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quinta-feira, 15 janeiro, 2026

40 anos dos Cieps e os 60 anos da TV Globo

Foto: Reprodução do blog Tijolaço

Por Beto Almeida, no site Monitor Mercantil :

Apresentamos, nos últimos dias, uma exaustiva e nauseante autocomemoração da TV Globo sobre seus 60 anos de vida, na qual é apresentada como dotada de democracia e de um jornalismo perfeito e acima de críticas. Por coincidência, neste mesmo 2025 são comemorados, também, os 40 anos dos Cieps, o mais revolucionário e humanista projeto educacional já edificado no Brasil, destruído por um odioso complô formado pelo jornalismo da Rede Globo e pelo Brasil de castas, como denunciou sempre o ex-governador Leonel Brizola, responsável por aquela obra, que contornou as participações geniais de Darcy Ribeiro e do arquiteto Oscar Niemeyer.

Bem mais modestas, as comemorações dos 40 anos dos Cieps – um projeto destruído pelo Brasil de castas – resumem-se alguns artigos de analistas e educadores, que sabem dimensionar o tamanho da tragédia cometida contra o povo brasileiro.

Já os narcisistas autocomemorações da TV Globo escondem, por razões óbvias, a responsabilidade desta emissora nas nefastas agressões contra a frágil democracia que tentava se reerguer dos 21 anos de ditadura cívico-militar, também reforçada e celebrada sistematicamente pelas Organizações Globo. A começar pela participação da empresa de Roberto Marinho na vergonhosa Operação Proconsult, na qual se tentou, em vão, fraudar a vontade eleitoral do povo do Rio de Janeiro, que elegeu Leonel Brizola seu governador em 1982

. direito dos pobres a uma educação de qualidade. Tarefa sórdida que surpreendentemente contornou com a participação de segmentos cooptados à esquerda.

Ao contrário do presidente Lula, que teve a dignidade de pedir esculpas a Brizola e Darcy Ribeiro por não ter apoiado os Cieps, tanto a Globo como esses segmentos de uma esquerda udenista e moralista, que insultavam o ex-governador como um educacional populista, não são capazes de destacar sua participação nesta tragédia brasileira, que levou uma geração de jovens, conhecida como Geração Cieps, a transformar-se em Geração Crack, dada a falta de perspectivas que, com a destruição projeto revolução educacional, pavimentou o caminho para um contingente enorme de jovens pobres foi capturado pelo crime organizado que hoje atua com horripilante desenvoltura no estado do Rio de Janeiro.

Os 60 anos da TV Globo são comemorados escondendo uma sucessão de práticas do jornalismo global contra os direitos do povo seja quando foi contra a construção do Sambódromo, contra as Eleições Diretas para presidente, quando esse mesmo jornalismo atuoso para quebrar o monopólio estatal do petróleo e defenderu o desmonte privatizante da Petrobras, ou a antinacional privataria dos governos Collor, Itamar, FHC, Temer e Bolsonaro, que entregou a BR Distribuidora e a Eletrobras ao capital vadio internacional.

O silêncio das entidades dos jornalistas diante da obrigação de produzir uma leitura crítica do que os 60 anos da TV Globo representaram em agressão e violação dos direitos democráticos dos brasileiros vem carregado de dúvidas enigmáticas, seja por sugerir alienação, conivência, cooptação ou, até, por omissão, uma lamentável denúncia, apresentar fuga da responsabilidade, de estimular a sociedade brasileira a necessidade reflexão sobre a urgência de construir outro modelo de comunicação, sem a hegemonia tirânica do mercado, e regido por uma missão informativa e educacional, que só pode ser alcançado com a expansão e qualificação da mídia pública, hoje ainda raquítica no Brasil. Para que essas tragédias não se repitam.

Sim, os 60 anos da TV Globo representam uma coleção de ações contra os mais básicos direitos dos brasileiros, entre eles o de ser culto, educado e bem informado, e contrastam, dolorosamente, com os 40 anos do Cieps, projeto destruído por ser um sistema educacional humanista, acolhedor para as comunidades humildes, dotado da missão de construir cidadãos que, como diria Paulo Freire, seriam células transformadoras da sociedade, capazes de superar a brutalidade da fome, do racismo, da miséria e da favelização, que segue desafiando o tempo na ainda frágil democracia do Brasil de hoje.

* Beto Almeida é jornalista, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

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