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Postado em 25/09/2021 10:21

A Eurásia toma forma: Como a SCO acaba de inverter a ordem mundial

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Os participantes da SCO de Dushanbe.

– Enquanto um Ocidente à deriva observava, a reunião no 20º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai foi focada a laser em dois resultados-chave concretos:   moldar o Afeganistão e desencadear uma integração euro-asiática de espectro total

Pepe Escobar [*]

Os dois momentos definidores da histórica cimeira do 20º aniversário da Organização de Cooperação de Shangai (SCO, na sigla em inglês), em Dushanbe, Tadjiquistão, foram os discursos chave dos – de quem mais poderia ser – líderes da parceria estratégica, a Rússia e a China.

Xi Jinping: “Hoje lançaremos os procedimentos para admitir o Irão como membro pleno do SCO”.

Vladimir Putin: “Gostaria de destacar o Memorando de Entendimento hoje assinado entre o Secretariado da SCO e a Comissão Económica Euro-asiática. Ele é concebido claramente para promover a ideia da Rússia do estabelecimento de uma Grande Parceria Euro-asiática que cubra a SCO, a EAEU (Eurasian Economic Union), a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e a Belt and Road Initiative (BRI) da China”.

Em suma, durante o fim de semana o Irã foi consagrado no seu legítimo e primordial papel eurasiano e todos os caminhos de integração da Eurásia convergiram rumo a um novo paradigma geopolítico – e geoeconomico – com um estrondo sónico que obrigatoriamente ressoará pelo resto do século.

Isto foi o segundo soco mortal imediatamente após a ignominiosa retirada imperial da Aliança Atlântica do Afeganistão. Assim que o Talibã assumiu o controle de Cabul em 15 de agosto, o formidável Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança da Rússia [1], disse ao seu colega iraniano, almirante Ali Shamkhani, que “a República Islâmica se tornará um membro pleno da SCO”.

Dushanbe revelou-se como a encruzilhada diplomática final. O presidente Xi rejeitou firmemente qualquer “lição condescendente” e enfatizou caminhos de desenvolvimento e modelos de governação compatíveis com as condições nacionais. Tal como Putin, ele enfatizou o foco complementar da BRI e da EAEU e, de facto, resumiu um verdadeiro Manifesto multilateralista para o Sul Global.

Indo diretamente ao ponto, o presidente Kassym-Jomart Tokayev, do Casaquistão, observou que a SCO deve avançar no “desenvolvimento de uma macroeconomia regional”. Isto é reflectido no impulso da SCO de começar a usar divisas locais para o comércio, contornando o dólar americano.

Preste atenção a esta quadrilateral

Dushanbe não foi apenas um mar de rosas. Emomali Rahmon do Tadjiquistão, um laico convicto de origem muçulmana e antigo membro do Partido Comunista da URSS – no poder por não menos de 29 anos, reeleito pela 5ª vez em 2020 com 90 por cento dos votos – logo no início denunciou a “sharia medieval” do Talibã 2.0 e disse que eles já haviam “abandonado a sua promessa anterior de constituir um governo inclusivo”.

Rahmon, que nunca foi apanhado a sorrir para a câmara, já estava no poder quando o Talibã conquistou Cabul em 1996. Ele estava destinado a apoiar seus primos tadjiques contra a “expansão da ideologia extremista” no Afeganistão – a qual de facto preocupa todos os estados membros da SCO quando se trata de esmagar jihadistas duvidosos confeccionados nos moldes do ISIS-K.

O cerne da matéria em Dushanbe esteve nos encontros bilaterais – e num quadrilateral.

Tome-se a bilateral entre o ministro dos Assuntos Externos da Índia, S. Jaishankar, e o da China, Wang Yi. Jaishankar disse que a China não deveria encarar “suas relações com a Índia através das lentes de um terceiro país” e fez esforços para enfatizar que a Índia “não subscreve qualquer teoria de choque de civilizações”.

Essa ideia era bastante difícil de vender considerando que a primeira cimeira Quad presencial acontece esta semana em Washington, DC, hospedada por esse “terceiro país” que agora está afundado no modo choque-de-civilizações contra a China.

O primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, esteve num registo bilateral, encontrando-se com os presidentes do Irão, Bielorússia, Usbequistão e Casaquistão. A posição diplomática oficial paquistanesa é que o Afeganistão não deveria ser abandonado e sim acoplado.

Essa posição acrescentou matizes ao que o Enviado Presidencial Especial Russo para Assuntos SCO, Bakhtiyer Khakimov, havia explicado acerca da ausência de Cabul na mesa da SCO: “Nesta etapa, todos os estados membros têm um entendimento de que não há razões para um convite até que haja um governo legítimo, geralmente reconhecido, no Afeganistão. E isto, confirmadamente, leva-nos à chave da reunião da SCO: uma quadrilateral com os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia, China, Paquistão e Irã.

O ministro paquistanês dos Negócios Estrangeilros, Qureshi afirmou: “Estamos a monitorar se todos os grupos são ou não incluídos no governo”. O cerne da matéria é que, a partir de agora, Islamabad coordena a estratégia da SCO no Afeganistão e intermediará as negociações Talibã com altos líderes tadjiques, usbeques e hazaras. Isto finalmente abrirá caminho rumo a um governo inclusivo reconhecido regionalmente pelos países membros da SCO.

O presidente iraniano, Ebrahim Raisi, foi calorosamente recebido por todos – especialmente após o tom poderoso do seu discurso, um Eixo da Resistência clássico. A sua bilateral com o presidente da Bielorússia, Aleksandr Lukashenko, girou em torno de uma discussão sobre “confrontação por sanções”. Segundo Lukashenko: “Se as sanções fizeram algum mal à Bielorússia, ao Irão, a outros países, foi só porque nós próprios fomos culpados por isto. Nem sempre negociámos, nem sempre encontrámos o caminho que tínhamos de tomar sob a pressão das sanções”.

Considerando que Teerã está plenamente informado acerca do papel de Islamabad na SCO em termos de Afeganistão, não haverá necessidade de implantar a brigada Fatemiyoun – informalmente conhecida como o Hezbolá afegão – para defender os hazaras. A Fatemiyoun foi formada em 2012 e atuou na Síria no combate contra o Daesh, especialmente em Palmira. Mas se o ISIS-K não desaparecer, a história será completamente diferente.

De particular importância para o Irã e a Índia, membros da SCO, será o futuro do porto de Chabahar. Isso permanece o gambito cripto-Estrada da Seda da Índia a fim de conectá-la ao Afeganistão e à Ásia Central. O êxito geoeconomico de Chabahar depende mais do que nunca de um Afeganistão estável – e é aqui que os interesses de Teerã convergem plenamente com os desejos da Rússia e da China na SCO.

Aquilo que a Declaração de Dushanbe 2021 da SCO explicitou acerca do Afeganistão é bastante revelador:

  1. O Afeganistão deveria ser um estado independente, neutro, unido, democrático e pacífico, livre de terrorismo, guerra e drogas.
  1. É crítico ter um governo inclusivo no Afeganistão, com representantes de todos os grupos étnicos, religiosos e políticos da sociedade afegã.
  1. Os estados membros da SCO, enfatizando a significância dos muitos anos de hospitalidade e assistência efectiva dada pelos países regionais e vizinhos a refugiados afegãos, consideram importante para a comunidade internacional efetuar esforços ativos a fim de facilitar o seu retorno digno, seguro e sustentável à sua pátria mãe.

Ainda que isto possa soar como um sonho impossível, esta é a mensagem unificada da Rússia, China, Irão, Índia, Paquistão e “estões” da Ásia Central. Alguns esperam que o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, esteja à altura da tarefa e pronto para atuar em estreita aproximação com a SCO.

Aquela perturbada península ocidental

As Novas Estradas da Seda foram oficialmente lançadas há oito anos por Xi Jinping, primeiro em Astana – agora Nur-Sultan – e depois em Jacarta.

Foi assim que relatei na altura.

O anúncio foi feito perto de uma cimeira da SCO – depois em Bishkek. A SCO, amplamente desprezada em Washington e Bruxelas como uma mero clube de conversas, já estava a ultrapassar o seu mandato original de combater as “três forças do mal” – terrorismo, separatismo e extremismo – e a abranger a política e a geoeconomia.

Em 2013, houve uma trilateral Xi-Putin-Rouhani. Pequim manifestou total apoio ao programa nuclear pacífico do Irã (recorde-se, isto foi dois anos antes da assinatura do Plano de Ação Global Conjunto, também conhecido como JCPOA).

Apesar de muitos peritos o terem rejeitado na altura, havia de facto uma frente comum China-Rússia-Irã na Síria (Eixo da Resistência em ação). Xinjiang estava a ser promovido como o eixo chave para a Ponte Terrestre Eurasiática. O Pipelineistão estava no centro da estratégia chinesa – do petróleo do Cazaquistão ao gás do Turquemenistão. Algumas pessoas podem mesmo lembrar-se de quando Hillary Clinton, como secretária de Estado, estava a tornar-se lírica acerca de uma Nova Rota da Seda de propulsão americana.

Agora compare-a com o Manifesto de Multilateralismo de Xi em Dushanbe oito anos depois, recordando como a SCO “provou ser um excelente exemplo de multilateralismo no século XXI” e “tem desempenhado um papel importante no reforço da voz dos países em desenvolvimento”.

A importância estratégica desta cimeira da SCO que teve lugar logo após o Fórum Económico Oriental (EEF) em Vladivostok não pode ser sobrestimada o suficiente. O EEF concentra-se, evidentemente, no Extremo Oriente russo – e essencialmente avança a interconectividade entre a Rússia e a Ásia. É um centro absolutamente fundamental da Parceria da Grande Eurásia da Rússia.

Uma cornucópia de negócios está no horizonte – expandindo-se desde o Extremo Oriente até o Árctico e o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte, e envolvendo tudo, desde metais preciosos e energia verde até à soberania digital fluindo através de corredores logísticos entre a Ásia e a Europa via Rússia.

Como sugeriu Putin no seu discurso principal, é disto que trata a Parceria da Grande Eurásia: a União Economica da Eurásia (Eurasia Economic Union, EAEU), BRI, a iniciativa da Índia, a ASEAN e agora a SCO, desenvolvendo-se numa rede harmonizada, operada de forma crucial por “centros de decisão soberanos”.

Assim, se o BRI propõe uma muito taoísta “comunidade de futuro compartilhado para a espécie humana”, o projecto russo, conceptualmente, propõe um diálogo de civilizações (já evocado há anos Khatami no Irão) e projetos soberanos economico-políticos. Eles são, de facto, complementares.

Europe as Western Peninsula of Greater Eurasia.

Glenn Diesen, Professor na Universidade do Sudeste da Noruega e editor da revista Global Affairs da Rússia, está entre os poucos académicos de topo que estão a analisar este processo em profundidade. O seu último livro conta de forma notável toda a história no seu título: A Europa como a Península Ocidental da Grande Eurásia: Regiões Geoeconomicas num Mundo Multipolar ( Europe as the Western Peninsula of Greater Eurasia: Geoeconomic Regions in a Multipolar World). Não está claro se os eurocratas em Bruxelas – escravos do atlantismo e incapazes de compreender o potencial da Grande Eurásia – acabarão por exercer uma real autonomia estratégica.

Diesen evoca em pormenor os paralelos entre as estratégias russas e chinesas. Observa como a China “está a perseguir uma iniciativa geoeconomica de três pilares, desenvolvendo a liderança tecnológica através do seu plano China 2025, novos corredores de transporte através da sua Iniciativa Belt and Road de um milhão de milhões de dólares e do estabelecimento de novos instrumentos financeiros tais como bancos, sistemas de pagamento e a internacionalização do yuan. A Rússia está igualmente a perseguir a soberania tecnológica, tanto na esfera digital como para além dela, assim como novos corredores de transporte, tais como a Rota do Mar do Norte através do Árctico e, primariamente, novos instrumentos financeiros”.

 

Todo o Sul Global, atónito com o colapso acelerado do Império Ocidental e da sua ordem unilateral baseada em regras, parece agora estar pronto para abraçar o novo sulco, exibido plenamente em Dushanbe: uma Grande Eurásia multipolar de iguais soberanos.

[1] Ver Uma reação em cadeia caótica, entrevista de Nikolai Patrushev

Ver também:

A Letter to the Taliban, Dr. Ejaz Akram, c/ Pepe Escobar, 22/Set/21

[*] Jornalista. Alguns dos seus livros encontram-se aqui.

O original encontra-se em thecradle.co/Article/analysis/2104

Este artigo encontra-se em resistir.info

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