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terça-feira, 30 junho 2026

Cartas habaneras (LXII)

Emiliano José

Víctor Dreke já não estava mais em Cuba quando os bandidos foram derrotados de modo definitivo na região de Escambray. 

Estava no Congo, lado a lado com Ernesto Che Guevara.

Já falamos um bocado daquela luta. 

Talvez, modo a facilitar a vida dos leitores, das leitoras, cabe fazer uma síntese. 

A luta transcorreu entre 1959 e 1965.

Não foi rápida, como se vê. 

Batalha essencial. 

Os EUA haviam apostado alto no financiamento, no armamento dos bandidos. 

Ela se deu principalmente na região montanhosa de Sierra de Escambray. 

O contingente de bandidos era constituído principalmente por anticomunistas inconformados com a vitória dos revolucionários liderados por Fidel Castro, muitos ex-soldados de Batista e por setores agrários insatisfeitos com as medidas da Revolução.

Os EUA viram naquela movimentação uma chance para derrotar Castro e camaradas dele. 

A CIA envolveu-se na batalha, orientada pelo governo Eisenhower, tudo isso no embalo da Guerra Fria. 

O imperialismo norte-americano via naquela movimentação um ponto de apoio à planejada invasão da Baía dos Porcos, como é conhecida Playa Girón, ocorrida em 1961. Por isso, a CIA entrou pra valer na fase inicial. Acontece batalha memorável, e Fidel Castro e Che à frente, derrotam os mercenários organizados pelos EUA, e o império norte-americano teve de mudar de planos. 

Desde lá, um perverso bloqueio econômico é praticado pelos EUA, levado ao paroxismo nos últimos tempos pelo presidente Donald Trump, e um incontável número de atentados contra Fidel Castro e contra Cuba, mal-sucedidos. 

As vitórias da Baía dos Porcos e de Sierra de Escambray foram decisivas para a afirmação da Revolução Cubana. Antes de encerrada a luta de Escambray, Cuba já se afirmara socialista, e o fizera pelas palavras de Castro logo após Baía dos Porcos, em 16 de abril de 1961. 

Há quem queira creditar tal decisão às agressões do império norte-americano. Melhor relativizar isso, e atribuir a proclamação em favor do socialismo às convicções do próprio Fidel e camaradas mais próximos. 

Não iriam fazer uma revolução como aquela, de tal dimensão, para entregar os destinos de Cuba à lógica imperialista.

Com as duas vitórias, fazia-se uma limpeza de área. Há uma aproximação da União Soviética. Não se queira, no entanto, atribuir as muitas, inumeráveis conquistas da Revolução Cubana apenas a tal aliança. Foram consequência, isso, sim, da nitidez de objetivos revolucionários dos dirigentes, das convicções socialistas deles. 

Tal orientação programática assegurou melhoria substancial nas condições de vida do povo, garantiu saúde e educação pública a toda a população, plantou alicerce anti-imperialista nas barbas dos EUA, difundiu um sólido pensamento nacionalista, patriótico, a garantir sustentação à Revolução até os dias atuais, não obstante as inúmeras dificuldades vividas pelo país, decorrentes da brutal tentativa de estrangulamento da nação pelos EUA, seguindo orientação agora do atual presidente Donald Trump. 

Víctor Dreke participou intensamente, como já revelado, da luta contra os bandidos, sendo um dos comandantes dela. Foi até quase o fim daquela batalha. Já se disse: foi batalha sangrenta, e complexa. Os revolucionários tiveram de se valer de muitos estratagemas para derrotar os bandidos. Infiltrar revolucionários entre eles para garantir informações seguras, de modo a poder derrotá-los. 

É o próprio Dreke a revelar isso. Houve manobras arriscadas, porém necessárias. Como, numa delas, vitoriosa, fazer crer aos bandidos estarem sendo retirados de Cuba para chegar aos EUA, e no caminho, serem levados ao cárcere. 

Uma dessas histórias é contada no filme “El hombre de Maisinicú”, a contar a trajetória de Alberto Delgado, homem de Segurança da Revolução, e cuja ousadia o fizeram infiltrar-se entre os contrarrevolucionários. Acabou caindo no cumprimento do dever.

Ele havia se infiltrado entre os bandidos de Escambray, conseguido passar muitas informações aos revolucionários. Descoberto pelos contrarrevolucionários, foi brutalmente assassinado em 29 de abril de 1964, na Fazenda Maisinicú.  Até hoje, Cuba lhe rende homenagens. 

Um pouco antes, março daquele ano, Delgado, como suposto bandido, convence o dirigente contrarrevolucionário Julio Emilio Carretero a seguir numa embarcação, rumo aos EUA. Maneira de preservá-los e garantir pudessem, desde o império norte-americano, seguir com as investidas contra a Revolução. 

Tudo acertado, combinado, Carretero e os homens dele se dirigiram ao local de embarque do navio a levá-los aos EUA. Ao embarcarem, levam um susto: a embarcação, tripulada por soldados e oficiais das Forças Armadas da Revolução. Todos presos, e condenados posteriormente. 

Um dos dirigentes dos bandidos, ainda em Escambray, José (Cheíto) León, recebe a informação do papel de Delgado naquela operação, e o executa. 

Víctor Dreke rende tributo aos revolucionários cujas convicções e ousadia levaram-nos a infiltrar-se em hostes contrarrevolucionárias. 

Fala de Alberto Delgado e tantos outros. Há o caso de Antonio Santiago García, mais conhecido como Tony Santiago, sob cujo comando ele próprio, Dreke, esteve no decurso da guerra revolucionária, antes de 1959. 

Após o triunfo da Revolução, Santiago recebe a difícil, arriscada missão de infiltrar-se em grupos contrarrevolucionários financiados pela CIA. Passa a fingir ser contra o governo cubano. Ele desertou já em outubro de 1959. 

Oficialmente, rompia com a Revolução, única maneira de se infiltrar nos grupos anticomunistas, dedicados à luta terrorista contra a Ilha. 

Em janeiro de 1961, Tony Santiago dirigia-se a Cuba, já conhecido como inimigo da Revolução Cubana, navegando no Mar do Caribe, no barco “El Pensativo”.

Iria assumir o posto de chefe máximo das tropas contrarrevolucionárias de Escambray, tal e qual a CIA havia determinado, ele já um homem de confiança da agência. Piratas contrarrevolucionários atacaram “El Pensativo”, e o afundaram, certamente sem conhecer das tarefas a ele confiadas, e nesse ataque ele foi morto. É reconhecido como um dos heróis da Revolução. 

– Aquí a muchos de estos compañeros se les rechazaba. Nadie sabía de nada, ni tu papá, ni tu mamá, ni la mulher sabía nada. Así que no les podia hacer ni una seña siquiera, porque era tu vida y la misión que peligraban. Y así hubo muchos que no supieron que estos compañeros estaban trabajando en secreto para la Seguridad del Estado. Me imagino la alegría de estas famílias y de otros cuando sabían la verdade. 

Em julho de 1987, a televisão cubana começou a transmitir uma série intitulada “La guerra de la CIA contra Cuba”. Nela, revelava-se nomes de 89 agentes da CIA. Todos haviam trabalhado na Ilha, acreditados como diplomatas norte-americanos. 

Com 11 episódios, seguiu até o ano seguinte, 1988. Revela, também, a identidade de 27 membros da Segurança do Estado cubano, dedicados ao papel de agentes do império norte-americano, sofrendo o escárnio de familiares, amigos, companheiros de trabalho e vizinhos. 

Logo após a revelação da tarefa a eles confiada, e cumprida com rigor, os 27 revolucionários foram reconhecidos como tais, e tratados como heróis pelo povo cubano.  

Víctor Dreke testemunhou divisões familiares em Escambray. Revolucionários e contrarrevolucionários numa mesma família. Houve um caso a impressioná-lo de forma a nunca mais esquecer o episódio. 

Um irmão, Rigoberto Tartabull Chacón, era um dos dirigentes dos bandidos, dedicado à luta contrarrevolucionária. 

Um irmão dele, Lucas Tartabull,  era revolucionário, voltado à luta em defesa dos camaradas de Fidel Castro e Che Guevara, envolvido de corpo e alma na luta contra os bandidos, em Escambray, chegando a chefe de companhia. 

Chacón escapou de uma ofensiva dos revolucionários. Na última operação contra ele, foi dito ao irmão:

– Oye, no te metas em eso. 

Sabiam: daquele operação podia resultar a morte do irmão dele. 

Lucas, insistiu: 

– Yo tengo que ir a la operación.

Dreke lembra da insistência para que ele não fosse.

Ele não chocou com o irmão, cuja morte ocorreu nessa operação, em 23 de agosto de 1963.

Mas queria de todo modo participar daquela operação. 

Dreke explica:

– Su madre era una negra revolucionaria, que no entendia por quê su hijo estaba con los bandidos y no con el resto de la família, que eran todos revolucionarios. 

Vários irmãos, a própria mãe, toda a família envolvida com a Revolução Cubana e com a batalha contra os bandidos. 

A mãe não entendia, os irmãos não aceitavam, e por isso Lucas quis muito participar da operação. Não foi testemunha do momento da morte dele, mas soube: o irmão, daquela vez, foi morto pelas forças revolucionárias, sem que houvesse lamento da parte de Lucas. 

No depoimento de Víctor Dreke, explica-se por que os contrarrevolucionários de Escambray resistiram tanto. Recebiam apoio decisivo do imperialismo norte-americano. Não se diz isso como se tratasse de uma consigna, palavra de ordem. Não. Afirma-se porque absolutamente verdadeiro. 

As armas, chegadas dos EUA. 

Na primeira etapa, receberam enorme quantidade de armas provenientes do império, sobretudo metralhadoras calibre .30 e mais uma variedade de armamentos. 

Um fluxo contínuo de armas chegando dos EUA. 

No curso da luta, os revolucionários apreenderam uma ponderável quantidade de armas, mas muitas delas restaram escondidas, a permitir a continuidade do trabalho contrarrevolucionário por todos aqueles anos. 

Armas chegavam por avião ou barco. 

Uma grande quantidade entrou pela costa, especialmente pela zona de Sagua la Chica e Corralillo. 

Houve uma etapa, na lembrança de Dreke, de desconhecimento de uma traição: o chefe da Marinha de Guerra na zona de Sagua la Grande, tenente Ramos, trabalhava contra a Revolução. A direção revolucionária não desconfiava dele. 

Uma das responsabilidades dele era patrulhar as costas marítimas, e ele não patrulhava nada, propositadamente, de modo a deixar as portas abertas para o desmesurado ingresso de armas. 

Um dia, Ramos tomou de uma lancha e fugiu de Cuba. Aí, então, se soube a real posição dele. 

Os bandidos de Escambray contavam com agentes em Cuba. Com organizações contrarrevolucionárias nas cidades, através das quais eles recebiam dólares enviados pelos EUA.

Dreke:

– Entonces la ayuda que los bandidos tuvieron del exterior, del gobierno de Estados Unidos, fue fundamental para su conducta asesina y para que duraran el tempo que lograron sobrevivir.

Mas, ao fim e ao cabo, os bandidos foram derrotados. 

Cuba mandou os malditos embora.   

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