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Postado em 21/07/2019 9:09

#VazaJato: Deltan sugeriu que Moro protegeria Flávio Bolsonaro

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Flávio Bolsonaro ao lado do ex-assessor Fabrício Queiroz. Foto: Reprodução/Redes sociais

Para procuradores da força-tarefa da Lava Jato não havia dúvidas de que filho do presidente estava envolvido em um esquema de corrupção

Jornal GGN – Em conversas trocadas pouco antes de o presidente Jair Bolsonaro assumir o poder, procuradores da força-tarefa da Lava Jato concordaram que não havia dúvidas de que o filho do presidente e recém eleito senador, Flábio Bolsonaro (PSL-RJ), estava envolvido em um caso de corrupção. O coordenador do grupo em Curitiba, Deltan Dallagnol, chegou ainda a sugerir que Sérgio Moro, agora chamado para assumir o Ministério da Justiça, protegeria Flávio para não desagradar o presidente e correr o risco de perder a indicação ao Supremo Tribunal Federal.

As informações são da 11ª parte da série de reportagens do site The Intercept Brasil, publicada neste domingo (21). Em chats trocados pelo aplicativo Telegram, Dallagnol concordou com os colegas do Ministério Público, de que Flávio mantinha um esquema de corrupção, quando deputado federal no Rio de Janeiro. O coordenador da força-tarefa da Lava Jato ainda levantou a preocupação de que Moro, agora como ministro de uma pasta que chefia a Polícia Federal, não iria seguir com as investigações desse caso.

O MP do Rio de Janeiro investiga possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo Flávio Bolsonaro e ex-assessores que trabalharam para ele no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alert), quando deputado estadual.

A investigação começou há mais de um ano e foi levantada pela movimentação atípica de R$ 1,2 milhão, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, na conta bancária de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. O volume da movimentação chamou atenção do Coaf, órgão de inteligência que atua contra a lavagem de dinheiro que recebe informações de instituições financeiras de todo o país quando elas encontram operações consideradas atípicas.

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A primeira troca de conversas exposta pelo Intercept, na matéria mais recente, aconteceu no dia 8 de dezembro de 2018. Dallagnol iniciou o assunto postando no grupo chamado “Filhos do Januário 3” o link de uma reportagem do UOL sobre o depósito de R$ 24 mil feito por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Para Dallagnol, Flávio seria “certamente” implicado no esquema que vinha dominando as manchetes naquele momento. “É óbvio o q aconteceu… E agora, José? Moro deve aguardar a apuração e ver quem será implicado. Filho certamente. O problema é: o pai vai deixar? Ou pior, e se o pai estiver implicado, o que pode indicar o rolo dos empréstimos? Seja como for, presidente não vai afastar o filho. E se isso tudo acontecer antes de aparecer vaga no supremo?”, escreveu Dallagnol.

“Agora, Bolso terá algum interesse em aparelhar a PGR, embora o Flávio tenha foro no TJRJ. Última saída seria dar um ministério e blindar ele na PGR. Pra isso, teria que achar um colega bem trampa”, completou o procurador.

O colega, Roberson Pozzobon, respondeu no mesmo grupo que “Moro já devia contar com a possibilidade de que algo do gênero acontecesse”. “A questão é quanto ele estará disposto a ficar no cargo com isso ou se mais disso vir”, arrematou.

Na troca de mensagens, Dallagnol apontou preocupação caso fosse questionado pela imprensa sobre o assunto: “Em entrevistas, certamente vão me perguntar sobre isso. Não vejo como desviar da pergunta, mas posso ir até diferentes graus de profundidade. 1) é algo que precisa ser investigado; 2) tem toda a cara de esquema de devolução de parte dos salários como o da Aline Correa que denunciamos ou, pior até, de fantasmas”.

Cerca de um mês depis, em 21 de janeiro de 2019, de fato Dallagnol foi procurado pela rede Globo para falar sobre foro privilegiado em uma matéria do Fantástico. A pauta teria como mote uma denúncia envolvendo o deputado federal Paulo Pimenta, do PT, mas o caso do filho de Bolsonaro, que tinha entrado com um pedido de foro no Supremo, também seria discutido na matéria.

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Dallagnol admitiu aos colegas que se fosse apenas para tratar das acusações contra o petista, daria a entrevista, mas preocupado com o desgaste de acabar atingindo Flávio Bolsonaro, decidiu não falar com a emissora.

Pouco antes dessa troca de mensagens, no dia 11 de dezembro de 2018, no grupo chamado “Winter is coming”, o procurador-regional da República, Danilo Dias escreveu sobre o caso Flávio Bolsonaro: “Não tenho dúvida de que isso é mensalinho. No mesmo esquema de Mato Grosso com Silval Barbosa”.

A colega, subprocuradora-regional da República, Luiza Frischeisen respondeu: “Pessoas da mesma família empregá-la , depósito de parte dos salários de servidores em dias de pagamento , outros depósitos , resta saber quem recebia os saques. Agora vem a quebra do sigilo. Vamos aguardar a investigação geral do MPRJ quanto aos assessores”.

O caso envolvendo filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro, apesar de ter o tamanho de um escândalo de grandes proporções, não teve mais grandes repercussões na imprensa nos últimos meses.

Uma decisão recente do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, a pedido da defesa do senador, impede o MP do Rio de prosseguir com as investigações, até que o Supremo decida sobre uma ação de repercussão geral a respeito do compartilhamento de dados sigilosos entre órgãos de controle e órgãos de investigação. A sessão que julgará este tema está marcada para o dia 21 de novembro.

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