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Postado em 10/05/2021 10:14

A CPI da Pandemia: parábolas de Aparecida

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José Bessa Freire

“É preciso lucidez e coragem para aplaudir o teu adversário, quando ele enfrenta um inimigo comum de vocês dois” (Severino Pão-Duro. 1958)

… Dias depois, entrando Severino Pão-Duro em Cafarnaum, o povo logo soube e veio ao seu encontro, acompanhado de um centurião…

Epa! Desculpem. Foi mal. Errei. Severino não entrou naquele pequeno vilarejo bíblico às margens do mar da Galileia, que sediava uma sinagoga, a casa da sogra de Pedro apóstolo e o último domicílio de Jesus. Ele entrou foi no bairro de Aparecida, em Manaus, onde já ocorreram vários milagres. Daí a confusão. Nas noites calorentas, as famílias colocavam cadeiras nas calçadas e narravam os milagres em forma de parábola. Uma delas permite que nos situemos diante dos membros da CPI da Pandemia, mas antes de relatá-la, torna-se necessário definir os dois personagens principais.

O primeiro deles parecia irmão gêmeo do Patativa do Assaré: Severino Pão-Duro, jovem cearense de Quixeramobim, migrou para um seringal do Amazonas e se alistou, em plena II Guerra Mundial, como soldado da borracha. Depois, fixou residência na rua Xavier de Mendonça com mulher e a penca de filhos. Tinha duas paixões: futebol e política. Torcedor doente do Milionários, o time lá do Plano Inclinado, ele arrumou um emprego de gari para o Nego Geraldo, um goleiro elástico que voava com seu corpo de borracha. Era também cabo-eleitoral fanático do candidato a governador Paulo Nery (UDN, vixe, vixe), duas vezes derrotado pelo PTB: em 1958 por Gilberto Mestrinho e em 1962 por Plinio Coelho.

O outro personagem é Raimundo, o patriarca da família Paixão, com sua enxurrada de filhos. Bom de porrada. Morador antigo do bairro, dominava um amplo território, que ia da Bandeira Branca, passava pela rua das Flores, adentrava a fronteira da Gustavo Sampaio e do beco Carolina Neves. Além do nome de família, tinha duas paixões: política e futebol. Era um exaltado cabo eleitoral do PTB (vixe) e ardoroso torcedor do Independência Football Club. O goleiro Toinho, seu filho, costumava amarrar um lenço vermelho na rede do gol para não deixar passar nem mosquito ensebado.

As brigas

Havia ali todos os ingredientes para acirrar o antagonismo entre as duas famílias, especialmente em época de eleição e nos dias de jogo entre as duas equipes rivais. Parecia até briga de cachorro de rua, eles se embolavam e se engalfinhavam, envolvendo de cada lado os filhos, genros e vizinhos. A guerra entre os Filisteus e os Hebreus era café pequeno.

Do lado da família Pão-Duro entravam os filhos e filhas: Bira, João Cará, Tarsila, Lourdes, Maria, Lourinho, Zequinha, Osmar, Mário. No outro lado, o velho Paixão e seus filhos e genros Olavo, Toinho, Zé Arthur, Mundiquinho, Getúlio e outros mais, alguns deles estão vivos e não me deixam mentir. Ou deixam?

Eis que na decisão de um torneio no campo do Hore, o jogo terminou empatado. Houve prorrogação. O empate continuou. O sino da igreja badalou a hora do Ângelus. Escurecia. O campo não tinha iluminação. O desempate foi feito com cobrança de pênaltis, que se sucediam sob a luz resplandecente de uma lua cheia. Os dois goleiros pulavam como gatos e faziam milagres. Até que um atacante do Independência, não sei se Melado ou o Quinha, aproveitou uma nuvem que escondia a lua e deu o xeque mate. O Milionários perdeu. Os torcedores promoveram quebra-quebra. Houve intervenção da polícia.

Independência, por ser campeão, disputaria a Taça Amazônia com um time paraense em duas partidas, uma em Manaus, outra em Belém.  Acontece que na briga quebraram o braço do goleiro Toinho. Foi aí que se operou o milagre não no mar da Galileia, não no rio Jordão, mas no igarapé de São Vicente, conhecido como “bosteiro”. Não foi a cura da fratura do osso. Não foi um milagre ortopédico. Uma parábola de Aparecida registrou o fato.

O milagre

… Dias depois, entrando Severino Pão-Duro na rua Bandeira Branca, o povo logo soube e veio ao seu encontro, acompanhado de um centurião… Era um soldado da polícia enviado por Raimundo Paixão. Vinha em missão de paz. Estava cercado por samaritanos caridosos e por fariseus hipócritas, que viviam fofocando na banca de tacacá da dona Alvina.

Severino Pão-Duro, que havia acabado de sair da novena na igreja de Aparecida, os recebeu com o slogan do seu eterno candidato:

– É Paulo, é Pinto, é Neri, é ele que você prefere.

Em seguida entoou o hino do seu time, inspirado no Milionários de Bogotá, exaltando “a camisa azul de glória, que sabemos honrar”.  A comitiva queria que Severino autorizasse o empréstimo de três jogadores do Milionários, entre eles o goleiro Nego Geraldo. Severino concordou, mas foi bastante claro: era apenas uma trégua necessária por se tratar de uma disputa com os paraenses contra quem o bairro se unia. Ele advertiu que não estava pedindo penico. As divergências políticas e futebolísticas continuavam. Definiu a situação com a frase registrada na parábola que circula nos becos de Aparecida:

– É preciso lucidez e coragem para aplaudir o teu adversário, quando ele enfrenta um inimigo comum de vocês dois.

E aqui entramos na CPI da Pandemia. A parábola do Severino Pão Duro me leva a encarar um ex-morador do bairro de Aparecida, o senador Omar Aziz (PSD), um descendente de árabes nascido em Garças (SP) no meio de um cafezal. Ele migrou para o Amazonas. Sabe a Vanilda, irmã da Vaneide, esposa do César Bandeira? Pois é. Foi na casa dela que Omar Aziz morou quando era um estudante pobre de engenharia na Universidade Federal do Amazonas e militava no PCdoB.

A lição do Pão-Duro

Depois disso, Omar passou por sete partidos (vixe-vixe) e se elegeu para cargos no legislativo e no executivo. Ele é um adversário que quando vereador ameaçou publicamente dar uns cascudos no autor da coluna Taquiprati, pelas inúmeras e constantes críticas que lhe foram feitas.

No entanto, nas últimas duas semanas, Omar vem presidindo a CPI da Pandemia com sobriedade, firmeza e astúcia, mantendo o foco nos crimes cometidos pelo governo genocida. Parece que não foram em vão os ensinamentos do comandante Eronildo Bezerra e da companheira Vanessa Graziottin.

Seguindo as diretrizes do Severino Pão-Duro, damos total apoio aos senadores Randolfe Rodrigues, Omar Aziz e Renan Calheiros nesta luta insana contra os cloroquinados covidiotas, defensores da imunidade de rebanho causadora de 420 mil mortes pelo coronavirus. Milhares de brasileiros não poderão homenagear suas respectivas mães nesse segundo domingo de maio porque ou elas ou eles morreram nessa pandemia.

Na CPI, o futuro do Brasil está em jogo. Ela pode contribuir para nos tirar desse atoleiro onde estamos: o país do Jair e do Jairinho, das chacinas como a da favela do Jacarezinho, de mortes de negros trabalhadores e pobres, da vergonha que sentimos cada vez que o genocida abre a boca. Ficamos vigilantes, na torcida para que Omar não mude o rumo da nau.

P.S. – Égua! Elogiar o Omar? Mudou o natal ou mudei eu? – pergunta o velho Machado de Assis. É isso mesmo. Severino Pão-Duro, o Maquiavel do bairro de Aparecida, emprestou o goleiro para o seu maior rival com o objetivo de derrotar o time paraense. Derrotou. O Nego Geraldo fechou o gol. O Milionários participou indiretamente da vitória. Então, por que nós não podemos emprestar as nossas elásticas palavras – uma gotinha d’água no oceano – para o Omar e Renan Calheiros derrotarem o Capiroto?  Ainda mais que está lá o criador da CPI Randolfe Rodrigues, digno de toda admiração.

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