Agrediu uma trabalhadora negra num dos bares da vida.
Turista, gozando férias, e crendo ser Salvador terra do apartheid.
Chamou a jovem trabalhadora de lixo.
Repetiu isso quando ela, atendente no bar, perguntou se tinha ouvido bem.
Levada à presença de Ricardo Amorim, um negro rastafari.
E se indignou.
Disse, reiterava o racismo, não aceitar ser atendida por ele, titular da Delegacia Especializada de combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa da Bahia.
Queria um delegado branco, vejam só a arrogância da Casa Grande.
Na Bahia, não.
Continuaria a ser recepcionada pelo delegado negro,altivo, sereno, e muito firme.
Poucos dias, e foi solta, sob medidas restritivas.
Não sei se o episódio vai ensiná-la.
Sinceramente, não creio.
Racismo é traço vindo da família, da cultura, do entorno da pessoa, da sociedade.
Está fincado na alma.
Somos um país forjado sob mais de 300 anos, três séculos, de escravidão.
Milhões de pessoas escravizadas.
A Casa Grande sempre considerou poder fazer toda e qualquer crueldade, a pior delas submeter a pessoa a um cruel regime de trabalho, onde não havia qualquer direito.
A Casa Grande, não fosse tantas outras coisas, disseminou o mando masculino, aprofundou o desprezo e a exploração da mulher, naturalizou a utilização de castigos cruéis.
E esta Casa Grande viu renascer-se, fortalecer-se novamente com a advento do bolsonarismo, fenômeno capaz de liberar os monstros submersos, calados até então da sociedade brasileira.
E monstros aqui não são apenas uma metáfora.
Nesse mundo em crise, vale o diagnóstico de Gramsci para identificar a existência dela, da crise: é aquele momento histórico onde o velho se recusa a morrer, o novo não tem força para nascer – e é nesse lusco-fusco, nesse momento, que surgem as deformidades, os monstros.
Muitos dos nossos parentes, familiares, amigos, mantinham-se calados à mesa, nas festinhas, comemorações variadas.
Quando surgiu uma liderança obtusa, ignorante, e por isso mesmo, valorizada, essas pessoas de bem, a considerar lixo todos os pobres e de modo especial as pessoas negras, passam a seguir o líder, o mito, e a deixar extravasar a alma de Casa Grande – racista, homofóbica, misógina.
Insisto: valorizam o mito porque obtuso e ignorante, e ao agir assim, deixam nítidos os valores culturais reacionários acumulados, a mentalidade também obtusa, ignorante, infensa aos valores iluministas.
Essas pessoas de bem, e as aspas ficam por conta das leitoras, dos leitores, desnudaram-se.
Perderam qualquer vergonha de se mostrar.
Muitas delas, com formação universitária, acadêmica, por incrível possa parecer.
Não, não estou dizendo da inexistência do racismo anteriormente.
Sempre existiu, por óbvio.
Estou afirmando da disposição dos racistas de mostrarem a cara agora – o líder deles não falara em pesar os negros calculando por arroba, por que eles não se mostrariam?
Agora podiam até defender a ditadura – o mito não falou da necessidade de os militares terem matado 30 mil?
Não defendeu o bárbaro assassino chamado Carlos Alberto Brilhante Ustra?
O aflorar do bolsonarismo revelou as obtusidades, monstruosidades da sociedade brasileira, de modo especial o racismo, o lixo a que se referiu a gaúcha, liberou geral.
Essa moça, a levar a Espanha no nome e também a Itália, por Madrid e Cesar, e eu não veria acaso nisso, talvez atavicamente franquista e adepta de uma espécie de cesarismo, essa moça é parte desse fenômeno, independentemente das influências do entorno familiar mais próximo.
Curioso: racistas chegam à Bahia, admiram a criação cultural negra, são capazes de colocar um colar dos Filhos de Ghandi, como Madrid Cesar, como se uma coisa não tivesse a ver com a outra – reacionarismo e alienação.
Não quero discutir o caso de modo singular.
Talvez fosse mais próprio ela ter permanecido presa porque cometeu um crime grave.
Humilhou uma trabalhadora acreditando-se no direito de fazê-lo, e ninguém pode avaliar o significado disso na alma de Hanna, a vítima, ninguém.
Os racistas, ao virem à Bahia, devem tomar mais cuidado.
Salvador é uma terra negra, majoritariamente negra.
Gisele Madrid Cesar deu sorte.
Tivesse encontrado uma barraqueira, daquelas incapazes de levar desaforo pra casa, e ela podia ter sido quebrada no pau, e até acontecer coisa pior porque a turba podia entrar no jogo e aí nunca se sabe o desfecho.
Não, não digo isso por defender tal atitude, muito pelo contrário.
Nada de fazer justiça com as próprias mãos. Mas podia ter acontecido, e seria lamentável.
Devemos valorizar a existência de uma delegacia especializada em combater o racismo e a intolerância religiosa.
O governo Jerônimo Rodrigues cuidou disso, sabedor da existência do racismo entranhado na alma de tanta gente, cuja crueldade exige os rigores da lei.
Racismo é crime. Deve ser entendido assim, e a lei já consagrou isso.
Por isso, ninguém pode arvorar-se com o direito de ofender ou agir de modo racista.
Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies.
This website uses cookies to improve your experience while you navigate through the website. Out of these, the cookies that are categorized as necessary are stored on your browser as they are essential for the working of basic functionalities of the website. We also use third-party cookies that help us analyze and understand how you use this website. These cookies will be stored in your browser only with your consent. You also have the option to opt-out of these cookies. But opting out of some of these cookies may affect your browsing experience.
Necessary cookies are absolutely essential for the website to function properly. These cookies ensure basic functionalities and security features of the website, anonymously.
Cookie
Duração
Descrição
cookielawinfo-checkbox-analytics
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Analytics".
cookielawinfo-checkbox-functional
11 months
The cookie is set by GDPR cookie consent to record the user consent for the cookies in the category "Functional".
cookielawinfo-checkbox-necessary
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookies is used to store the user consent for the cookies in the category "Necessary".
cookielawinfo-checkbox-others
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Other.
cookielawinfo-checkbox-performance
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Performance".
viewed_cookie_policy
11 months
The cookie is set by the GDPR Cookie Consent plugin and is used to store whether or not user has consented to the use of cookies. It does not store any personal data.
Functional cookies help to perform certain functionalities like sharing the content of the website on social media platforms, collect feedbacks, and other third-party features.
Performance cookies are used to understand and analyze the key performance indexes of the website which helps in delivering a better user experience for the visitors.
Analytical cookies are used to understand how visitors interact with the website. These cookies help provide information on metrics the number of visitors, bounce rate, traffic source, etc.
Advertisement cookies are used to provide visitors with relevant ads and marketing campaigns. These cookies track visitors across websites and collect information to provide customized ads.