos colaterais” ou “complexa legítima defesa”.

A palavra “genocídio”, usada por juristas e historiadores sérios, é descartada como retórica excessiva, enquanto eufemismos oficiais são reproduzidos acriticamente.

A mesma lógica se aplica às sanções contra o Irã, a Síria ou o Iêmen, frequentemente descritas como problemas de gestão interna em regiões “problemáticas”, em vez de instrumentos de guerra econômica que afetam os mais vulneráveis.

O caso da Venezuela é flagrante. Os Estados Unidos decidiram violar o direito internacional, ocupando o Mar do Caribe com seus navios de guerra, assassinando pescadores por suspeita de tráfico de drogas e, como o pirata Black Bart, apreendendo petroleiros.

Onde estão os veículos de imprensa investigativos para verificar as alegações de que os navios estavam envolvidos com tráfico de drogas? Por que a versão da Casa Branca está recebendo mais peso?

Observe as notícias veiculadas pela grande mídia: todas chamam o sequestro de Nicolás Maduro de “captura”. Por que captura? Porque o governo dos Estados Unidos ofereceu uma recompensa por sua cabeça? E agora que os Estados Unidos retiraram as acusações de tráfico de drogas, o que justifica seu sequestro? E por que Cilia Flores e seu marido foram sequestrados?

O fenômeno Trump é, portanto, tanto a causa quanto o sintoma dessa nova desordem. Sua retórica brutalmente transacional expõe o que antes estava oculto: que a ordem internacional é, em última análise, um jogo de poder.

Trump ao menos demonstra uma sinceridade que a grande mídia tenta esconder: a Venezuela não foi invadida para restaurar a democracia, mas sim para que os Estados Unidos pudessem se apoderar de seu petróleo. E a Groenlândia está ameaçada porque a Casa Branca está interessada em seus elementos de terras raras e em sua posição geopolítica em relação à Eurásia.

Ao agir dessa forma, o presidente dos EUA normaliza a linguagem do nacionalismo agressivo. A imprensa, por sua vez, ao adotar uma postura de “objetividade” que frequentemente ecoa a dos poderosos, torna-se um mecanismo de poder brando. Não precisa mentir; basta selecionar, enquadrar e suavizar a narrativa.

O resultado é um público dessensibilizado que consome a violência estrutural e o imperialismo como se fossem boletins meteorológicos de eventos inevitáveis ​​e complexos, sem causas objetivas. A crítica ao sistema é esvaziada porque falta o vocabulário necessário para nomear seus mecanismos. A “nova desordem mundial” não se resume a tanques e tarifas; é também uma desordem semântica em que as palavras perdem seu significado para servir ao poder.

A saída desse labirinto exige mais do que denúncias. Exige um jornalismo que rejeite categoricamente o eufemismo, que restaure a linguagem direta — invasão é invasão, sequestro é sequestro, bloqueio é bloqueio, genocídio é genocídio — e que investigue o poder em vez de simplesmente traduzi-lo.

Num mundo pós-multilateral onde a força bruta volta a ocupar o centro do palco, o último bastião da ética jornalística pode ser a capacidade de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Sem isso, a nova desordem não só será a nossa realidade, como também a única história que nos será permitido contar.

*Frei Betto, escritor brasileiro e frade dominicano, é internacionalmente conhecido como teólogo da libertação. É autor de 60 livros em diversos gêneros literários — romances, ensaios, ficção policial, memórias, literatura infantojuvenil e obras religiosas. Recebeu o Prêmio Jabuti, a mais prestigiosa premiação literária do Brasil, duas vezes, em 1985 e 2005. Em 1986, foi eleito Intelectual do Ano pelo Sindicato dos Escritores Brasileiros. Conselheiro de movimentos sociais como as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, participa ativamente da política brasileira há cinco décadas.

(Tradução do português por Esther Pérez)

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