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sábado, 31 janeiro, 2026

Comunista chega aos 80 (I)

Emiliano José

Um dia, num encontro em Brasília, amigo muito querido, professor renomado, a quem posso considerar um intelectual público, Venício Lima, me falava do peso de chegar aos 70 anos. Eu, então, também já na quadra septuagenária, não encarava aquela chegada com nenhuma apreensão.

Dei-me a pensar agora, no entanto, na estação dos 80, dessa vez com atenção. Dia 5 de fevereiro aniversario, e me torno parte do contingente a alcançar oito décadas. Nunca antes pensei nisso. Seguia a vida sem ter noção do tempo percorrido. Talvez não quisesse pensar na finitude.

Quando o outono chega, sou levado a refletir. Quando bate os 80, é bom deixar o pensamento caminhar. Calmamente. Num primeiro momento, olhar para trás, para a já longa caminhada. Penso em Edgar Morin, 104 anos.

Numa entrevista, afirma estar numa fase vital produtiva. Ainda sente muita curiosidade. Qualifica a velhice como um terreno fértil para a criação e a rebeldia. Dá-se ao direito de refletir sobre esses tempos, depois de fazer uma rememoração da infância, juventude, idade adulta, maturidade, velhice.

Diz: nos desacostumamos do pensamento complexo. Há a pretensão de compreender o mundo com simplificações, e com textos curtos. Impossível. Animador assistir a um cidadão, nessa idade, com tal capacidade, com tal entusiasmo, criatividade, e rebeldia.

Quiséssemos, poderíamos recorrer ao exemplo de Marilena Chauí, mais nova, mas já tendo ultrapassado ligeiramente a casa dos 80. Talvez a mais potente intelectual brasileira, a nos instigar permanentemente, a filosofar, e fazê-lo de modo inteligente, sem a pretensão de evidenciar erudição, e sendo erudita como poucos pensadores brasileiros.

Pensamento complexo e simples. Filosofando sem jamais deixar de pensar na política, e talvez seja o caso de se perguntar se à política é possível caminhar sem o concurso da filosofia, ao menos para quem não queira diminuir o alcance dela, da missão civilizatória nela contida.

Vou chegar aos 80 daqui a pouquíssimos dias, tentando aproximar-me de uma autodefinição gramsciana. Gramsci dizia, numa carta ao irmão Carlo, em 12 de setembro de 1927, acreditar ser simplesmente um homem médio, de convicções profundas. Estas, ele não as trocaria por nada deste mundo.

Um homem comum, assim me vejo. Digo-o com sinceridade. Nunca me iludi com os poucos minutos de fama. Sei de onde vim. A vida, para mim, não foi fácil, como não o é para a maioria do povo brasileiro. Foi essa caminhada, pontilhada de obstáculos, desafios, marcada pela pobreza, por família de escassos recursos, marcada pelo trabalho duro desde a infância, e depois na adolescência e idade adulta, a me configurar, fornecer-me algumas sólidas convicções.

Baseado em tais convicções, pude seguir vendo o mundo em constante transformação e eu próprio sempre mudando, sem jamais transigir em alguns princípios, aqui sinônimos de convicções. Digo isso sem qualquer pretensão, apenas uma tentativa de autodefinição, nem sei se correta.

A dúvida sempre foi para mim estímulo de conhecimento, e provavelmente serão os outros, os olhares estrangeiros como costumo dizer, muito mais capazes de me definirem. Sempre bom desconfiar de autodefinições – elas são inescapáveis, no entanto, e inevitavelmente submetidas ao crivo, ao olhar crítico do entorno. Importante sejam olhadas criticamente, sempre.

Nasci em 5 de fevereiro de 1946. Permito-me pensar no alvorecer, nos meus primeiros dias, quando ainda incapaz de perceber o mundo e toda a complexidade dele. Fim da Segunda Guerra Mundial, e aquele fim continha promessas de liberdade. A derrota do nazifascismo, com a essencial contribuição da União Soviética, enchia o mundo de esperança.

Mas aquela vitória trazia em si o germe de uma humanidade à beira do precipício: o ataque nuclear dos EUA a Hiroshima e Nagasaki, absolutamente desnecessário para o desfecho da guerra, levou à corrida nuclear.

Até hoje vivemos sob esse terrível quadro, um equilíbrio absolutamente instável, esperando não haja nenhuma potência disposta a disparar o primeiro míssil nuclear. Disparado, estará selado o destino humano na terra.

Nasci nesse tempo.

#emiliano20268052

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