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Haiti

Postado em 10/07/2021 10:22

A estranha (ou talvez não tanto) participação de mercenários estrangeiros no assassinato do presidente do Haiti

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Suspeitos de assassinar Jovenel Moïse frente a armas, munições e outros materiais apreendidos (Reprodução)
Polícia local confirmou a participação de 28 pessoas no crime, das quais 26 são colombianos e 2 são estadunidenses que também possuem nacionalidade haitiana. Em 2020, foram denunciados dois planos de magnicídio com uso de mercenários dos EEUU, na Venezuela e na Bolívia – o primeiro fracassou, o segundo não chegou a ser executado

O governo do Haiti confirmou nesta quinta-feira (8/7) que há 28 pessoas vinculadas ao assassinato do presidente Jovenel Moïse, ocorrido no dia anterior. Segundo as autoridades locais, o mais chamativo é que todos eles seriam cidadãos estrangeiros.

O investigador Leon Charles, diretor-geral da Polícia de Porto Príncipe, revelou as informações em uma entrevista que foi transmitida em cadeia nacional. Ele explicou que 17 pessoas foram presas nas últimas 30 horas, por seu possível envolvimento com o caso. Entre os detidos, 15 são cidadãos colombianos e dois são estadunidenses que também contam com cidadania haitiana.

Charles também revelou o nome de um desses suspeitos: James Solages, estadunidense com nacionalidade haitiana, é apontado, até o momento, como o provável líder do grupo que realizou o magnicídio.

Além de Solages e dos demais 16 indivíduos capturados nas últimas horas, a Polícia de Porto Príncipe informou que outras 7 pessoas consideradas suspeitas de participação no homicídio de Moïse terminaram sendo mortas a tiros durante os operativos de detenção. Também há 4 indivíduos que ainda estão foragidos.

“Estamos trabalhando para levar os responsáveis à Justiça”, declarou o investigador durante a entrevista, rechaçando as críticas de que existe um possível atuar vingativo por parte da sua polícia.

Todos os 7 falecidos eram de nacionalidade colombiana, assim como os 4 fugitivos, o que, somados aos 15 detidos, eleva a 26 o total de pessoas provenientes do país sul-americano supostamente envolvidas no crime.

O magnicídio de Moïse

Jovenel Moïse tinha 53 anos e era presidente do Haiti desde 2017. Seu assassinato acontece a menos de três meses das eleições presidenciais do país, marcadas para o dia 26 de setembro, nas quais ele disputaria a reeleição.

O magnicídio ocorreu na madrugada de quarta-feira (7/7), quando um grupo de homens armados invadiu sua residência particular e o matou com 12 tiros. A primeira-dama, Martine Moïse também foi baleada e se encontra hospitalizada e em estado grave – horas depois do ataque, ela foi levada em avião-ambulância até a cidade de Miami, onde permanece internada.

Venezuela e a Operação Gideon

A participação de mercenários no magnicídio de Jovenel Moïse chama a atenção. O acontecimento em si marca o primeiro caso do tipo desde a morte de Salvador Allende, em 1973 – embora o então presidente do Chile tenha se suicidado, segundo a versão oficial, o gesto ocorreu em meio a um golpe de Estado violento, que envolveu o bombardeio do Palácio de La Moneda por parte da Força Aérea chilena.

Entretanto, em 2020 houve dois planos que poderiam ter levado o caso haitiano a não ser o primeiro deste século.

Em maio do ano passado, um grupo de mercenários (novamente, estadunidenses e colombianos) tentou invadir a costa da Venezuela por via marítima, em um plano cujo objetivo era ir até Caracas e assassinar o presidente Nicolás Maduro.

Os terroristas não contavam com que um grupo de pescadores atacasse suas embarcações, colaborando com as forças militares, o que levou a invasão a um fracasso absoluto.

Os envolvidos confessaram formar parte de um plano chamado “Operação Gideon”, o qual teria sido preparado pela empresa militar estadunidense Silvercorp, que os selecionou.

Em uma reportagem para a CNN, dias depois da desastrada missão, os responsáveis pela Silvercorp disseram que quem contratou o serviço foi Juan José Rendón, um venezuelano que vive em Miami, onde trabalhava, naquele então, como assessor de Juan Guaidó, o líder da oposição mais raivosa ao governo venezuelano.

O fracasso da “Operação Gideon” foi o começo do declínio para Guaidó, que perdeu seu cargo na Assembleia Nacional da Venezuela em dezembro do mesmo ano – o parlamentar decidiu não concorrer a eleição legislativa e pregar um boicote ao pleito, o que terminou sendo mais um plano mal sucedido em seu currículo. Sem cargo, ele também ficou sem qualquer base argumentativa para sustentar sua versão de que era o “presidente interino” do país, relato no qual insistia desde janeiro de 2019.

Direita boliviana contra Arce

Outro caso semelhante quase aconteceu na Bolívia, em outubro de 2020. É o que assegura uma reportagem publicada pelo The Intercept no dia 18 de junho revelando que líderes da direita do país andino, frustrados com a devastadora derrota eleitoral que sofreram naquele então – quando Luis Arce foi eleito no primeiro turno, com mais de 55% dos votos –, planejaram uma operação secreta para impedir que o vencedor assumisse o cargo.

A vitória de Arce representou a volta ao poder do MAS (Movimento Ao Socialismo), o partido que governou a Bolívia durante 13 anos, com o presidente Evo Morales. O principal candidato da direita, o jornalista Carlos Mesa, ficou com apenas 28%.

Esse resultado também significou que o povo boliviano, em sua maioria, condenou o golpe de Estado de 2019 e o grupo que tomou o poder pela força naquele então. Tanto é assim que, além de vencer as presidenciais, o MAS também garantiu uma clara maioria no parlamento.

Diante desse cenário desastroso, o grupo político que chegou ao poder com o golpe preparou uma estratégia para não ter que entregar o poder aos eleitos. O responsável por colocar o plano em prática foi Luis Fernando López, então ministro da Defesa do regime de Jeanine Áñez, a presidenta imposta no poder pelos militares bolivianos, em novembro de 2019.

A matéria do The Intercept inclui áudios, e-mails e documentos que comprovam a contratação de um grupo de mercenários norte-americanos, através de uma empresa com sede em Miami, para que realizassem uma ação militar e impedissem a posse de Arce.

Segundo o texto dos jornalistas Laurence Blair e Ryan Grim, “vários dos conspiradores discutiram o envio de centenas de mercenários estrangeiros para a Bolívia, a partir de uma base militar estadunidense nas proximidades de Miami. Em La Paz, eles se reuniriam com grupos de militares e de policiais aposentados, todos fieis à direita boliviana e convencidos de que era preciso evitar o retorno da esquerda”.

O plano também contou com o apoio do então ministro de governo, Andrés Murillo, que foi recentemente detido nos Estados Unidos, devido ao seu envolvimento em casos de corrupção. No final, a operação nunca foi executada, mas tampouco apagou as evidências de sua planificação.

Acreditar em bruxas

Por enquanto, são três casos: um na Venezuela, que terminou fracassando, outro na Bolívia, que não chegou a ser executado, e um terceiro no Haiti, que aconteceu e teve sucesso. Os três são ligados pela utilização de mercenários e pela participação de empresas ou de cidadãos dos Estados Unidos e da Colômbia, com os estadunidenses encabeçando os planos.

Mas, por enquanto, todos esses elementos são apenas coincidências, não há evidência clara de que exista uma ligação entre eles.

Sobre a ligação do governo estadunidense com esses planos, existe apenas uma questão: no caso da Operação Gideon, sabe-se – também graças a reportagens publicadas na imprensa dos Estados Unidos – que a empresa Silvercorp, que apoiou a fracassada invasão de mercenário à Venezuela, trabalhou escalando pessoal de segurança para eventos de campanha eleitoral de Donald Trump. O que, ainda assim, continua dentro do campo das coincidências.

O problema é que já são três coincidência em apenas 15 meses. Um prato cheio para aqueles que não acreditam em bruxas, pero…

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