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sábado, 18 abril 2026

Coronel Meira e a política do passado que insiste em sobreviver no presente

Foto: divulgação/Assessoria de Imprensa do Deputado

Por Wagner França

O deputado federal Coronel Meira não é apenas mais um nome no Congresso Nacional. Ele representa, de forma bastante nítida, um tipo de política que muitos acreditavam estar em declínio, mas que segue encontrando espaço e ressonância: a política da força, do confronto e da simplificação extrema da realidade.

Oriundo das forças de segurança e eleito pelo Partido Liberal, Meira construiu sua imagem pública a partir de um discurso rígido, centrado na ideia de autoridade e combate. Esse perfil, por si só, não é novo na política brasileira. O que chama atenção, no entanto, é como esse modelo se apresenta hoje: menos como proposta concreta de gestão pública e mais como uma performance permanente de enfrentamento.

Ao longo de sua atuação parlamentar, o deputado tem reiterado uma retórica que privilegia a violência simbólica como linguagem política. Em momentos de tensão, chegou a afirmar que resolveria conflitos “no braço” dentro da Câmara e “na bala” fora dela. Não se trata apenas de uma frase de efeito ou de um excesso retórico. Esse tipo de declaração revela uma concepção de mundo em que o diálogo é substituído pela imposição, e a divergência política passa a ser tratada como ameaça a ser eliminada.

Essa lógica se estende ao modo como o parlamentar aborda temas centrais, como a segurança pública. Em vez de reconhecer a complexidade estrutural da violência — que envolve desigualdade, ausência de políticas sociais e falhas institucionais —, o discurso de Meira recorre a fórmulas simplificadoras, frequentemente baseadas no endurecimento penal e na ampliação do uso da força. É uma visão que encontra eco em parte da sociedade, mas que, ao mesmo tempo, ignora princípios fundamentais do Estado democrático de direito.

Nesse contexto, suas posições já foram alvo de críticas por especialistas e setores da sociedade civil, especialmente quando associadas a discursos que podem ser interpretados como excludentes ou insensíveis às desigualdades históricas do país. Ainda que nem sempre formuladas de maneira direta, essas abordagens reforçam uma lógica de divisão social que pouco contribui para soluções inclusivas e duradouras.

Mas talvez o aspecto mais revelador da atuação de Coronel Meira esteja nas suas contradições. Ao mesmo tempo em que adota um discurso de enfrentamento contra instituições e limites legais, recorre a essas mesmas estruturas quando se vê diretamente impactado por decisões que restringem sua atuação. Essa relação ambígua não é exclusiva dele, mas se torna mais evidente em figuras cuja retórica é construída justamente sobre a negação ou o tensionamento dessas instituições.

Há também um descompasso entre visibilidade e efetividade. Embora seja presença constante em debates acalorados e episódios de confronto, sua atuação levanta questionamentos sobre a capacidade de transformar discurso em política pública concreta. O protagonismo no embate nem sempre se traduz em avanços legislativos consistentes ou em iniciativas que impactem de forma positiva a vida da população.

Nesse sentido, Coronel Meira passa a simbolizar algo maior do que sua própria trajetória individual. Ele se insere em um movimento político mais amplo que aposta na radicalização como estratégia e na simplificação como método. É uma política que mobiliza pelo medo, pela indignação e pela promessa de ordem imediata, mas que frequentemente se mostra limitada diante da complexidade dos problemas reais.

Chamar esse modelo de “ultrapassado” não é apenas uma crítica retórica. É o reconhecimento de que, em um país diverso, desigual e multifacetado como o Brasil, soluções baseadas exclusivamente na força e no confronto tendem a fracassar. Elas podem gerar aplausos momentâneos, engajamento nas redes e capital político de curto prazo, mas dificilmente constroem caminhos duradouros.

No fim das contas, a figura de Coronel Meira expõe uma tensão central da política brasileira contemporânea: a disputa entre um modelo que aposta na radicalização e outro que exige diálogo, complexidade e capacidade de negociação. Enquanto o primeiro ainda encontra espaço e voz, o desafio permanece sendo o de construir uma política que esteja à altura dos problemas do presente — e não ancorada nas respostas simplistas do passado.

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