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domingo, 1 fevereiro, 2026

Cumple años de Emiliano José – Comunista chega aos 80 (II)

Emiliano José

Nasci no tempo da bomba atômica.

Desde lá, de meados dos anos 1940 até os dias atuais, muita coisa passou, seguiu para o baú da história.

Bomba atômica, não.

Cresceu, muitos países resolveram armazená-la.

Estamos ainda à beira do precipício.

A hecatombe nuclear como possibilidade.

Tem gente com as mãos no coldre.

Aprendi, menino, a cavalgar.

Muito bem, a ponto de o patrão da Fazenda Caxambu, em Nazaré Paulista, onde eu cuidava de cavalos, ter pedido ao meu pai para me levar, aos 12 anos de idade, para ser joquei.

Pai refugou, qual cavalo bravo: filho meu não sai debaixo de meu mando.

Patrão engoliu: o menino seguiria selando os cavalos dele, quando vinha passear na fazenda, finais de semana.

Inebriava-me montar Saino, cavalo esperto, arisco, capaz de galopar a um pequeno afrouxar de rédeas.

Não requeria chicote, nem esporas.

Ao pensar na proximidade dos 80, ao comemorar essas oito décadas no dia 5 de fevereiro deste ano, ao rememorar tudo, imagino-me montado nele, novamente, entre as nuvens, transformado em montaria alada, olhando o transcorrer da história.

Aqueles anos 1940, vejo lá de cima, testemunhou o fim da guerra, Getúlio deixado ao lado, golpeado, Dutra no poder com toda a voracidade anticomunista, envolvida já profundamente num clima de Guerra Fria, a esquentar ainda mais nas décadas seguintes.

Antes de Dutra mostrar garras, vejoa de cá do alto a eleição de deputados comunistas, inclusive a do baiano Carlos Marighella, revolucionário, comunista de carteirinha desde os anos 1930, eleito depois de passar longo tempo na prisão. E obrigado a cair na clandestinidade por conta da repressão, nela permanecendo até meados dos anos 1960, quando é preso, baleado num cinema. Será morto pela ditadura, em 1969.

Do meu cavalo, assisti à volta de Getúlio, a persistir na ideia de nação soberana, industrializada, a imaginar a exploração do petróleo, cuja existência era negada pelos norte-americanos, criar a Petrobras, o BNDES, aumentar em 100% o valor do salário-mínimo, medidas de natureza democrática e popular. E ele próprio, convertido à ideia democrática.

Classes dominantes brasileiras não admitiram medidas tão ousadas, ao menos para a visão delas, e deram o golpe. Não imaginavam pudesse aquele homem pequeno, de largas bombachas, sorriso largo, gaúcho vindo dos anos 1930, não imaginavam tivesse uma carta na manga, trágica, poderosa, surpreendente.

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, se suicida, e com aquele gesto, corajoso, determinado, levanta o País. Golpe é derrotado, golpistas postos a correr, Carlos Lacerda entre eles.

Montado na pequena sela do Saino, agora alado, ventania forte batendo no rosto, vi um menino de oito anos, ainda morando em Monte Alto, nas proximidades de Ribeirão Preto, no mesmo 24 de agosto, saber daquela morte, só dela, e mais tarde perceber a intensidade, a gravidade de tudo aquilo. Já morava na cidade, meu pai se mudara com a família, deixara a condição de administrador da Fazenda Cascavel.

Montado em meu cavalo libertava Prometeu toureava o minotauro era amigo de Teseu: gostava de Estampas Eucalol, pensava nelas cavalgando por entre nuvens. De Monte Alto, assisti-me chegando em Teófilo Otoni, onde fiz segundo e terceiro ano primário, Grupo Escolar Manoel Esteves, entre nove e dez anos, 1955 e 1956. Depois, vida de cigano: Jequié, Rio de Janeiro, Cachoeira Paulista, São Paulo, eu próprio, lá de cima, estupefato com tantas e seguidas mudanças.

A vida não tem linha reta.

Em Teófilo Otoni, jornais apenas nas bancas de revista. Consegui gravar o nome Eisenhower, tão frequente a presença dele nas primeiras páginas, únicas a serem lidas. De lá de cima, agora, cavalgando, exclamo: sabe nada, inocente. Bem mais tarde, descobriria qual o significado daquele nome, chefe de império, a perturbar o mundo até os dias atuais.

Viria Juscelino, cuja posse só foi possível por conta da mão legalista do marechal Lott, um anticomunista democrático – naquele tempo, isso era possivel. Hoje, espécies como a de Lott no Brasil, inexistem. Os anticomunistas admiram Hitler, disso fazem proclamações.

A vida não tem linha reta.

A partir de meados dos anos 1950, viria Juscelino, com sua promessa industrializante dependente, fundada no capital internacional, indústria automobilística chegando, Brasília, cinquenta anos em cinco, aquele sorriso aberto, governo de caráter democrático, submetido a dois golpes, Jacareanga e Aragarças, e apesar disso, consegue terminar o governo, Deus sabe como nesse país de tantos e seguidos golpes.

Eu, do alto do meu cavalo, assistindo a tudo isso, novamente, a maravilha da memória, garimpando caminhos, enfrentando obstáculos. Como é bom cavalgar, melhor ainda se num cavalo alado.

A vida não tem linha reta.

#emiliano20268052

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