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terça-feira, 27 janeiro, 2026

A Europa quer roubar a sua própria dívida

A deriva nazi da UE.

– …os investidores internacionais farão o possível para diminuir sua exposição a instrumentos de dívida da UE.

Dmitry Orlov [*]

Em 2022, a União Europeia congelou os fundos soberanos da Rússia. As estimativas variam, mas o total chega a cerca de US$ 300 mil milhões. Grande parte desse dinheiro está depositada no Euroclear, em Bruxelas, na Bélgica. Na situação atual, no final de 2025, os Estados Unidos pararam de financiar o buraco negro financeiro conhecido como Ucrânia. A União Europeia tentou assumir o controle, mas acabou não tendo dinheiro para isso.

Vários planos foram apresentados para fazer uso criativo dos fundos soberanos russos a fim de tapar o buraco negro. Até agora, nenhum deles se concretizou. O plano mais recente foi que o Banco Central Europeu emitisse empréstimos garantidos por fundos russos. Isso não só equivaleria a simplesmente imprimir dinheiro (já que a garantia não passa de um artifício), mas o Federal Reserve (Fed) dos EUA teria que aprovar um swap cambial dólar-euro. O euro, veja bem, não é uma moeda independente, mas uma espécie de extensão financeira do dólar americano. De qualquer forma, o Fed se recusou a fazê-lo e todo o plano fracassou.

Em todas as discussões sobre o assunto que vi até agora não encontrei nenhuma menção ao que realmente está a ser tentado. No cerne da questão está o fato de que os ativos russos não são dinheiro, mas dívida. Os ativos russos congelados consistem em instrumentos de dívida da UE [NR]. Ou seja, o governo russo comprou esses instrumentos de dívida e os depositou em custódia no Euroclear. Se a UE sumisse com esses instrumentos, isso seria um repúdio dessa dívida. Isso é fantástico — menos dívida! — mas onde está o dinheiro? Os membros da UE já gastaram o dinheiro que os russos lhes deram ao comprar esses instrumentos. Para realmente conseguir mais dinheiro a fim de enfiá-lo no buraco negro financeiro ucraniano, a UE teria que pedir emprestado — por exemplo, vendendo mais instrumentos de dívida, como deve ter adivinhado.

Agora, aprecie a natureza imbecil da postura da UE. A UE congela alguns fundos soberanos, enquanto aguarda a resolução de um conflito militar. Até aí, tudo bem, é uma prática normal. Mas esses fundos soberanos consistem em dívida da UE, e a UE está propondo tomar posse dessa dívida, na prática, recusando-se a pagá-la. Nesse ponto, os investidores internacionais farão o possível para diminuir sua exposição a instrumentos de dívida da UE. Os rendimentos dos títulos terão de subir para compensar, tornando ainda mais caro para a UE continuar operando com grandes défices fiscais.

Mas o que a UE conseguiu (além de aumentar as taxas de juros que tem de pagar sobre a sua dívida)? Ora, nada! Tem exatamente a mesma quantia de dinheiro com que começou, mas sofreu alguns danos significativos à sua reputação. Se ainda quiser enfiar mais dinheiro no buraco negro financeiro ucraniano, terá de o pedir emprestado — vendendo mais instrumentos de dívida, mas com um rendimento mais elevado. Será isso uma vitória para a UE? Não me parece!

Mas isso não é tudo. A Rússia não verá com bons olhos a UE sumir com os seus fundos soberanos. Na verdade, ela já tomou providências para confiscar valores equivalentes dos ativos da UE mantidos em bancos russos e nacionalizar os investimentos da UE na Rússia. Não se trata apenas de dinheiro real, e não de instrumentos de dívida, mas grande parte dessa riqueza está na forma de ações de empresas reais, atualmente sob propriedade da UE, que passariam para a propriedade do Estado russo, juntamente com instalações e equipamentos, funcionários, estoque e participação no mercado. Isso é uma vitória? Ainda acho que não!

Resumindo:

  1. A Ucrânia está à beira da ruína, com a derrota garantida na guerra, o exército desmoronando e o governo atolado em escândalos de corrupção. Investir mais dinheiro no buraco negro financeiro ucraniano seria simplesmente um desperdício.

  2. Os fundos soberanos russos congelados detidos pela Euroclear estão na forma de eurobônus. Se a UE roubasse esse dinheiro, estaria simplesmente se recusando a pagar US$ 300 mil milhões de sua própria dívida. Isso não lhe daria nenhum dinheiro (ela já gastou o dinheiro russo que foi usado para comprar esses títulos), mas certamente prejudicaria sua posição financeira e complicaria novos empréstimos e financiamento do défice.

  3. A UE não ganharia nada, mas perderia dinheiro real e ativos físicos que acumulou na Rússia, incluindo quaisquer lucros futuros provenientes deles e qualquer papel futuro na economia russa.

Talvez o grupo de especialistas da UE que elaborou este plano muito interessante para roubar o dinheiro da Rússia seja composto por agentes russos. Ou talvez sejam apenas um bando de idiotas. Você é que decide.

[NR] Os instrumentos primários de dívida da UE são:  1. EU Bonds/Securitization (são comprados por investidores institucionais, governos e outras entidades);   2. EU Guarantees (são garantias financeiras de empréstimos a fim de reduzir riscos para investidores ou credores);   3. Eurobonds (títulos hipotéticos que seriam emitidos pela UE como um todo, mutualizando a dívida);   4. Recovery Bonds (emitidos para planos de recuperação pós-Covid 19, como o Recovery and Resilience Facility);   5. Treasury Bills (instrumentos de dívida a curto prazo, usados habitualmente para a gestão de tesouraria no orçamento da UE).

08/Dezembro/2025

[*] Escritor, russo.

O original encontra-se em boosty.to/cluborlov/posts/d62d0834-98b4-4a5c-8754-f7925d6bbeab e a tradução em sakerlatam.blog/a-europa-quer-roubar-a-sua-propria-divida (efetuadas alterações).

Este artigo encontra-se em resistir.info

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