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Nossa América

Postado em 30/09/2021 7:03

A morta-viva Pax Americana

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– Perth, na Austrália, será uma base avançada para submarinos americanos de propulsão nuclear e com armas nucleares

Pepe Escobar [*]

A Pax Americana foi sempre um aspecto menor nos filmes apocalípticos de zumbis.

A Pax Americana é realmente O eterno retorno dos mortos vivos. A “Pax” nunca esteve na ordem do dia; a War Inc. é que domina. O fim da II Guerra Mundial levou diretamente à Guerra Fria. O momento unipolar foi um intervalo desde a Primeira Guerra do Golfo até ao bombardeamento da Jugoslávia. O 11 de Setembro lançou a Guerra Global contra o Terror (Global War on Terror, GWOT), rebatizada de Operações Além-Mar de Contingência (Overseas Contingency Operations, OCO) pela equipe Obama. Estamos agora a entrar na Guerra Fria 2.0 contra a China.

O que o antigo analista da CIA Ray McGovern descreve memoravelmente como o complexo MICIMATT (military-industrial-congressional-intelligence-media-academia-think tank complex) nunca foi “Pax”. Eles fazem a guerra, em uníssono, como Os Cavaleiros que dizem “Ni!” [1] — mas sem o talento cómico.

Tome-se este Cavaleiro para o Council on Foreign Relations (CFR), o cerne da matriz do establishment. O CFR especializa-se no Divide e Impera kissingeriano. Agora isto aplica-se, sem dúvida, à parceria estratégica Rússia-China.

Os cavaleiros declaram o óbvio de forma peremptória: “O poder chinês deve ser contido”. Eles vendem a presente derrocada em série imperial como se fossem “grandes movimentos estratégicos”. Numa estranha e confusa tradução em salada mista de Gramsci e Lampedusa, dizem: uma “nova ordem” (engendrada pelo Império) está a nascer pois “tudo deve mudar para que tudo possa permanecer na mesma” – privilegiando o Império.

Outros cavaleiros propõem mesmo a ridícula noção de que o atual presidente dos EUA, um zumbi real controlado à distância por um teleponto, é capaz de conceber uma “política externa para a classe média”, como se o MICIMATT alguma vez aprovasse um esquema para “promover a prosperidade no mundo livre como um todo”. O dito “mundo livre” acabou de ser atordoado pela “prosperidade” oferecida ao Afeganistão durante 20 anos de “bombardeamentos para a democracia”.

E depois há os cavaleiros britânicos, que pelo menos deveriam ter conhecido de cor o seu Monty Python, a reclamar acerca do iliberalismo e dos “regimes criados por Xi e Putin”, os quais irão “desmoronar-se” e serem sucedidos pela “anarquia e novos despotismos”. A mesma velha altivez anglo-saxónica misturada com uma ignorância crassa. Oh, aquelas “tiranias” asiáticas que ameaçam o impulso civilizacional do Homem Branco.

Todos nós vivemos num submarino australiano

Agora é tudo sobre AUKUS. Até recentemente, só os P5 – os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – possuíam submarinos movidos a energia nuclear. A Índia aderiu ao clube, e mais tarde ao invés de mais cedo, a Austrália.

Todos os principais atores sabem que a próxima guerra americana não será acerca de ilhas remotas do Pacífico. Formosa, no entanto, é um caso totalmente diferente. A AUKUS é sobretudo acerca de Formosa.

A AUKUS foi concluída na cimeira do G7 em Carbis Bay em junho último. Aquilo foi um assunto do Clube dos Anglo Boys, discutido exclusivamente pela troika Biden-BoJo-Morrison – e excluindo devidamente o Japão, mesmo quando Tóquio quase desembainhou uma espada samurai a gritar a sua intenção de apoiar Formosa.

O problema é que não tem havido fugas das letras miúdas contidas no AUKUS. Só conversas fiadas. Mas já está claro que o AUKUS vai muito além da construção de submarinos nucleares australianos. Camberra também terá acesso a Tomahawks, Hornets e até se tornará parte da investigação americana de mísseis hipersónicos.

Mas a seguir, num deslize, o ministro da Defesa australiano Peter Dutton entregou o jogo:   O AUKUS permitirá a atualização “das infraestruturas em Perth, que serão necessárias para a operação destes submarinos. Espero que no futuro veremos…acordos de arrendamento ou maiores operações conjuntas entre as nossas marinhas”.

Tradução: Perth será uma base avançada para submarinos americanos de propulsão nuclear e que transportam armas nucleares.

Por que o AUKUS agora? Voltemos à II Guerra Mundial – e à mesma velha geopolítica caricatural das benignas potências insulares anglo-saxónicas contra as “malvadas” terras centrais eurasiáticas.

A II Guerra Mundial era a solução para impedir simultaneamente a Alemanha de dominar o Atlântico e o Japão de dominar a Ásia-Pacífico (a propósito, esta é a terminologia correta: “Indo-Pacífico” é linguagem do Império).

[O pacto] Alemanha-Japão resumia-se a uma aliança que seria predominante por todas as terras centrais da Eurásia. Agora, o Império do Caos está a ser lenta mas seguramente expulso da região central destas terras centrais – desta vez pela parceria estratégica Rússia-China.

Aqueles com conhecimentos técnicos na Beltway – não, não são os Cavaleiros – estão conscientes de que os EUA não estão à altura de uma Rússia hipersónica. No entanto, os americanos acreditam que podem tornar a vida insuportável para Pequim. O establishment dos EUA permitirá à China controlar o Pacífico Ocidental sobre os seus cadáveres. Aqui entra a instrumentalização da Austrália.

Uma grande questão é saber qual será o novo papel dos Cinco Olhos (Five Eyes). Com o U SUK A, o Clube Anglo já ultrapassou a mera partilha de informações e espionagem das comunicações. Isto é um pacto militar entre os “Três Olhos”.

Dependendo da composição do seu novo governo, a Alemanha poderia tornar-se um Sexto Olho – mas num papel subordinado. Com o U SUK A, a NATO como um todo, recém-saída da sua espetacular derrocada afegã, torna-se pouco mais do que um vassalo semi-relevante. Tudo isto tem a ver com o poder marítimo.

O AUKUS é com efeito um Quad Plus, com a Índia e o Japão, a quinta-coluna asiática, apenas autorizados a desempenhar o papel de, mais uma vez, meros vassalos.

Guerra antes de 2040

Garantir a cadeia de fornecimento de petróleo.

Não surpreendentemente, a primeira avaliação técnica e estratégica concisa do AUKUS é russa, escrita por Alexander Timokhin e publicada em Vzglyad, intimamente ligada à inteligência do GRU. Aqui, providenciada por John Helmer, está uma tradução inglesa do essencial.

Os pontos-chave:

Os submarinos suplementares criarão uma grave ameaça adicional; “o problema de combater forças submarinas inimigas tornar-se-á bastante agudo para a China”.

Geograficamente, “a Austrália pode bloquear completamente a ligação entre a China e o Oceano Índico”.

A Austrália só cumprirá os prazos se lançar ao mar “mais submarinos por ano do que os americanos”.

É “possível fazer rapidamente da Austrália um país com uma frota de submarinos”. Estes “investimentos gigantescos e reviravoltas políticas bruscas não são realizados sem mais nem menos”. A hegemonia dos anglo-saxões no mundo está seriamente abalada”.

E isso leva-nos à inevitável conclusão: “É válido reconhecer que o mundo está à beira da guerra”.

Mesmo antes da avaliação estratégica de Vzglyad, eu havia submetido os delírios de mais um Cavaleiro da Beltway – amplamente elogiado como sábio – a um velho analista de inteligência dissidente do Estado Profundo. A sua avaliação foi impiedosa.

Ele escreveu-me, “a lógica geopolítica é que a aliança China-Rússia estava determinada a ser contra os interesses dos EUA, tal como a aliança Mao-Stalin. A SEATO e a OTAN estão a serem replicadas. O tratado entre a Inglaterra, Austrália e EUA faz parte do reequilíbrio do Pacífico, ou uma nova SEATO. A NATO faz parte do contrabalanço contra a Rússia-China na Europa”.

Sobre o que pode vir a acontecer, ele observou que “o golpe contra os EUA, Austrália, Inglaterra e NATO seria uma aliança franco-russa para romper a NATO e isolar a Alemanha”. A Rússia aproximou-se sem êxito da Alemanha e agora pode aproximar-se da França. A perda da França efetivamente acabaria com a NATO”.

Ele vê o AUKUS todo pimpão, sem ter para onde ir:   “Tal como está agora, a China está no comando do Pacífico, a Austrália e a Grã-Bretanha não significam nada. A Rússia pode sobrepujar a NATO em duas semanas, os mísseis hipersónicos dos nossos adversários podem destruir todos os aeródromos da NATO em cinco a dez minutos e a batalha pela Europa estaria terminada”.

Ele é categórico em que “os EUA não podem projetar poder para o Pacífico”. Os mísseis submarinos chineses acabariam com a frota dos EUA em curto prazo”. A questão dos submarinos australianos é realmente irrelevante; se a CIA tivesse uma organização que valesse alguma coisa saberia que os nossos adversários já podem detectar e destruir os nossos submarinos nucleares sem a menor dificuldade. Toda a Marinha dos EUA está obsoleta e indefesa contra os mísseis russos”.

E tudo fica pior – pelo menos para os Cavaleiros líderes da claque: “O F-35 está obsoleto. A Força Aérea é em grande medida inútil, pois os mísseis russos e chineses podem acabar com os seus aeródromos ou porta-aviões em curto espaço de tempo. O exército americano é mais inútil do que o exército francês com a sua Linha Maginot. Aos Chefes do Estado-Maior Conjunto são pagos menos de 200 mil por ano e são talentos de segunda ou terceira classe. Os EUA são um navio a afundar-se”.

Assumindo que seja realmente esse o caso, a guerra – nuclear – contra a China no Pacífico Ocidental, projetada na Beltway para acontecer na segunda metade da década de 2030, acabaria mesmo antes de ter começado. Formosa poderá mesmo fazer parte da China nessa altura – uma ramificação de Pequim sempre a propor trocas económicas a todos, enquanto Washington “propõe” sempre a guerra.

Uma coisa, no entanto, jamais mudará:   Os Cavaleiros que Dizem “Ni!” a cantarem em louvor da Pax Americana perante a absoluta indiferença dos plebeus indisciplinados.

[1] Os cavaleiros que dizem “Ni!”:   Personagens do filme Monty Pithon e o Santo Graal, de 1975.

[*] Jornalista. Muitas de suas obras estão aqui.

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/news/2021/09/29/the-living-dead-pax-americana/

Este artigo encontra-se em resistir.info

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