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segunda-feira, 20 julho 2026

A falta que Darcy Ribeiro faz à inteligência política brasileira

Foto: tvescola.mec.gov.br

Pedro Augusto Pinho

Esopo (620 a.C. – 564 a.C.) escreveu fábulas que venceram séculos, influenciando escritores como os atenienses Sócrates (470 a.C.- 399 a.C.) e Aristófanes (447 a.C. – 385 a.C.), o francês Jean de La Fontaine (1621 – 1695), os alemães Irmãos Grimm (Jacob 1785-1863 e Wilhelm 1786 – 1859) e o brasileiro José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 – 1948).

Pela enorme atualidade, resumiremos a fábula de “O Lobo e o Cordeiro”, do Esopo.

Um lobo faminto encontra um jovem cordeiro bebendo água em um riacho. Logo passa a agredi-lo: “você está sujando a água que eu vou beber”. “Mas como, senhor lobo, se você está na parte alta do riacho e eu bebo na parte baixa?”. O lobo revida: “você anda falando mal de mim”. Retruca o cordeiro: “mas hoje é a primeira vez que saio de casa, como poderia ter falado mal do senhor”. Já desesperado, o lobo retruca, “se não foi você foi seu irmão ou seu pai e eu vou comê-lo”.

Se colocarmos as imagens de Donald Trump e do Brasil teremos os personagens desta fábula em 2026, no episódio dos “tarifaços” aplicados a produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos da América (EUA).

No entanto, toda mídia discute se o “tarifaço” beneficia a campanha de Lula ou de Flávio Bolsonaro à presidência do Brasil. A propósito, este modesto escriba tem curiosidade sobre onde e quando Flávio Bolsonaro prestou exame na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para ser advogado de seu pai, atualmente em prisão domiciliar humanitária, e se tem um escritório.

E, sendo este advogado também senador, é impossível não reconhecer quando retrocedeu a cultura do Senado Brasileiro do século passado, quando nele tivemos o gênio Darcy Ribeiro, para estes dias de “tariflávio”, onde nenhuma voz se levanta em defesa do interesse e da soberania do povo brasileiro.

Darcy exerceu o mandato de Senador pelo Rio de Janeiro entre fevereiro de 1991 e 17 de fevereiro de 1997, data do seu pranteado falecimento. Desde o primeiro ano de senador dedicou-se à instrução. Efetivamente, o Brasil jamais levou a educação a sério, ao contrário, as iniciativas de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, de Getúlio Dornelles Vargas e do próprio Darcy Ribeiro nos governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, tão logo estes brasileiros foram afastados do poder, foram imediatamente destruídas. Hoje, os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) não são mais escolas de tempo integral e, se existirem como edificações, estarão, na imensa maioria, descuidadas, com precárias condições de uso. Mais uma iniciativa que a ignorância, a corrupção e os interesses mesquinhos torpedeiam para manter seus privilégios e mordomias ao preço de uma nação bolzonarizada.

Vamos recordar as Cartas’, que desde 1991 Darcy empreendeu com os recursos do Senado para que intelectuais brasileiros e estrangeiros fossem acessíveis aos brasileiros. Vejamos a Carta’ de 1991. Além do próprio Darcy Ribeiro, nela encontraremos artigos e reflexões de Octávio Paz (1914-1998), poeta e ensaísta mexicano, Norberto Bobbio (1909-2004) filósofo, escritor e político italiano, Marie-France Toinet (1942-1995) cientista política francesa, prolífica analista da política estadunidense, Leopoldo Zea (1912-2004), filósofo mexicano, James Petras (1937-2026), sociólogo estadunidense, apoiador do Movimento dos Sem Terra (MST), no Brasil, entre muitos outros cujas entrevistas ocupam as páginas do Carta’.

A função que foi exercida por Darcy Ribeiro está hoje ocupada por políticos do Partido Liberal (PL): o ex-jogador de futebol Romário de Souza Faria (1966), e os advogados Carlos Francisco Portinho (1973) e Flávio Nantes Bolsonaro (1981). Todos absolutamente incapazes de editar uma revista como a Carta Capital, do saudoso Mino Carta (1933-2025), o que se dirá de uma Carta’, do genial Darcy Ribeiro.

Trump anuncia nova tarifa global de 15%, após decisão que derrubou taxação  anterior - BBC News Brasil

AFP

Vamos examinar o tarifaço de Trump.

É evdente que não se trata de medida protetora da economia estadunidense, que sofrerá maior inflação com sua aplicação. Trata-se de uma ação política imperialista, no sentido colonial. A América Latina foi entregue à gestão do Secretário de Estado Marco Antonio Rubio (1971), filho de pais cubanos, Mario Rubio Reina e Oriales Garcia, que deixaram Cuba e emigraram para os EUA em 1956, o que explica sua fluência no idioma espanhol.

A América Latina está sendo tomada por movimentos de direita antinacional, como já se vê na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador, que tem presidente nascido nos EUA, e no Peru. O que foi a África nos séculos XIX e XX para os imperialistas europeus, será, se não houver reação nacionalista, o futuro da América Latina.

O tarifaço é medida de condução da economia brasileira, tanto que o Pix, sistema de pagamento criado pelo Banco Central do Brasil, está incluído nas medidas, bem como o combate ao crime organizado, sob o pretexto de combate ao terrorismo.

O que é contraditório mas não surpreendente, é ver Flávio Bolsonaro apoiando e até lutando para impor as medidas de Trump no Brasil. Vejamos o que está na “Wikipedia” sobre o filho mais velho do Jair Messias Bolsonaro.

Flavio Bolsonaro explica medalha ao miliciano Adriano da Nóbrega: “Estavam  sendo injustiçados”

Flavio Bolsonaro, Domingos Brazão e Adriano da Nóbrega

“Em abril de 2015, votou a favor da nomeação de Domingos Brazão para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, nomeação que foi muito criticada na época. Durante sua atuação como deputado, Flávio Bolsonaro reiteradamente mostrou-se próximo de Adriano da Nóbrega, policial que viria a ser revelado como membro da milícia conhecida como Escritório do Crime. Em 2003, o então deputado estadual fez uma moção de louvor, ao na época tenente, por sua atuação como policial. No ano seguinte, Adriano foi preso por assassinar um guardador de carros e no ano seguinte, 2005, com Adriano ainda preso, Flávio concedeu-lhe a Medalha Tiradentes.”

“Em 2007, reeleito deputado no ano anterior, Flávio fez um discurso na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) defendendo milícias. No mesmo ano, em entrevista à imprensa, o deputado defendeu novamente esta posição e considerou um projeto para legalização de milícias. No mesmo ano, Flávio nomeia para seu gabinete a então esposa de Adriano, Danielle Mendonça da Nóbrega, cargo que ocuparia por 11 anos. Indícios coletados posteriormente na Operação Gárgula apontam que ela seria uma funcionária fantasma, recebendo sem trabalhar. Em 2008, durante a instalação da CPI das Milícias na ALERJ, em discurso Flávio volta a defender milicianos. Em 2011, com o assassinato da juíza Patrícia Acioli, que investigava milícias, o deputado relativizou o assassinato. Uma defesa similar ocorreu em 2015, quando defendeu milicianos detidos após agredirem uma juíza.”

“A relação com a família de Adriano da Nóbrega continuaria em 2016, quando Flávio Bolsonaro nomeou Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, para seu gabinete. Tanto ela como a ex-mulher Danielle continuariam nos cargos até 2018, quando o deputado foi eleito senador, e no momento em que surgiam suspeitas das chamadas “rachadinhas”. Em 2019, como senador, foi contra a instalação de uma Comissão parlamentar de inquérito sobre milícias.”

Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e considerado braço-direito do clã Bolsonaro no Rio de Janeiro

Reprodução da internet

Caso Fabrício Queiroz e acusação de peculato

“Em dezembro de 2018, veio à tona um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) que apontou uma movimentação atípica no valor de R$ 1.236.838 em uma conta no nome de Fabrício José Carlos de Queiroz, policial militar e ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, entre os dias 1º de janeiro de 2016 e 31 de janeiro de 2017. Fabrício Queiroz, que era motorista e segurança de Flávio, havia sido exonerado do gabinete do então deputado estadual no dia 15 de outubro de 2018. De acordo com o banco responsável pela conta, as movimentações financeiras de Queiroz seriam incompatíveis com o patrimônio, a atividade econômica ou ocupação profissional e a capacidade financeira do ex-assessor parlamentar.”

“O relatório, que foi anexado pelo Ministério Público Federal (MPF) à investigação que deu origem à Operação Furna da Onça, também cita transações bancárias no total de R$ 324.774 em papel-moeda e de R$ 41.930 em cheques compensados na conta de Queiroz. Uma das transações citadas no relatório do COAF é referente a um cheque de R$ 24 mil destinado a Michelle Bolsonaro, atual esposa do presidente Jair Bolsonaro. Fabrício Queiroz recebia, de acordo com a folha de pagamento da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) de setembro de 2018, um salário de R$ 8.517 devido ao exercício de cargo em comissão de Assessor Parlamentar III no gabinete de Flávio Bolsonaro, valor este somado aos rendimentos mensais de R$ 12,6 mil da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ).”

“O documento também apontou que Fabrício Queiroz recebeu depósitos em espécie e por meio de transferências de oito funcionários que já foram ou estão lotados no gabinete de Flávio Bolsonaro no período entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. Entre estes funcionários, destacam-se: Nathalia Melo de Queiroz, filha de Fabrício Queiroz, que transferiu um total de R$ 86.429,35 (R$ 84.110,04 por meio de depósito e R$ 2.319,31 via transferência) para a conta do pai; e Marcia Oliveira de Aguiar, esposa de Queiroz, que fez repasses em dinheiro no valor de R$ 18.864,00 ao marido. Tais movimentações levantaram a suspeita da existência de uma prática conhecida como “rachid” ou “rachadinha”, tanto no gabinete de Flávio quanto no de outros políticos, onde parlamentares ficam com parte dos salários de seus funcionários.”

“O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que possui 422 páginas, reúne informações a respeito de operações bancárias de 75 funcionários e ex-servidores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), incluindo Fabrício Queiroz, citadas em comunicados sobre transações financeiras suspeitas. As operações suspeitas, que envolvem pessoas que trabalham ou trabalharam em 20 gabinetes de deputados estaduais do Rio de Janeiro de diferentes matizes ideológicas, totalizam mais de R$ 207 milhões.”

“Em entrevista dada ao SBT Brasil, no dia 26 de dezembro de 2018, Fabrício Queiroz declarou que conseguia dinheiro por meio da compra e da revenda de carros, que iria dar explicações ao Ministério Público Federal a respeito dos depósitos de funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro em sua conta bancária e que Flávio nada teria a ver com as movimentações bancárias apontadas pelo relatório. Já a chefia de gabinete de Flávio Bolsonaro afirmou que Queiroz trabalhou por mais de dez anos como segurança e motorista do deputado estadual, que o parlamentar não possui conhecimento de qualquer fato que desabone a conduta do ex-assessor parlamentar e que Fabrício Queiroz foi exonerado do gabinete em outubro de 2018 para que pudesse resolver questões relacionadas à passagem para a reserva remunerada como subtenente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Em nota, o Ministério Público Federal confirmou que incluiu o relatório do COAF nas investigações feitas pela instituição, mas esclareceu que nem todos os nomes citados no documento foram incluídos nas apurações, pois nem todas as movimentações atípicas seriam, necessariamente, ilícitas.”

Flavio Bolsonaro no STF

“Em 17 de janeiro de 2019, Flávio Bolsonaro, utilizado de sua futura prerrogativa do Foro privilegiado, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que as investigações contra seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, fossem paralisadas, pedido que foi aceito pelo ministro Luís Fux, utilizado como argumentos que, supostamente, a atual investigação existiria “nulidades” e que ele, por ser um senador eleito, possuiria, logo, o direito do Foro privilegiado. No dia de 18 de janeiro, o Jornal Nacional da Rede Globo divulgou que eles receberam, com exclusividade do COAF, partes de um relatório das investigações envolvendo o caso Queiroz, parte a qual constatou que entre os meses de junho e julho de 2017 houve grande movimentação de depósitos suspeitos na conta bancária de Flávio Bolsonaro. No total houve 48 depósitos nestes meses e a quantia das somas destes depósitos é de aproximadamente 96 mil reais. Chamou atenção do COAF que todos estes depósitos são de R$2.000 reais cada, tendo alguns certa cronometragem para entrada destes depósitos e entre outras constatações as quais o COAF considera atípicas. Em 27 de setembro de 2019 as investigações ficaram suspensas por conta da decisão do ministro do STF Gilmar Mendes. A decisão foi revogada após o julgamento do STF, em novembro de 2019, que autorizou o compartilhamento de dados por parte da Receita Federal. O Senador, por sua vez, nega as acusações e também acredita que com o andamento das investigações a verdade será esclarecida.”

“Em 18 de junho de 2020, Fabrício Queiroz foi preso na casa do advogado Frederick Wassef, em Atibaia, que presta serviços à família do presidente Jair Bolsonaro. A ação foi executada pela Polícia Civil do Estado de São Paulo (PCESP) e pelo Ministério Público de São Paulo após os mandados de prisão e de busca e apreensão serem expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro. No dia 19 de outubro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro ajuizou a denúncia contra Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outros 15. Em novembro de 2021, o Superior Tribunal de Justiça anulou as decisões do juiz de primeira instância que quebrou os sigilos bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro e outros 102 alvos. No mesmo mês, o Supremo Tribunal Federal anulou quatro dos cinco Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que embasaram a investigação da “rachadinha”. Em maio de 2022 a denúncia foi rejeitada e posteriormente arquivada pelo TJRJ tendo em vista a decisão do STF de anular as provas colhidas pelo MPRJ junto ao COAF.”

E é com este que Trump está, apoiando sua pré-candidatura a presidente do Brasil.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.

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