Por Zeus Naya Bogotá, (Prensa Latina) O drama do choro de crianças ao sair de casa com suas mães, forçado pelo conflito armado, comove hoje políticos e instituições na Colômbia, sem uma resposta efetiva do Governo.
Este foi o ano com mais atos de violência registrados desde a assinatura do Acordo de Havana em 2016 entre o Governo e as extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), disse o diretor da Consultoria para Direitos Humanos e Deslocamento (Codhes), Marco Romero.
Cerca de 32 mil pessoas foram pressionadas a deixar suas regiões em 2020, sendo os departamentos de Nariño, Antioquia, Chocó, Norte de Santander, Córdova e Cauca os mais afetados pelo flagelo, revelou a entidade.
Por que o senhor insiste em ignorar a realidade nacional e os mais vulneráveis ? perguntou ao presidente Iván Duque Sandra Ramírez, senadora pelo partido Comunes e ex-combatente das FARC.
São colombianos protegidos pela Constituição, têm direitos a um Estado reconhecido como multiétnico e com o dever de protegê-los, mas estão sozinhos, denunciou a ex-legisladora Piedad Córdoba.
O atual governo continua ausente nos territórios, vários grupos irregulares ali impõem suas decisões, não só buscando controlar as rotas do narcotráfico, mas ter comando por ordem de camponeses, indígenas ou afrodescendentes, lamentou o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a paz.
PRIMEIRO LUGAR GLOBAL
Esse problema interno é de tal magnitude que, segundo o último relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Colômbia ocupa o primeiro lugar no mundo em número de habitantes expulsos de seus locais de residência.
De 1985 a 2020, mais de oito milhões de cidadãos (cerca de 16% da população do país) tiveram que deixar suas casas por causa dos ataques, ilustrou a Unidade de Vítimas.
A entidade encarregada de reparar os feridos pelos eventos de deslocamento forçado apontou como os principais responsáveis os grupos armados paramilitares ou dedicados ao narcotráfico, como o Clã del Golfo e o La Local.
O diretor da Codhes destacou a importância de observar a situação de forma sistêmica e não isolada, já que deve ser considerado o aumento de massacres e assassinatos de lideranças sociais, com grande influência sobre quem sai de casa.
Não se pode cair em uma visão simplista da crise humanitária ou supor que sua única causa seja o tráfico de drogas, disse Romero em declarações à Rádio FM.
As comunidades indígenas, afro e camponesas pobres recebem um impacto maior porque estão localizadas em áreas mais desprotegidas, onde o Estado nunca chegou, onde não há políticas de proteção ou capacidade regulatória institucional, disse a autoridade.
O Provedor de Justiça, Carlos Camargo, reiterou a necessidade de implementação de medidas para mitigar o risco de expulsões; ao mesmo tempo, solicitar assistência humanitária de emergência e restituição de direitos para as comunidades deslocadas.
Os observadores das Nações Unidas, por sua vez, instaram o Executivo colombiano a combater a impunidade e assumir sua responsabilidade na prevenção do fenômeno, mediante a implementação urgente de uma estratégia de segurança compatível com a Constituição, princípios e recomendações mundiais.
Na opinião do padre Albeiro Parra, que há mais de três décadas acompanha as comunidades étnicas do Pacífico e suas organizações, o gabinete de Duque, seu partido político e personalidades não querem a paz, têm interesse em aprofundar a guerra.
A autoridade religiosa, porém, junto com políticos e instituições colombianas garantiram que não desanimarão nas ações para acabar com um conflito que já dura seis décadas e, consequentemente, frear o drama comovente de regiões sequestradas pelo medo.


