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Postado em 25/12/2020 9:06

A filosofia diplomática pária-religiosa de Ernesto Araújo

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Foto: Divulgação

“Somente a fé verdadeira deste povo cristão e conservador pode enfrentar o dragão da maldade. Para isso, precisávamos libertar o Itamaraty e despertar o Itamaraty.

Nesta semana, o representante do Brasil nas Relações Internacionais, Ernesto Araújo, fez novas declarações que colocam em xeque a imagem do país a nível mundial. No dia 22 de outubro, fizemos um perfil do diplomata brasileiro, com base em um discurso recheado de teorias filosóficas, religiosas e conservadoras. Relembre:

A filosofia diplomática pária-religiosa de Ernesto Araújo

Por Patricia Faermann/Jornal GGN

Como se os formandos do Instituto Rio Branco estivessem em uma missa, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo lançou um inspirado discurso nesta quinta (22), recheado de conceitos criados por ele próprio, para concluir que a “amoralidade” das ideologias do século XX foram as responsáveis por acabar com a figura de Deus, que o comunismo “é contra Deus”, que diplomacia internacional tem relação com isso e que “é bom ser pária”, ao querer dizer país marginalizado do restante do mundo.

Para introduzir o tema, Araújo usou o exemplo de uma paraibana chamada Severina, que trabalhou para a sua família nos anos 60, em Brasília. No relato pessoal, poeticamente comparando sua narrativa com a de João Cabral de Mello Neto, de Morte e Vida Severina, narrou:

“Lá por 1986 ou algo assim, quando estávamos vendo televisão e apareceu o programa partidário do partido comunista do Brasil, logo, Severina exclamou: ‘Nossa, eu odeio esse negócio de comunismo’. Na tela, o presidente do partido falava do ideal comunista de libertar todos os povos do planeta, ou algo assim, e a Severina comentou indignada: ‘ham, mentira! Eles são contra Deus’. Severino e Severina sabem muito mais do que a maioria dos acadêmicos”, disse Araújo, antes da declaração que concluía o relato emotivo:

“Por isso, o povo brasileiro, esse povo severino confia no senhor, presidente, porque o senhor fala de liberdade e do poder libertador da verdade, porque o senhor fala de Deus, em aquele como o senhor realmente crê. Esse povo escandaliza os intelectuais prudentes e sofisticados. Esse povo revolta os esquerdistas que o detestam.”

A partir daí, o representante do governo brasileiro no mundo começou a tecer uma linha de raciocínio própria, misturando religiosidade com correntes filosóficas e de movimentos históricos, para concluir que o globalismo e multilateralismo são ruins e o porquê de o Brasil não se importar de manchar a imagem junto ao mundo.

Inspirado, seguiu: “somente a fé verdadeira deste povo cristão e conservador proporciona a cobrança moral e o coração palpitante de amor patriótico para enfrentar o dragão da maldade. Este povo severino, essa grande nação severina é o que queremos levar para o mundo. Para isso, precisávamos libertar o Itamaraty e despertar o Itamaraty.”

Descrevendo o Ministério de Relações Exteriores “não uma ONG incrustrada no governo federal, mas uma aventura mundial de proporções históricas”, “um combate de gigantes pela essência”, falou de como o iluminismo “tentou matar” Deus e que o marxismo procurou transformar o homem “em um trabalhador ainda mais explorado, mas que já não reza, porque Deus foi proscrito”.

“Hoje temos o globalismo e o politicamente correto tentando consertar a humanidade, sem entendê-la e sem amá-la, construindo um ser humano artificial, um android, sem sentimentos, sem instinto, sem sexo, sem família, dominado por mecanismos de controle social e psicolinguístico”, concluiu, sobre a fase em que estaríamos atualmente de filosofias histórias.

“Nada disso pode dar certo, a liberdade do ser humano reside na sua espiritualidade”, iniciou para criticar o multilateralismo, que nada mais é do que as próprias relações internacionais -do qual ele é o representante brasileiro- entre países, sejam por blocos econômicos, acordos e alianças.

Segundo o chanceler brasileiro, “os multilateralistas têm medo, têm vergonha de falar em liberdade” e o Brasil hoje, com Jair Bolsonaro, “fala em liberdade através do mundo”. “Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”, exclamou ao se referir aquele que está à margem da sociedade.

“Que sejamos esse severino que sonha e essa severina que reza. Talvez seja melhor ser esse pária, deixado ao relento, do lado de fora”, insistindo, em constantes autoelogios: “É bom ser pária. E essa política externa do Brasil, do povo brasileiro, severina tem conseguido resultados.”

Em sua capacidade de misturar conceitos não condizentes, Ernesto Araújo também expôs sua tese para como deu errado, em sua visão, “as esquerdas” no Brasil, “em uma grande orgia da corrupção” em uma aliança com o “patronato político”, para criticar o período que Lula venceu as eleições:

“A partir de 2002, esperava-se ver o grande embate entre as esquerdas e as oligarquias. Mas não foi o que aconteceu, porque as esquerdas e as oligarquias não queriam coisas opostas, mas a mesma coisa, o poder. Deu-se, então, a grande amálgama entre a ideologia esquerdista e o patronato político brasileiro, o que produziu, o que garantiu esse grande paradoxismo, essa grande orgia de corrupção.”

“Milagrosamente interrompemos essa marcha para o abismo”, celebrou, antes de voltar a louvar o brasileiro de bem, o cristão conservador, que salvou as relações internacionais do Brasil, com a liderança de Bolsonaro, em uma crise da diplomacia brasileira sem precedentes.

 

O discurso de Ernesto Araújo, na Formatura dos alunos do Instituto Rio Branco, pode ser conferido abaixo:

 

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