Nem sentia a velocidade daquele cavalo grande, esperto, a me levar a galope por tantos lugares da Fazenda Caxambu, a seguir para o povoado próximo, Capelinha, fazer pequenas compras.
Sonho de menino, galopar.
Realizado no Caxambu.
Agora, nas nuvens, cavalgando aos 80, olhava para a história.
Ventania açoitando suavemente as faces, eu e Pegasus atravessando nuvens. Saino sentiu-se assim: um Pegasus.
Do alto, assiste à chegada de Jânio Quadros. Personagem meteórico, iludido com uma renúncia milagrosa, a trazê-lo de volta ao poder nos braços do povo. Na verdade, a atitude dará início uma intensa crise política a desembocar no sangrento golpe de 1964.
Olho pro menino engraxate na Barbearia do Juvêncio, centro de Guarulhos. Aprendendo datilografia à noite. E terminando office-boy no Banco Comercial do Brasil, à rua Benjamin Constant, rente à Praça da Sé.
Carteira assinada, aos 14 anos – naquele tempo, admitia-se. Era outubro de 1960. Andar por aí andei, e andei muito por toda a cidade, a atender pedidos dos funcionários do terceiro andar, até ser promovido à Secão de Riscos. Office-boy anda muito.
O cavalo e eu, fixamos o olhar. Lá embaixo, uma crise dos diabos. Não queriam dar posse a Goulart quando da renúncia de Jânio Quadros, era o ano de 1961, agosto, mês do desgosto, como sempre ouvi desde criança. Deu-se então o agigantamento de um homem, o momento mais luminoso de toda a trajetória de Leonel de Moura Brizola.
Sobraçou metralhadora, uniu a Brigada Militar, conseguiu trazer o general comandante do III Exército, Machado Lopes, para o lado das forças da Campanha da Legalidade, e deu o grito: não passarão. Queria dizer, disse: o Rio Grande do Sul enfrentaria o golpe, já anunciado pelos comandantes militares do resto do País.
Forças golpistas recuaram. Sabiam da disposição dos efetivos brizolistas, sentiram a determinação gaúcha, terra de muita luta e disposição e coragem, terra do comandante da Revolução de 1930, de tantas outras revoluções.
Mentores do golpe acharam melhor ensarilhar armas. Brizola venceu, Goulart tomou posse, muito embora tivesse de engolir um momento de parlamentarismo em nossa história, com Tancredo Neves primeiro-ministro.
De lá do alto, seguro na sela do meu cavalo, olhava pro menino de 14, 15, 16 anos. Chegara a Guarulhos vindo da roça com a família, pai com um pequeno bar em cujo balcão o menino dedilhava asdfg, treinando datilografia na imaginação. Lá, no Morro do Querosene, onde morava, ouviu falar, e experimentou algum orgulho, da inauguração de Brasília.
Veio Vila Esperança, onde conhece escola de samba famosa, Nenê de Vila Matilde, o pai com outro bar, onde a mãe fazia pizzas e o menino, inebriado com as primeiras meninas, olhando-as de longe, moleque não era atrevido, vá lá se saber se para o bem ou para o mal. Da Vila Esperança, todo dia, pegava o trem, descia no Brás, pendurava no bonde e seguia para a Praça da Sé.
Veio então o Jaçanã, 1962. Olho lá de cima, aos quase 80. Moro em Jaçanã seu eu perder esse trem que sai agora às 11 horas só amanhã de manhã e além disso mulher tem outra coisa minha mãe não dorme enquanto eu não chegar… Outro bar. O pai nomeu-o “Bar Emiliano”. Não por mim, por ele, de quem herdei o nome.
Jaçanã dá régua e compasso ao menino. Faz exame de admissão, um vestibular, para o ginásio em 1963. Passa. Até 1966, viverá o Colégio Estadual Professor Eurico Figueiredo. Lá do alto, com quase 80 anos de idade, ele vê o menino engalfinhar-se com Matemática, com Desenho, com Ciências, e maravilhar-se com Português e História.
Menino, nem tanto. Já havia ultrapassado a adolescência, chegado à idade adulta em 1964, aos 18 anos. Seguia bancário, rotina quase insuportável. O Jaçanã, seu lugar, pátria, o que seja. Um maravilhamento.
Ginásio oferece a chance de um time de futebol de salão, companheiros afeiçoados ao trato da bola, o menino nem tanto, mas era o capitão. Equipe só perde um jogo, para o CPOR, só.
Oferece a aproximação com o cristianismo, com os padres camilianos. Surge a primeira namorada, Vera Castelli, namoro só rompido quando sobreveio a luta revolucionária, em 1969, mas esta é outra história, pensa o cavaleiro nas alturas.
A vida até ali, agitada. Mas viram tempestades muito maiores.
A vida não tem linha reta.
Goulart assume a presidência no início de setembro de 1961. União democracia e reformas: espécie de palavra de ordem. Sob o parlamentarismo, toca o barco. Um plebiscito decide pela volta ao presidencialismo. O povo deu ao presidencialismo uma vitória superior a 80%, queria dar poderes a Goulart.
O presidente, fortalecido, quis cumprir a promessa das reformas de base: reforma agrária, educacional, urbana, tantas outras. Homem de palavra. Aquelas convicções, de um democrata, iriam lhe custar muito caro.
Classes dominantes nacionais e internacionais não admitiam reformas a mexer em privilégios centenários e a alterar as relações com os EUA.
Montaria e o cavaleiro olhavam o cenário lá embaixo. Com 80 nas costas, o cavaleiro pensou: isso não vai dar boa coisa. Não deu.
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