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Postado em 02/03/2022 8:29

Svetlana a bordo

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Maria Luiza Franco Busse

De início este artigo poderia parecer uma resenha de romance de qualidade duvidosa, mas não é. Trata do impasse provocado pela Rússia contra a ofensiva EUA/OTAN,  determinado a conter o cerco que os governos dos Estados Unidos vêm empreendendo há mais de duas décadas sobre a região da Eurásia e com o olho comprido de soslaio sobre a China.

Entre EUA/OTAN e o território russo está a Ucrânia subserviente ao combo imperialista e oferecida a servir de base militar às pretensões da dupla. As negociações diplomáticas se estenderam a esgotar até a parcimônia de Lorde Bundinha, personagem teatral que gostava de enaltecer o que chamava “elasticidade do meu saco”.

A Rússia pediu para parar, EUA/OTAN não parou, e a Rússia entrou na Ucrânia numa operação militar especial explicitando a solicitação. Foi a deixa para desvio de foco da real política. Tanto para liberais quanto para setores da esquerda, a Rússia passou a vilã imperialista, desalmada, assassina de civis, covarde por atacar a pequena e indefesa Ucrânia. Num golpe de sacada botaram na mesa a tática discursiva da guerra Rússia contra Ucrânia,  e que a Rússia já perdeu a guerra contra a Ucrânia porque não contava com a astúcia do coquetel molotov. A Inteligência russa deve estar se perguntando por que empenhou tantos cérebros na construção de ações sérias para se deparar com tais contraofensivas patéticas, mas nem por isso menos corrosivas. Estaria sentindo a chamada vergonha alheia se não tivesse mais o que fazer no front de barrar o imperialismo da Pax Americana sustentado pelas armas da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

A metralhadora do século vinte girou na direção de presidente Putin que passou a capeta na sua forma de homem conservador de direita e católico. Agora é comparado a  Hitler no que foi diagnosticado com a expansão imperialista czarista russa, sem atentar para a crucial diferença de que a  justificativa de Hitler não foi a defesa dos alemães que moravam nos territórios invadidos, uma das razões apresentadas relativa à população russa de Donetsk e Lugansk. O princípio de Hitler era a expansão da Alemanha para formar “os espaços vitais”, ou seja, os territórios nos quais os povos dominados seriam mão-de-obra escravizada destinada ao crescimento e desenvolvimento do III Reich. Nem a China escapou desse nível retórico, digamos assim. Tem algum tempo é possível ouvir sobre o imperialismo chinês na África, em especial no Djibout que já virou colônia do perigo amarelo conforme a perspectiva do olho grande deste ocidente tão bonito quanto miserável em que vivemos há pouco mais de 300 anos. Sem falar no espírito de Bandung que não é mencionado por ignorância, cinismo, ou pelos dois motivos.

No caso do atual embate da Rússia com EUA/OTAN, transformado em guerra da Rússia com Ucrânia, a paz foi evocada com a palavra de ordem ‘Fora Russia da Ucrania’. Não se escutou ‘Fora EUA/OTAN da Ucrânia’. A pombinha símbolo de um mundo pacificado deve estar sentindo falta da faixa com os dizeres “Em nome da paz, é um erro colocar a Ucrânia na OTAN”.

E o que a Svetlana do título tem a ver com tudo isso? Svetlana era uma adorável moça russa que impactava a estética do circuito Helena Rubinstein quando aparecia na piscina do navio, que ia da Inglaterra a caminho da Holanda, com um biquini estampa de oncinha, roupão de seda caramelo brilhoso, e joias, muitas joias de ouro, entre pulseiras, colares e anéis. Ela não compreendia os olhares e alguns risos. Svetlana não entendia, e nem podia, que eram os do mundo que ajudou EUA/OTAN a derrubar a URSS envergonhados e rindo de si mesmos, sem se dar conta. Svetlana era uma jovem rica de alma russa. Anti-imperialista e nacionalista defensiva e soberana. Aberta ao contato com as novidades confessava baixinho estar muito assustada com a discriminação que sentia estar sofrendo. Mas não cedeu. Seguiu no seu desfile abraçando quem a abraçava e ignorando ou resistindo a quem a rejeitava. Não recuou uma polegada.  Aliás, não vamos esquecer que Marta Rocha, a eterna miss Brasil, perdeu a faixa de Miss Universo para a norte-americana Myrian Stevenson por duas polegadas. Era 1954. Até hoje há controvérsias, mas o fato verdadeiro é que o assunto  virou marchinha de carnaval em 1955 com o refrão “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas, e logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz”. Ainda sobre a Rússia, tudo indica que o país de Svetlana não terá dó para garantir a paz, que parece ser o que desejamos sem a hegemonia pretenciosa dos Estados Unidos garantida pelo arsenal da OTAN.

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