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terça-feira, 3 fevereiro, 2026

Cumple años de Emiliano José – Comunista chega aos 80 (IV)

Emiliano José

Teve um momento de Pegasus subir demais, e aquelas nuvens escuras, e ele, desculpem, Saino, nem aí.

Galopava como se o horizonte estivesse claro.

E eu, naquela beirada dos 80, a serem completados nesse dia 5 de fevereiro, esta semana, entre uma brecha e outra surgida entre as nuvens escuras, olhava o cenário lá embaixo.

Vê homens reunidos na Casa Branca, em Washington, termo também conhecido das primeiras páginas dos jornais em Teófilo Otoni, viu aqueles homens, viu CIA, viu Lincoln Gordon, viu Kennedy, decidirem Goulart tem de cair. O menino, chegando ao Jaçanã, nenhuma consciência. O mundo dava cambalhotas, e ele nem aí.

Logo depois, e do alto o tempo passava mais rápido, ele vê os tanques saído das Minas Gerais, Vaca Fardada comandando, curiosa e apropriada autodenominação do general Olímpio Mourão Filho.

Golpe.

Tempo do terror, tempo das prisões, dos desaparecimentos, da tortura.

Ditadura.

Prometida para poucos meses, a durar 21 anos – mais de duas décadas de sofrimento, opressão, tempo em que o filho chorava e a mãe não via.

O menino se aproximando dos padres camilianos, nem aí pro golpe, alienado, um cristianismo domesticado, “até que um dia acordei…”

O cavaleiro viu de repente o menino se reunindo com alguns outros secundaristas e o mundo girar, dar cambalhota, a cabeça dele mudando, o marxismo rondando, e logo a militância em Ação Popular (AP), organização revolucionária.

No banco, o menino pensava na vida. Dividia-se entre aquela terrível rotina, trabalho massacrante, já no Banco Português do Brasil, e a vigorosa militância, a desembocar no Primeiro de Maio de 1968.

O cavaleiro o via corajoso a junto com tantos outros expulsar governador Abreu Sodré e pelegos a pedradas, e depois passeata, da Praça da Sé à Praça da República.

Chegado aos 80, testemunhava a imensa felicidade daquele menino. E chamar menino, licença poética. Adulto já, 22 anos. O rosto dele, ao chegar ao Jaçanã, naquela tarde, naquele 1968, transbordava de alegria. Havia descoberto os caminhos da existência.

A luta seria a razão de viver dele a partir dali.

Certeza disso.

Percebeu essa determinação nas faces daquele jovem. Saino seguia no galope, estranhava não ouvir o barulho dos cascos no chão – as nuvens não produziam nenhum som.

Cavaleiro olhou e surpreendeu o menino, totalmente envolvido na luta, deslocado por Ação Popular para o movimento secundarista, dirigente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), barra pesando, AI-5, ditadura dobrando a aposta, mais e mais terror, mais e mais violência.

A cidade de São Paulo, sob estado de sítio. Repressão por todo lado. Lá de cima, o cavaleiro chega a ouvir sirenes de novo na noite escura, vê o menino passar noites dormindo em ônibus, transitando, sem ter onde encostar a cabeça. AP resolve deslocá-lo para a Bahia, Salvador.

Só o cavaleiro sabe hoje: iria para a capital baiana, e de lá seguiria para a Guerrilha do Pajeú, organizada por AP, a ser deflagrada na Chapada Diamantina. Foi pra Salvador inocente desse destino, afinal não cumprido por que a repressão e morte do Capitão Carlos Lamarca impediram o surgimento dos guerrilheiros de Pajeú.

Desembarcou em terras baianas em Dia de Festa de Bonfim, início de janeiro de 1970.

O cavaleiro pensa: o menino, de lá de cima só o vê como menino, restaria em Salvador desde aqueles dias até hoje: mais de 55 anos, uma vida. Hoje nem se diz mais paulista: baiano. Eu não sou daqui marinheiro só eu sou da Bahia de São Salvador…

O Comando Regional de AP o destaca para dirigir o movimento estudantil, secundarista e universitário. Depois, torna-se Dirigente Seccional, responsável com mais dois dirigentes, Vera e Zeca, por todo o trabalho de Salvador.

Teve momento de o cavaleiro puxar um pouco o freio de Saino. Está bem, estavam nas nuvens, mas não precisava aquele galope todo. Queria ver os acontecimentos lá no chão.

Tudo desaba: o menino é preso: 23 de novembro de 1970.

O pau come. Violentamente torturado. De lá de cima, testemunha o sofrimento do menino no pau-de-arara choque elétrico afogamento, espancamento. Via o espírito do menino: nada de falar, nada de revelar qualquer coisa aos torturadores.

Assistia ao menino torcer para morrer, apagar, parar com aquele sofrimento. Viu-o resistir até o fim, com muita dificuldade, mas resistir. Não falou. Sobreviveu. Seguiu.

Ainda está aqui, o cavaleiro murmurou. Não o derrotaram, não obstante tudo.

#emiliano20268052

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