Michael Clubb/CSM via ZUMA Wire/ DPA
Por: Wagner França
Quando agentes federais do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário) desceram sobre Minneapolis no início deste ano, resultando na morte de Renee Nicole Good, uma mãe de três filhos, durante um protesto, as imagens de violência pareceram ecoar um passado distante. Para muitos, foi um lembrete brutal de que a máquina de repressão estatal continua a operar, frequentemente direcionada às mesmas comunidades marginalizadas de sempre.
Nesse cenário, uma resposta organizada surgiu nas ruas, não apenas em Minneapolis, mas da Filadélfia a Los Angeles. Indivíduos portando armas e vestindo insígnias características apareceram para confrontar agentes do ICE e proteger bairros. Eles se identificam como o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa e afirmam ser uma continuação direta do movimento revolucionário negro fundado por Huey Newton e Bobby Seale em 1966, em Oakland. Esse renascimento não é um exercício de nostalgia, mas uma resposta tática a uma realidade urgente: a escalada de violência e deportações sob a atual administração federal, que levou a ações como a criação de “zonas livres do ICE” em Los Angeles e Chicago.
Para entender esse ressurgimento, é preciso olhar para as raízes. O Partido dos Panteras Negras nasceu em um período de extrema tensão social e de brutalidade policial generalizada. O movimento pelos direitos civis havia conquistado vitórias legislativas importantes, mas a realidade nas comunidades negras urbanas seguia marcada por pobreza, desemprego e repressão violenta. A abordagem dos Panteras era dupla: a autodefesa militante contra a violência policial, com patrulhas armadas legalmente nos bairros, e a construção de Programas de Sobrevivência para atender às necessidades básicas negligenciadas pelo Estado.
Esses programas incluíam o Café da Manhã Gratuito para Crianças, clínicas de saúde, iniciativas de educação política e distribuição de roupas. A combinação entre confrontar o poder coercitivo do Estado e construir poder comunitário autossustentável era entendida como o caminho para a verdadeira libertação. Os Panteras não enxergavam a luta apenas como um enfrentamento ao racismo, mas como uma batalha contra um sistema econômico explorador que estava na raiz da opressão. Essa análise levou o movimento a um alcance internacional, com alianças firmadas com lutas de libertação em diversas partes do mundo.
A resposta do Estado foi implacável e ilegal. Sob o programa COINTELPRO do FBI, os Panteras foram infiltrados, difamados, divididos internamente e alvos de violência letal, como no assassinato do líder Fred Hampton em Chicago. A mensagem era inequívoca: qualquer movimento que desafiasse de forma estrutural as engrenagens do poder seria esmagado.
Avançando para 2026, sob uma nova administração, o ICE e a Patrulha de Fronteira passaram por um processo intenso de despolitização e militarização. A política que evitava ações em “locais sensíveis”, como escolas e hospitais, foi revogada. Operações com centenas de agentes, frequentemente usando camuflagem e máscaras, tornaram-se comuns em cidades como Los Angeles e Oakland, gerando confrontos e protestos em massa.
A violência tornou-se explícita. Além da morte de Renee Good, um manifestante na Califórnia foi atingido à queima-roupa por uma bala de borracha e perdeu a visão de um olho. Um agente do ICE em licença atirou e matou Keith Porter Jr., alegando tê-lo confundido com um atirador ativo durante as comemorações de Ano Novo. Para ativistas, esses episódios compõem um quadro de “terrorismo doméstico” patrocinado pelo Estado.
Para comunidades de cor, a linha entre a polícia local e as forças do ICE tornou-se cada vez mais tênue. O alvo imediato pode ser diferente — imigrantes —, mas o mecanismo de medo, violência e desintegração familiar é o mesmo que comunidades negras enfrentam há gerações. Como observou um ativista, “quando eles vêm atrás de um de nós, estão planejando vir atrás de todos nós”. É nessa interseção que a filosofia e a prática dos Panteras Negras reaparecem com força renovada.
Os grupos atuais que atuam sob o nome dos Panteras Negras se veem explicitamente como herdeiros diretos dessa tradição. Paul Birdsong, presidente nacional de um desses grupos, afirma que seus membros são treinados por sobreviventes do partido original. Suas ações seguem de perto o manual histórico. Eles marcam presença em protestos contra o ICE, como ocorreu na Filadélfia, portando armas de forma visível. Sobre a operação em Minneapolis, Birdsong declarou que, se estivessem presentes, “ninguém teria sido tocado”. A presença armada busca dissuadir a violência dos agentes e oferecer proteção direta às comunidades.
Ao mesmo tempo, esses grupos mantêm um foco central nos Programas de Sobrevivência. Em North Philadelphia, por exemplo, operam há anos um programa semanal de distribuição gratuita de alimentos, que se tornou uma instituição confiável no bairro. Eles retomam a visão do “Intercommunal People’s Core” original, concentrando esforços no cultivo de sistemas próprios de alimentação, água, saúde e educação, com o objetivo de construir comunidades verdadeiramente autossustentáveis.
A análise política também se expandiu. Os ativistas contemporâneos articulam a luta como parte de uma guerra de classes global, conectando a violência do ICE dentro dos Estados Unidos ao que chamam de “imperialismo em estágio final” e ao financiamento ocidental de conflitos no Sul Global. A luta deixa de ser vista apenas como racial ou nacional e passa a ser compreendida como um conflito unificado contra um sistema opressivo que explora e reprime povos em escala mundial.
Esse ressurgimento ocorre em um contexto político profundamente polarizado. De um lado, cresce a resistência institucional, com cidades-santuário como Oakland se recusando a cooperar com o ICE, condados criando “zonas livres do ICE” e estados como a Califórnia tentando aprovar leis para proteger escolas e hospitais. Do outro, a retórica oficial se intensifica, com ameaças de invocar a Lei da Insurreição para enviar tropas federais a cidades marcadas por protestos. Especialistas alertam que a própria ideia de um confronto direto, ou a equiparação simbólica entre o ICE e os Panteras, pode ser uma simplificação perigosa, capaz de normalizar a violência como linguagem política legítima.
Ainda assim, a principal lição da história dos Panteras Negras permanece atual. Como analisam críticos do próprio movimento, a energia revolucionária colossal dos anos 1960 não conseguiu transformar a sociedade em sua raiz porque, apesar do brilho e da coragem, faltaram organização revolucionária duradoura e clareza política suficientes para sustentar o enfrentamento prolongado contra a máquina repressiva do Estado. O desafio colocado aos sucessores modernos é evitar os mesmos caminhos de infiltração, divisão interna e repressão violenta, ao mesmo tempo em que constroem uma base comunitária ampla e sólida, capaz de produzir mudanças reais.
No fim das contas, o retorno dos Panteras Negras é menos uma anomalia e mais um sintoma de uma doença social profunda. Ele revela que, quando as instituições falham, quando a violência se torna ferramenta explícita de política e quando comunidades inteiras são abandonadas, as pessoas são empurradas a organizar sua própria defesa e seu próprio sustento. “Todo o poder ao povo”, o antigo slogan dos Panteras, nunca foi apenas uma frase de efeito; era uma estratégia concreta de sobrevivência à espera de revolução. Seu eco nas ruas de hoje lembra que o poder, em última instância, reside na capacidade das pessoas comuns de cuidarem umas das outras e de defenderem sua humanidade comum contra qualquer força que tente negá-la. Como resume Danielle, do Black Panther People’s Core, “a revolução é o único caminho a seguir agora. Você não pode reformar os sistemas que estão no lugar”.