Entrevistado por Emiliano José, Hélio Doyle, Laurindo Lalo Leal, Valter Xéu, Pedro Pinho, Beto Almeida e Alberto Freitas
Pátria Latina – Pergunta e reflexão. Cuba, os primeiros anos da Revolução, enfrenta o bloqueio norte-americano, ação própria do imperialismo, cujo momento é de maior agressividade ainda, já que sob a direção política da extrema-direita. Como enfrentar o desafio do desenvolvimento apesar do bloqueio, que não acabará de uma hora pra outra, o fim dele depende de mudanças mundiais. Cuba merece todo nosso respeito, apoio e solidariedade.
Embaixador – Apesar de ser um país subdesenvolvido submetido ao bloqueio mais longo da história, tem alcançado logros socioeconômicos importantes, o que demonstra a capacidade de seu povo não só para resistir, mas também para se desenvolver. Isso igualmente demonstra a vontade de nosso governo de elevar a qualidade de vida da população.
Para só citar um exemplo. Cuba tem criado um sistema de instituições de biotecnologia, sem paralelo em nações subdesenvolvidas, capaz de desenvolver vacinas preventivas e terapêuticas (como Abdala, Soberana contra a COVID-19, CIMAvax-EGF contra o cancro do pulmão e recombinante contra a hepatite B), entre outras.
Esses centros científicos e produtivos, agrupados na BioCubaFarma, geraram mais de 160 produtos que impactam a saúde pública nacional, salvam vidas e são exportados para mais de 40 países, contribuindo significativamente para a economia e a soberania sanitária de Cuba.
Por outro lado, de acordo com o Relatório sobre Desenvolvimento Humano 2019 do PNUD (dados para 2018), Cuba obteve um IDH de 0,778-0,783, classificando-se na categoria de alto desenvolvimento humano. Este resultado é obtido apesar de a ilha ter um rendimento bruto per capita relativamente baixo, o que demonstra a prioridade dada pelo Estado cubano à despesa social. Em relação aos dados sobre a expectativa de vida ao nascer e a mortalidade infantil, em 2019 a ilha apresentava um índice de 78 anos, superior à média regional da América Latina e comparável ao de países com maior rendimento, e de 4,6 por mil nascidos vivos, respetivamente, de acordo com dados da OMS.
O presidente Miguel Diaz-Canel Bermúdez explicou à imprensa em 5 de fevereiro que, no ano passado, foram instalados mais de 1.000 megawatts de capacidade de geração de energia elétrica com parques fotovoltaicos, se instalaram cerca de 49 parques fotovoltaicos em todo o país. Portanto, antes de 2025, a penetração, ou melhor, a porcentagem que as fontes de energia renováveis contribuíam para a geração de eletricidade do país, era de apenas 3%. Com esse investimento, em apenas um ano, saltamos de 3% para 10% da geração, o que significa um crescimento de 7%.
Uma parte dessa energia se está dedicando à economia e, dessa forma, conseguimos priorizar a irrigação elétrica durante o dia; por exemplo, a irrigação dos hectares de arroz que estamos plantando, porque este ano queremos atingir 200.000 hectares de arroz, o que implicaria uma produção com a qual começaríamos a suprir cerca de 30% a 40% do arroz que consumimos na cesta regulamentada e que atualmente é importado. Este seria um primeiro passo para alcançar a autossuficiência em arroz com produção nacional em dois ou três anos e não precisar importar arroz para o país.
Conseguimos, também, fornecer energia a um grupo de entidades que geram exportações; conseguimos fornecer energia a entidades que substituem importações; conseguimos fornecer a energia necessária para a produção de tabaco, um item de exportação muito importante atualmente, para irrigação e para os investimentos que foram realizados.
No ano passado, recuperamos mais de 900 megawatts de capacidade de geração distribuída no país.
Pátria latina – Por que esse impacto não foi sentido?
Embaixador – Porque aumentamos ou recuperamos a capacidade de geração distribuída, mas, por todos os motivos que conhecemos, não tivemos o combustível necessário para que isso acontecesse. Recuperamos também a capacidade de geração térmica, o que está relacionado a todo o processo de reparo e manutenção das principais usinas termelétricas do país. O impacto não foi visível porque tivemos déficits, déficits muito grandes.

Além disso, o vice-primeiro-ministro de Cuba, Oscar Pérez-Oliva Fraga, recentemente explicou a nosso povo a estratégia que será implementada pelo pais para enfrentar a complexa situação nacional criada pela ordem executiva assinada pelo Trump contra a ilha., que acho que responde a sua pergunta.
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O combustível destina-se a proteger os serviços essenciais à população e as atividades econômicas essenciais.
A geração de eletricidade é sustentada, fundamentalmente, pela produção nacional de petróleo bruto, gás natural e pela utilização de fontes de energia renováveis.
O funcionamento das fontes fundamentais de abastecimento de água para a população está protegido.
Os serviços básicos de saúde são mantidos para a população, com prioridade para atendimento médico de emergência, saúde materno-infantil e o Programa de Combate ao Câncer.
A utilização de recursos locais nos territórios para a produção de alimentos e o uso de fontes de energia renováveis.
São asseguradas as atividades relacionadas com a preparação da defesa e a ordem interna.
Na medida do possível, são protegidas as atividades destinadas à obtenção de receitas em moeda estrangeira necessárias ao desenvolvimento econômico e social do país.

Além disso, se dará prioridade e continuidade ao desenvolvimento do programa de instalação de parques solares fotovoltaicos.
Sobre a produção de petróleo nacional, o pais faz investimentos para aumentá-la. No final de 2025, a produção cresceu modestamente.
Existem medidas adicionais para aumentar a produção, inclusive a partir de poços existentes, através da gestão de recursos pela empresa Cupet e em parceria com empresas estrangeiras.
Pátria Latina – Qual a estratergia do setor agrícola para aumento da produção?
Embaixador – No setor agrícola, trabalhamos no aumento da produção local para substituir importações. Este ano o país se propôs a plantar 200.000 hectares de arroz para garantir uma parte significativa da demanda.
Para isso temos cooperação de vários países em projetos com bons resultados, como nas fazendas de Pinar del Río, Sancti Spíritus e, mais recentemente, em Granma, onde os primeiros 360 hectares já foram plantados.
O plantio de diversas culturas também será incentivado, com ênfase na agricultura urbana e familiar. Fontes de energia renováveis serão utilizadas para irrigação, e a tração animal será aumentada, visto que “não teremos combustível suficiente para o uso generalizado de equipamentos no trabalho agrícola”.Estamos desenvolvendo algumas iniciativas com atores econômicos não estatais, com empresas estrangeiras que estejam dispostas a participar da venda de alimentos à população, buscando mecanismos que apoiem a redução de preços.
Na produção industrial, o setor se concentrará na fabricação, processamento e fornecimento de produtos químicos vitais, como os necessários para garantir a qualidade da água, o oxigênio e o cloro para o sistema de saúde e alguns processos industriais, “aproveitando ao máximo as capacidades das indústrias locais”.
No nosso país existe um potencial significativo a nível local. Além disso, a cobertura foi revista e assegurada para um grupo de produtos de alto impacto fabricados no país, particularmente para o sistema de saúde e outros setores importantes.
No setor turístico, foi elaborado um plano para reduzir o consumo de energia, adaptando as instalações e aproveitando a atual alta temporada, que está apresentando “resultados encorajadores e melhores do que os do ano anterior”.




