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terça-feira, 28 abril 2026

El Salvador será severamente impactado pelo imposto dos EUA sobre remessas

San Salvador (Prensa Latina) Quase dois milhões de salvadorenhos nos Estados Unidos serão vítimas de um imposto se, como esperado, o Senado dos EUA aprovar o plano apelidado pelo presidente Donald Trump de “o grande e belo projeto de lei”, que taxará as remessas.

Por Luis Beatón

Correspondente Chefe em El Salvador

Um analista previu anos atrás que as políticas abusivas e os efeitos sobre as economias latino-americanas dos Acordos de Livre Comércio (ALCs), que transformaram a região em fornecedora de matérias-primas e produtos para os Estados Unidos, eram uma bomba-relógio.

Naquela época, a questão da imigração, embora sensível, ainda não havia atingido as proporções atuais e foi, em essência, a bomba-relógio que explodiu, lançando em crise a política de Washington em relação aos seus vizinhos do sul. A pobreza se tornou a força motriz que levou milhões de pessoas às fronteiras dos Estados Unidos.

A Câmara dos Representantes aprovou por uma pequena margem o projeto de lei de mega cortes de impostos e gastos do presidente Trump em 22 de maio. Agora, ele seguirá para o Senado, onde os republicanos detêm a maioria e precisam garantir uma “vitória” ao presidente.

É claro que a intenção do presidente afetará, entre outros, milhões de pessoas que vivem nas sombras e, até mesmo legalmente, aqueles que pagam impostos ao Tesouro dos EUA.

Trump e o presidente da Câmara, Mike Johnson, um republicano, insistem que esses cortes visam acabar com a cobertura para “imigrantes ilegais que se aproveitam” de benefícios como Medicaid, Medicare e outros.

“Roubar daqueles que menos têm para dar aos que mais têm. Isso não é apenas uma política ruim; é uma traição ao povo americano”, alertou o deputado Jim McGovern, o democrata mais graduado no Comitê de Regras da Câmara.

O que pode ser chamado de “arroz de galinha e galinha” para os países do Sul, neste caso para o México e América Central, é a aprovação do polêmico imposto sobre remessas enviadas para fora do país.

Os críticos enfatizam o impacto que a diminuição das remessas causará. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum considera isso “uma injustiça” e uma ação “discriminatória” que afetaria os migrantes mexicanos no país vizinho.

EM EL SALVADOR

Os medos não são infundados. Dados do Banco Central da Reserva (BCR) indicam que 98,7% das remessas são usadas para consumo e 1,3% para investimento no chamado Polegar das Américas.

Pelo menos 1,6 milhão de salvadorenhos receberam remessas de parentes nos Estados Unidos. As remessas em El Salvador ultrapassaram três bilhões de dólares nos primeiros quatro meses de 2025, segundo o Banco Central da Argentina (BCR).

Esse valor representa um aumento de 15,2% em relação a 2024 e, desse total, os vindos dos Estados Unidos aumentaram 16,3%, o que é atribuído às ameaças de Washington de impor um imposto de 3,5% sobre essas remessas de ajuda.

Citado pelo jornal El Mundo, o Diálogo Interamericano afirma que o imposto sobre remessas poderia reduzir seu volume em pelo menos sete por cento.

“Um cenário conservador projeta que se 35% dos remetentes decidissem reduzir suas remessas em um quinto, o volume total de remessas diminuiria em sete por cento, o que implicaria não apenas perdas econômicas para as famílias beneficiárias, mas também uma contração nas relações comerciais bilaterais”, afirma o documento.

Segundo Álvaro Cruz, editor-chefe do jornal salvadorenho El Mundo, o imposto de 3,5% sobre remessas seria adicionado às taxas habituais — entre 5 e 10% — cobradas por empresas como Western Union e MoneyGram, frequentemente utilizadas por migrantes para enviar dinheiro aos seus países de origem.

Considerando que El Salvador recebeu US$ 8,479 bilhões em remessas em 2024, uma redução de sete por cento equivaleria a aproximadamente US$ 593,58 milhões a menos, o que aumentaria a população pobre.

Se isso for perdido, de acordo com o estudo “Remessas Fiscais e a Proposta no Congresso dos Estados Unidos”, as consequências para países destinatários como El Salvador serão graves. As remessas representam uma fonte importante de renda familiar, impulsionam o crescimento econômico e ajudam a reduzir a migração.

Estimativas de organizações que estudam o fenômeno migratório indicam que o novo imposto afetaria quase 50 milhões de pessoas nos Estados Unidos, incluindo mais de dois milhões de salvadorenhos, muitos dos quais usam serviços formais para enviar dinheiro para suas famílias.

NA AMÉRICA LATINA E NO CARIBE

Estimativas publicadas pelo El Mundo indicam que as remessas para a América Latina e o Caribe chegarão a US$ 160,9 bilhões em 2024, um aumento de US$ 7,7 bilhões em relação ao ano anterior, segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

No caso de El Salvador, recebeu remessas equivalentes a 24% do seu Produto Interno Bruto (PIB), uma proporção vital para milhares de famílias.

Além disso, além do impacto comercial, as remessas aumentam a renda familiar nos países destinatários, o que incentiva a poupança e reduz o desejo de emigrar. No entanto, um possível imposto sobre remessas poderia reverter essa tendência e reativar os fluxos migratórios que estavam em declínio.

O Diálogo Interamericano observa que a medida pode ser contraproducente, mesmo para os objetivos de migração que pretende abordar. A migração irregular, ele enfatiza, pode aumentar se as famílias perderem o acesso às remessas, e muitas buscarão novas maneiras de se sustentar.

A demanda por mão de obra estrangeira nos Estados Unidos continua alta, e lidar com o fenômeno com impostos pode ser ineficaz e prejudicial aos interesses de Washington, conclui o relatório. Outra bomba-relógio é ativada.

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