A deriva nazi da UE.
– …os investidores internacionais farão o possível para diminuir sua exposição a instrumentos de dívida da UE.
Dmitry Orlov [*]
Em 2022, a União Europeia congelou os fundos soberanos da Rússia. As estimativas variam, mas o total chega a cerca de US$ 300 mil milhões. Grande parte desse dinheiro está depositada no Euroclear, em Bruxelas, na Bélgica. Na situação atual, no final de 2025, os Estados Unidos pararam de financiar o buraco negro financeiro conhecido como Ucrânia. A União Europeia tentou assumir o controle, mas acabou não tendo dinheiro para isso.
Vários planos foram apresentados para fazer uso criativo dos fundos soberanos russos a fim de tapar o buraco negro. Até agora, nenhum deles se concretizou. O plano mais recente foi que o Banco Central Europeu emitisse empréstimos garantidos por fundos russos. Isso não só equivaleria a simplesmente imprimir dinheiro (já que a garantia não passa de um artifício), mas o Federal Reserve (Fed) dos EUA teria que aprovar um swap cambial dólar-euro. O euro, veja bem, não é uma moeda independente, mas uma espécie de extensão financeira do dólar americano. De qualquer forma, o Fed se recusou a fazê-lo e todo o plano fracassou.
Em todas as discussões sobre o assunto que vi até agora não encontrei nenhuma menção ao que realmente está a ser tentado. No cerne da questão está o fato de que os ativos russos não são dinheiro, mas dívida. Os ativos russos congelados consistem em instrumentos de dívida da UE [NR]. Ou seja, o governo russo comprou esses instrumentos de dívida e os depositou em custódia no Euroclear. Se a UE sumisse com esses instrumentos, isso seria um repúdio dessa dívida. Isso é fantástico — menos dívida! — mas onde está o dinheiro? Os membros da UE já gastaram o dinheiro que os russos lhes deram ao comprar esses instrumentos. Para realmente conseguir mais dinheiro a fim de enfiá-lo no buraco negro financeiro ucraniano, a UE teria que pedir emprestado — por exemplo, vendendo mais instrumentos de dívida, como deve ter adivinhado.
Agora, aprecie a natureza imbecil da postura da UE. A UE congela alguns fundos soberanos, enquanto aguarda a resolução de um conflito militar. Até aí, tudo bem, é uma prática normal. Mas esses fundos soberanos consistem em dívida da UE, e a UE está propondo tomar posse dessa dívida, na prática, recusando-se a pagá-la. Nesse ponto, os investidores internacionais farão o possível para diminuir sua exposição a instrumentos de dívida da UE. Os rendimentos dos títulos terão de subir para compensar, tornando ainda mais caro para a UE continuar operando com grandes défices fiscais.
Mas o que a UE conseguiu (além de aumentar as taxas de juros que tem de pagar sobre a sua dívida)? Ora, nada! Tem exatamente a mesma quantia de dinheiro com que começou, mas sofreu alguns danos significativos à sua reputação. Se ainda quiser enfiar mais dinheiro no buraco negro financeiro ucraniano, terá de o pedir emprestado — vendendo mais instrumentos de dívida, mas com um rendimento mais elevado. Será isso uma vitória para a UE? Não me parece!
Mas isso não é tudo. A Rússia não verá com bons olhos a UE sumir com os seus fundos soberanos. Na verdade, ela já tomou providências para confiscar valores equivalentes dos ativos da UE mantidos em bancos russos e nacionalizar os investimentos da UE na Rússia. Não se trata apenas de dinheiro real, e não de instrumentos de dívida, mas grande parte dessa riqueza está na forma de ações de empresas reais, atualmente sob propriedade da UE, que passariam para a propriedade do Estado russo, juntamente com instalações e equipamentos, funcionários, estoque e participação no mercado. Isso é uma vitória? Ainda acho que não!
Resumindo:
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A Ucrânia está à beira da ruína, com a derrota garantida na guerra, o exército desmoronando e o governo atolado em escândalos de corrupção. Investir mais dinheiro no buraco negro financeiro ucraniano seria simplesmente um desperdício.
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Os fundos soberanos russos congelados detidos pela Euroclear estão na forma de eurobônus. Se a UE roubasse esse dinheiro, estaria simplesmente se recusando a pagar US$ 300 mil milhões de sua própria dívida. Isso não lhe daria nenhum dinheiro (ela já gastou o dinheiro russo que foi usado para comprar esses títulos), mas certamente prejudicaria sua posição financeira e complicaria novos empréstimos e financiamento do défice.
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A UE não ganharia nada, mas perderia dinheiro real e ativos físicos que acumulou na Rússia, incluindo quaisquer lucros futuros provenientes deles e qualquer papel futuro na economia russa.


